COMPORTAMENTO
03/11/2014 17:05 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Pastor Feliciano e Kid Bengala se encontram no projeto 'Conversa Suja'

Montagem/Gabriel Cabral

Pastor Feliciano perdeu a virgindade antes do casamento, com uma mulher décadas mais velhas.

Clóvis Basílio dos Santos, conhecido como Kid Bengala, prefere fazer papai e mamãe “pra gozar beijando na boca, abraçadinho”.

Marcos Motolo tinha até 30 orgasmos por noite. Era o demônio na cama. Até encontrar Jesus e virar pastor evangélico.

Nada é mais humano que a curiosidade por sexo. Curiosidade que levou o casal Anna Virginia Balloussier e Gabriel Cabral a desenvolver o projeto 'Conversa Suja', cuja proposta é abrir um diálogo sobre sexo por meio de histórias de personalidades e anônimos. Diálogo necessário numa época em que "todo mundo faz, mas nem todo mundo aceita quem faça de forma diferente da sua", ressalta Anna Virginia.

O interfone toca às 10h57 de sexta-feira. "É o Kid." Clóvis Basílio dos Santos, 59, "é o Kid" cuja bengala mede 33 centímetros ("medida comercial") ou 27 ("a de verdade"). Ele chega com um moletom azul da Gap, Samsung Galaxy embalado por uma capinha verde da Heineken. Encosta o loafer bico fino de couro graxo, tamanho 41, no banco e fala sem parar pelos próximos 90 minutos. Fala sobre o amigo dos Jardins que tem fetiche por mendigos e que certa vez deu para um carroceiro. A empresária "virada no Jiraya" que exigiu uma rapidinha do banheiro do Sujinho. O dia em que tomou dois viagras e mesmo assim brochou no set. A posição preferida: papai e mamãe, "pra gozar beijando na boca, abraçadinho". O ano em que caiu na depressão, abandonado pelo "grande amor", a Arizete. O caçula, 19 anos e 1,97 m, que dá uns rolês de skate na praça Roosevelt. O suborno que entregou a PMs com bafo de pinga, após ser flagrado comendo uma prostituta "que pra mim dava de graça", no banco de trás da sua Brasília marrom-caramelo, ano 1976. A estrela de "O Poderoso Bengão" carrega na caixa um consolo feito a imagem e semelhança do seu membro, fabricado pela Falotex. Lê-se no verso: "Para todos os meus fãs, com enorme carinho". Começou com a pasta para fazer a prótese peniana, que precisou ser feita "dentro de uma garrafa PET de dois litros". Ficou cinco minutos com o duro osso do ofício estacionado "naquele mingau". O molde foi para "um forno de fazer pão" por 50 minutos e, depois, ganhou um banho de água gelada. Ganha R$ 12 de "royalties" por cada réplica vendida. Agora diz que "o pau vai comer", mas em outro canto. É candidato "sem projetos" a deputado estadual pelo Partido Trabalhista Brasileiro. Se eleito, ganhará R$ 20.042,34 por mês na Assembleia Legislativa de São Paulo. Kid gosta de putaria.

Uma foto publicada por Anna e Gabriel (@conversasuja) em

 

"Sempre que estamos juntos falamos sobre sexo", conta o fotógrafo Gabriel ao Brasil Post. "Um dia, pelados na cama, surgiu a ideia de falar disso com outras pessoas." O objetivo é ter 69 histórias sexuais.

"Por um lado, sexualidade é uma coisa supernormal", diz a jornalista Anna Virginia. "Nem todo mundo fala, mas todo mundo faz, embora a gente resista a pensar que até nossa tia-avó que dá um par de meias de presente todo Natal possa fantasiar com uma prótese de dentadura. Mas sexualidade é também o fora do normal: entre quatro paredes não existe certo e errado, padrão e desvio. Esse conceito parece meio óbvio, mas na prática a gente sempre fala de taras como se tara fosse algo 'exótico'. Não é. E é isso que tentamos retratar: todo esse 'Kama Sutra' social, todas as possibilidades de amar (ou, às vezes, só dar uma rapidinha mesmo)."

O casal trabalha num jornal — Folha de S.Paulo — e, por isso, tem acesso a muitas pessoas que podem ser perfiladas para o projeto. Gente para falar de sexo não falta. "Na minha agenda telefônica você encontra lado a lado Paulo Maluf, o Caveira 37 do Bope [coronel Mário Sérgio de Brito Duarte, ex-comandante do Batalhão de Operações Especiais do Estado do Rio de Janeiro] e um ex-ator pornô que virou pastor evangélico, por exemplo. (Por ora só conversamos com o pastor, mas se Maluf topar...)", diz Anna Virginia. "Com o Feliciano mesmo: aproveitei uma entrevista que fiz com ele para fazer a proposta indecente. O assessor ficou receoso, mas ele topou."

Mas não são apenas nomes conhecidos do grande público que participam. "A meta é ter 69 conversas sujas, o que possivelmente resultará em uma publicação impressa, e a ideia é que elas aconteçam com a maior fauna humana possível", explica Gabriel. "A decisão de convidar anônimos e figuras públicas (polêmicas até demais) é mostrar que todo mundo tem questões ou histórias pra contar."

Entre os anônimos, Anna Virginia lembra o caso dos cegos Jucinele e Sandro. "Conversando com uma amiga que trabalha com inclusão, fiquei curiosa sobre os tabus na área. Acabei conhecendo o casal de cegos, que brinca sobre 'economizar a luz do motel' e fala abertamente da promiscuidade na 'cidadezinha do interior' que é o mundo dos deficientes visuais."

 

Esta "fauna humana" tem espécies que são caras ao casal. Anna Virginia sonha bater um papo sobre sexo com Silvio Santos — "queria muito saber qual é o baú da felicidade para ele" — e a presidente reeleita Dilma Rousseff — "saber se a presidente Dilma já cometeu alguma estripulia nos corredores do Planalto também seria bárbaro". Já Gabriel adoraria conversar com Havanir Nimtz, herdeira política do lendário Enéas Carneiro. "Ou um homem transexual."

O projeto 'Conversa Suja' está no Tumblr e no Instagram.