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02/11/2014 16:38 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Desaparecimento de 43 estudantes no México expõe polícia corrupta e autoridades coniventes com crime

AP Photo/Marco Ugarte

Após um protesto de estudantes em Iguala, México, em setembro, dezenas de jovens foram vistos sendo colocados em vans da polícia. E então eles sumiram.

Um mês depois, 43 alunos da faculdade de professores rurais de Ayotzinapa seguem desaparecidos, e acredita-se que estejam mortos. Em vez de encontrar os estudantes, as autoridades que investigam os eventos de 26 de setembro descobriram outros horrores: uma série de valas comuns, policiais trabalhando para os carteis de narcotraficantes e autoridades no comando de um submundo sombrio.

A busca ao estudantes trouxe à tona a brutalidade e a impunidade em partes do México ainda sob controle dos carteis, apesar dos anos de guerra contra as drogas.

Eis aqui algumas das descobertas da investigação governamental:

A última vez em que os estudantes foram vistos

Os estudantes – adolescentes do sexo masculino ou com 20 e poucos anos – eram alunos de uma escola que forma professores para as áreas rurais do país. A escola tem histórico de ativismo de extrema esquerda, segundo a BBC. Naquela sexta-feira, eles participariam de um protesto contra discriminação em contratações e também levantariam fundos para um protesto previsto para março do ano que vem.

Testemunhas afirmam que os estudantes estavam em Iguala, cidade no sul do país, quando foram alvejados por tiros da polícia.

No fim da noite, seis estavam mortos. O corpo de um dos estudantes foi encontrado mais tarde com a pele do rosto e os olhos arrancados, segundo a New Yorker, “uma marca registrada de assassinatos cometidos pelo crime organizado”.

Alguns dos estudantes conseguiram fugir de Iguala, mas 43 deles não foram vistos desde aquela noite. Os sobreviventes afirmam que seus colegas foram levados pela polícia, mas as autoridades negam que eles estejam presos.

Como os estudantes não voltaram para casa, parentes e simpatizantes foram às ruas protestar, o governo federal começou uma investigação.

O prefeito da cidade e sua mulher supostamente controlam o cartel de drogas local.

Segundo a investigação, o prefeito de Iguala, José Luis Abarca Velázquez, mandou a polícia impedir o protesto a qualquer custo.

O prefeito e sua mulher, María de los Ángeles Pineda Villa, são os “prováveis mentores” do crime e estão foragidos, segundo o procurador-geral do país.

A investigação levou a acusações de que Abarca e Pineda sejam os cabeças de uma organização assassina, juntamente com o cartel de traficantes locais, os Guerreros Unidos.

Depois de sua prisão, o líder do cartel disse aos investigadores que Pineda – filha e irmã de integrantes do cartel – é a “operadora chave” da rede criminosa de Iguala. Como o protesto dos estudantes ameaçava atrapalhar o evento em que ela lançaria sua candidatura à prefeitura da cidade, Pineda ordenou “uma lição” aos manifestantes, segundo afirmou o chefe do cartel às autoridades, segundo o Daily Beast.

Apesar de o governo expressar choque, os habitantes da região dizem que as autoridades sempre fizeram vistas grossas para as conexões do casal com os criminosos. “Todos sabiam das ligações deles com o crime organizado”, disse à Associated Press Alejandro Encinas, senador do Partido da Revolução Democrática (PRD), o mesmo do prefeito Abarca. “Ninguém fez nada: o governo federal, o governo estadual, a liderança do partido.”

Os investigadores afirmam que a polícia entregou os 43 estudantes desaparecidos para membros do cartel Guerreros Unidos, afirmando se tratar de integrantes de uma gangue rival.

Membros dos Guerreros Unidos admitiram ter matado alguns dos estudantes e ter jogado os corpos numa vala – mas os corpos ainda não foram identificados.

Narcotraficantes presos denunciaram pelos menos 30 policiais locais que trabalhavam diretamente para o cartel. “Eu não chamaria essa polícia de uma ‘polícia’. Eu os chamaria de assassinos de aluguel”, disse o procurador geral do país, Jesús Murillo Karam.

Dezenas de policiais foram presos desde então, e as autoridades afirmam que alguns deles confessaram. O chefe de polícia de Iguala também está desaparecido. A polícia federal assumiu a segurança de Iguala, desarmando a força local.

Enquanto isso, uma faixa exigindo a libertação dos policiais apareceu em Iguala, assinada pelo cartel Guerreros Unidos. “Ou então vamos revelar o nome de todos os políticos que trabalham para nós. A guerra está só começando”, ameaçava a faixa.

O controle do cartel deve ir muito além de uma só cidade. Acredita-se que o cartel Guerreros Unidos controle rotas do tráfico nos Estados de Guerrero, onde fica Iguala, e no vizinho Morelos. A colusão dos criminosos com os governantes vai muito além de Iguala.

A polícia federal assumiu o controle de mais de 12 cidades no sul do México, depois de encontrar “supostos elos com o crime organizado” em suas forças policiais, disse Alexandro Rubido, o comissário de Segurança Nacional do país.

O cartel é um dos vários grupos dissidentes do cartel de Sinaloa que surgiram por volta de 2011, segundo o grupo de jornalismo investigativo InSight Crime. Os enfrentamentos entre os grupos por controle de territórios fez explodir a violência, e Guerrero registrou o maior índice de homicídios do México no ano passado, segundo o grupo.

Muitos mais estão desaparecidos ou mortos

Nas buscas pelos estudantes, os investigadores encontraram pelo menos 12 valas comuns nas proximidades de Iguala, com dezenas de corpos não-identificados. Até agora, as autoridades afirmam que nenhum dos restos mortais corresponde aos estudantes.

As terríveis descobertas confirmam o teor dos moradores: que uma encosta da região seja um cemitério para os desaparecidos.

Somente este ano, 150 corpos foram encontrados em valas secretas no Estado, segundo o InSight Crime, citando as autoridades legistas de Guerrero.

Em todo o país, mais de 20.000 pessoas desapareceram nos últimos oito anos, segundo dados oficiais. Nik Steinberg, da Human Rights Watch, investigou o problema a fundo e escreveu na Foreign Policy que, se metade dos casos forem confirmados, seria “uma das piores ondas de desaparecimento nas Américas em décadas”.

“As evidências sugerem que não só as autoridades deixaram de investigar os desaparecimentos como, em muitos casos, soldados e policiais estão envolvidos neles”, escreveu Steinberg em artigo publicado antes do desaparecimento dos estudantes de Iguala.

Enquanto isso, as famílias dos estudantes mantêm esperanças de que eles possam ser encontrados.

“Hoje, o México inteiro ressoa com o grito de ‘Eles foram levados vivos, que voltem vivos’”, escreveu o poeta e ex-diplomata mexicano Homero Aridjis em um post recente para o The WorldPost. “Os mexicanos estão cansados de viver num estado de impunidade e corrupção”, disse ele.

O desaparecimento dos estudantes e as acusações de cumplicidade por parte das autoridades levaram milhares de manifestantes indignados às ruas do país para exigir que eles sejam encontrados – e também para exigir justiça.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.