MULHERES
31/10/2014 15:06 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Ela tinha apenas 10% de chance contra o câncer de mama e conseguiu dar a volta por cima

Uma mulher com câncer de mama pode ter sua autoestima dilacerada. Mas também pode (e deve) dar a volta por cima e recuperar a feminilidade com dignidade. Com a empresária carioca Adriana Silva foi assim que aconteceu e hoje ela quer inspirar outras mulheres a fazer o mesmo - e sorrindo.

Como muitas outras mulheres, ela descobriu aos 35 anos um caroço na mama direita, durante um banho demorado. Em treze dias, ela viu sua vida mudar quando exames detectaram um câncer em estágio avançado. Os especialistas foram categóricos: ela só tinha 10% de chance de cura.

“Ele [David Jay] queria que eu ficasse séria e fizesse um olhar triste. Eu não consigo ficar séria. Foi uma foto tirada assim, entre uma pausa e outra, com naturalidade. Não tinha como eu não sorrir”

Para mostrar que é possível vencer esta luta e recuperar a autoestima, Adriana se juntou à fundação Laço Rosa, do Rio de Janeiro, e não pensou duas vezes em mostrar a cicatriz que ficou da mastectomia com um sorriso no rosto, feminilidade, coragem e força no The Scar Project, do fotógrafo David Jay, que pela primeira vez traz brasileiras como protagonistas.

Sem nenhum caso anterior de câncer na família, a carioca descobriu a doença em 2011 e hoje, em 2014, está com 38 anos - e saudável. O que prova que, mesmo com chances pequenas de cura, ela conseguiu reverter o quadro com ajuda de especialistas e com o apoio da família. Ela precisou fazer a mastectomia completa, optou por não fazer a reconstrução e, em entrevista ao Brasil Post, revela detalhes dos três anos de tratamento.

Diagnóstico e Cirurgia

“Da última vez que eu fiz os exames, não precisei fazer a mamografia por causa da faixa etária. Mas, nove meses depois, eu senti um caroço no banho e fui procurar um especialista. Em treze dias eu descobri que tinha câncer de mama. Um mês depois, já estava fazendo a cirurgia. O câncer tinha tomado conta da mama, estava calcificado e tinha ido para a axila também.”

“Eu fiquei fora de mim. Em órbita. Não tinha atitude pra nada. Meu namorado na época resolveu tudo. Eu não conseguia tomar mais decisões sobre nada. Foi muito difícil. Em um dia você está bem, no outro está com câncer e não sabe o que fazer. É um diagnóstico devastador.”

Eu não acreditava que eu iria vencer. Todo mundo me apoiou. Você também tem que ficar um pouco pra cima. As pessoas esperam muito de você e eu não queria que elas sentissem o meu sofrimento.”

“Eu tirei um caroço de 9 centímetros. Do dia da biópsia até a cirurgia ele cresceu muito. Como ele era de grau três, o crescimento era muito avançado. Foram tirados 28 ninfonódulos contaminados da minha axila."

Sequelas e autoestima

“A pior parte é o cabelo. Por mais que você fique preparada... Na hora que você perde [o cabelo], você percebe que não está preparada para isso. Aí vem a sobrancelha, a perda dos cílios. O meu cabelo era na cintura. Sempre fui muito vaidosa.”

“O cabelo, os cílios, a sobrancelha, a libido. Você perde tudo. Eu engordei 15 quilos. E sempre fui muito vaidosa. As pessoas até falavam pra mim: ‘Adriana, achei que você não ia aguentar’. Eu me transformei. Hoje eu não tenho um terço da beleza que eu tinha antes do câncer. Mas isso não me incomoda mais.”

Valorização da vida

“Eu não me considerava uma pessoa forte. Eu chorava até com novela. Mas eu me sinto mais forte hoje. Tudo isso faz a gente pensar muito mais sobre a vida. Eu ainda estou no grupo de risco. Só tem três anos que eu fiz a cirurgia, toda vez que eu faço um exame eu fico pensando: ‘será que vai voltar?’. Eu vivo esse medo constantemente na minha vida. Mas eu me sinto curada.”

“Eu não desejo isso para ninguém. É muito complicado. A parte boa é que você passa a olhar a vida de uma forma diferente. Você curte pequenos momentos na vida. A raiva é uma coisa que você aprende a controlar e não se estressa por qualquer coisa. Às vezes eu fico até zen demais. Tem coisas muito melhores para viver do que ficar perdendo tempo."

"Com o The Scar Project, a gente recebeu críticas das pessoas mais próximas. Elas dizem: 'não precisava'. É claro que precisa. Eu sei de três pessoas que estão passando por isso agora e que, quando olham para esses exemplos, sabem que é possível virar o jogo."

The Scar Project no Brasil

Batizada de The Scar Project, a exposição ganha, pela primeira vez, a sua versão brasileira com cerca de 27 imagens de mulheres que lutaram com a doença - e sobreviveram - no Museu de Arte Contemporânea (MAC), em Niterói, no Rio de Janeiro.

A mostra ficou em cartaz neste mês, em comemoração ao Outubro Rosa.

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A vinda do projeto para o Brasil foi iniciativa da Fundação Laço Rosa, que atua disseminando informações de prevenção ao câncer de mama, em parceria com a ONG Niterói Mais Humana. "Espero que este trabalho seja instigante para o público no Brasil e que eles possam se envolver em um nível que ultrapasse a doença”, ressaltou à imprensa o fotógrafo David Jay, idealizador do projeto.

O The Scar Project busca alertar para a detecção precoce do câncer de mama, além de ajudar jovens que passaram por este momento a encarar suas cicatrizes por um novo ângulo, uma nova lente. Desde o início do projeto, mais de cem mulheres em vários países já foram clicadas.

The Scar Project

Visitação: até 2 de novembro

Horário de funcionamento: De terça a domingo, das 10h às 18h.

Ingresso: R$ 10,00

Endereço: Mirante da Boa Viagem, s/n – Niterói RJ

Mais informações: www.macniteroi.com.br

Veja mais imagens do projeto The Scar Project na galeria de fotos abaixo:

Galeria de Fotos The Scar Project: mulheres do Brasil Veja Fotos