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03/11/2014 19:14 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Chico Buarque lê trecho de 'O Irmão Alemão', seu novo romance

Enfim, Chico Buarque está de volta à literatura. No dia 14 de novembro, a Companhia das Letras lança O Irmão Alemão, primeiro romance do escritor, cantor e compositor depois de Leite Derramado, livro de 2010 que venceu o Prêmio Jabuti de Livro de Ano na edição daquele ano.

Segundo a Veja, a narrativa de O Irmão Alemão deve ser baseada em uma história real: Chico Buarque teve um meio-irmão alemão que ele nunca conheceu. O historiador Sérgio Buarque de Hollanda, pai de Chico, morou na Alemanha de 1929 a 1930. No período, namorou Anne Margerithe Ernst, que engravidou. "O bebê foi registrado com o nome de Sérgio, mas apenas com o sobrenome da mãe", diz a revista. O autor de Raízes do Brasil retornou ao País e só voltou a ter notícia da namorada e do filho durante a Segunda Guerra Mundial: para proteger a criança da fúria nazista, Anne Margerithe lhe escreveu pedindo provas de que ele não tinha sangue judeu. Chico Buarque e os irmãos tentaram encontrar o meio-irmão — que, hoje, deve ter quase 90 anos —, mas nunca conseguiram.

Os livros de Chico Buarque

A estreia de Chico Buarque na literatura aconteceu em 1966, quando publicou um conto chamado "Ulisses" no Suplemento Literário, d'O Estado de S.Paulo. No mesmo ano, o conto passou a integrar o songbook A banda. Na década seguinte, Chico lançou a novela Fazenda Modelo (1974) e o infantil Chapeuzinho Amarelo (1979). Em 1981, chegou às livrarias A Bordo do Rui Barbosa, livro de poesia composto em parceria com o artista plástico e arquiteto Vallandro Keating.

O primeiro romance veio uma década depois. Estorvo, de 1991, rendeu ao escritor um Prêmio Jabuti. Quatro anos depois, Chico lançou Benjamim. Budapeste, seu terceiro romance, saiu em 2003 e arrebatou o segundo Prêmio Jabuti de sua carreira literária.

Leite Derramado, lançado em 2010. foi premiado com o Jabuti de Livro do Ano e gerou uma polêmica: enquanto a obra de Chico conquistou o segundo lugar na categoria Romance, atrás de Se Eu Fechar os Olhos Agora, de Edney Silvestre, Leite Derramado venceu o prêmio principal. Sérgio Machado, presidente do Grupo Record, que publicava Silvestre, alegou que seu escritor fora "garfado" e ameaçou não mais participar do Prêmio Jabuti. Na edição seguinte da premiação, as regras foram alteradas e ficou estabelecido que apenas os primeiros colocados de cada categoria poderiam concorrer a Livro do Ano.

 

Leia um trecho de 'O Irmão Alemão'

