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30/10/2014 03:02 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Fogo amigo: PMDB encurrala Dilma no Congresso Nacional e pretende engrossar oposição a ela no segundo mandato

Montagem/Estadão Conteúdo

Antes mesmo de começar o segundo mandato, a presidente reeleita, Dilma Rousseff, já percebeu nesta semana os percalços que terá pela frente no Congresso Nacional. Apesar de insistir que pretende dialogar com todos os setores, ela enfrentará uma oposição forte tanto na Câmara quanto no Senado.

E é da base aliada que estão vindo as vozes capazes de derrubar os projetos do Executivo. O PMDB, maior parceiro do PT, mostrou em dois dias que vai continuar dando as cartas no Parlamento. E não vai facilitar o governo de Dilma.

A primeira derrota foi na Câmara, onde foi aprovado na terça-feira (28) o projeto que anula o decreto presidencial instituindo os conselhos populares.

Um dia depois, foi a vez de o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), deixar claro que os senadores votariam contra esse decreto de participação social, formulado pelo governo.

"Já havia um quadro de insatisfação com relação a essa matéria [antes das eleições]. Ela ser derrubada na Câmara não surpreendeu, da mesma forma que não surpreenderá se ela for — e será — derrubada no Senado Federal", cravou Calheiros.

O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, viu na derrota na Câmara um ato de revanche de parlamentares do PMDB. "Nada mais anacrônico, contra os ventos da história, nada mais do que uma tentativa triste de se colocar contra uma vontade irreversível do povo brasileiro, que é de participação", argumentou.

Aliado de Dilma, Calheiros subiu o tom e acendeu fogo amigo. "Mais uma vez o ministro Gilberto Carvalho não está sabendo nem do que está falando", provocou. "Essa coisa da criação de conselho é conflituosa, não prospera de forma conceitual; deverá cair."

Tensão

A retaliação, a que se refere o ministro Gilberto Carvalho, é real e tem relação com problemas entre o PT e o PMDB em campanhas estaduais.

O presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN), por exemplo, está desapontado com o Palácio do Planalto porque foi derrotado na eleição para o governo do Rio Grande do Norte. Seu adversário, Robinson Faria (PSD), recebeu apoio do ex-presidente Lula.

Foi Henrique Alves que prontamente colocou em votação o projeto do Legislativo que susta o decreto dos conselhos populares.

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Outro perdedor das urnas foi o senador Eunício Oliveira (PMDB-CE), que concorria ao governo do Ceará. Oficialmente, ele diz que vai continuar apoiando a presidente Dilma.

Entretanto, ele estaria bastante incomodado com as promessas não cumpridas de ter Lula como cabo eleitoral no estado.

Eunício acabou perdendo para um candidato do PT — Camilo Santana, aposta dos irmãos Ciro e Cid Gomes, do PROS.

PT X PMDB

Além das tensões acumuladas de campanha, o cenário fica ainda mais complicado para Dilma por causa da iminente eleição da presidência da Câmara, que ocorre no início de 2015.

Como o PT elegeu a maior bancada de deputados (70), o partido reivindica a presidência da Casa, cumprindo inclusive o "acordo de revezamento" que existe com o PMDB.

Entretanto, o PMDB está mexendo os pauzinhos para se manter no cargo e, no lugar de Henrique Alves, já indicou o líder Eduardo Cunha (PMDB-RJ), grande calo no pé de Dilma no início deste ano.

O Palácio do Planalto havia vetado o nome dele porque Cunha liderou um "blocão" de legendas aliadas que passou a votar contra o governo no primeiro semestre.

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Por força de Cunha, a votação de uma proposta da envergadura do Marco Civil da Internet ficou emperrada, deixando Dilma bastante angustiada às vésperas de um evento internacional sobre governança de internet.

Agora, Cunha recebeu o aval do PMDB e vai tentar formar um bloco parlamentar para medir forçar de seu partido com o PT na briga pela presidência da Casa.

"Não há uma boa harmonia para que o PT consiga impor uma candidatura. Eu acho muito difícil uma candidatura do PT lograr êxito na Casa", disse Cunha, dando pistas de como será a relação entre os dois partidos nos próximos meses.

(Com Estadão Conteúdo)