"Calma, Ciccio, disse minha mãe, quando já crescido lhe perguntei por que meu pai não escrevia um livro, uma vez que gostava tanto deles. Ele vai escrever o melhor libro del mondo, disse arregalando os olhos, ma prima tem que ler todos os outros. A biblioteca do meu pai contava então uns quinze mil livros. No fim superou os vinte mil, era a maior biblioteca particular de São Paulo, depois da de um bibliófilo rival que, dizia meu pai, não havia lido nem um terço do seu depósito. Calculando que ele tenha acumulado livros a partir dos dezoito anos, posso tirar que meu pai não leu menos que um por dia. Isso sem contar os jornais, as revistas e a farta correspondência habitual, com os últimos lançamentos que por cortesia as editoras lhe enviavam. A grande maioria destes ele descartava já ao olhar a capa, ou após uma rápida folheada. Livros que jogava no chão e mamãe recolhia de manhã para juntar no caixote de doações à igreja. E quando porventura ele se interessava por alguma novidade, sempre encontrava algum pormenor que o remetia a antigas leituras. Então chamava com seu vozeirão: Assunta! Assunta!, e lá ia minha mãe atrás de um Homero, um Virgílio, um Dante, que lhe trazia correndo antes que ele perdesse a pista. E a novidade ficava de lado, enquanto ele não relesse o livro antigo de cabo a rabo. Por isso não estranha que tantas vezes meu pai deixasse cair no peito um livro aberto e adormecesse com um cigarro entre os dedos ali mesmo na espreguiçadeira, onde sonharia com papiros, com os manuscritos iluminados, com a Biblioteca de Alexandria, para acordar angustiado com a quantidade de livros que jamais leria porque queimados, ou extraviados, ou escritos em línguas fora do seu alcance. Era tanta leitura para pôr em dia, que me parecia improvável ele vir a escrever o melhor libro del mondo. Por via das dúvidas, quando ao sair do quarto eu ouvia o toque-toque da máquina de escrever, tirava os sapatos e prendia a respiração para passar ao largo do seu escritório. E me encolhia todo se por azar naquele instante ele arrancasse num ímpeto o papel do rolo, achava que em parte era de mim a raiva com que ele esmagava, embolava a folha e a arremessava longe. Outras vezes a máquina cessava para meu pai pedir socorro: Assunta! Assunta!, era alguma citação que ele precisava transcrever urgentemente de um determinado livro. Com isso levava meses para redigir, rever, rasurar, arremessar bolotas, recomeçar, corrigir, passar a limpo e certamente contrafeito entregar para publicação o que seriam rascunhos do esqueleto do grande livro da sua vida. Eram artigos sobre estética, literatura, filosofia, história da civilização, que ocupariam uma coluna ou um rodapé de jornal. Quando papai morreu, apareceu um editor disposto a publicar uma coletânea dos artigos assinados por ele ao longo da vida. Fui contra, cheguei a mostrar à minha mãe a profusão de correções e emendas ilegíveis que meu pai sobrepusera ao texto ou anotara à margem dos próprios artigos, recortados dos jornais. Mas mamãe estava convencida de que o livro seria aclamado no meio acadêmico, quiçá editado até na Alemanha, graças aos escritos de juventude concebidos naquele país. E ainda insinuou que desde a infância eu procurava sabotar meu pai, haja vista aquele ensaio que por minha culpa desfalcaria suas obras completas. Meia verdade, porque era ao meu irmão que de tempos em tempos meu pai confiava um envelope a ser entregue na redação de A Gazeta, do outro lado da cidade, para isso, além do dinheiro do bonde, ele o remunerava com uma quantia suficiente para uma semana de milk-shakes. Mas volta e meia meu irmão me repassava o dinheiro do bonde e o envelope, que eu levava a pé à redação. Não me movia o dinheiro poupado, que mal pagava duas mariolas, eu ficava era todo prosa com tamanha responsabilidade. Ainda ganhei a simpatia dos funcionários do jornal, e não me importava de passar por um suado estafeta do meu pai, em cujas mãos despejavam mais umas moedas. Mas certa vez, a caminho da redação, parei para jogar um futebol de rua, era comum naquele tempo. Carros circulavam só de quando em quando, e ao avistá-los ao longe os meninos gritavam: olha a morte! Logo recolhíamos as lancheiras, as pastas, os agasalhos que representavam as balizas e aguardávamos na calçada a passagem do carro para recomeçar a partida. Mas nesse dia não foi o trânsito, foi uma chuva súbita que nos obrigou a apanhar depressa nossas coisas e buscar abrigo sob a marquise de um empório. Chegou a cair granizo, que catávamos do chão, chupávamos, atirávamos uns nos outros, uma festa. Mas de repente calhou de eu me lembrar do envelope do meu pai, que eu deixara debaixo de um pulôver e agora estava ali no meio do aguaceiro. Corri para salvá-lo e por pouco não fui atropelado, pois naquele segundo passou um Chevrolet que agarrou o envelope com o pneu e só o soltou duas quadras adiante. Fui colher seus restos, e não havia remédio, o artigo do meu pai era uma estranha massa cinzenta, uma maçaroca de papel molhado".