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30/10/2014 17:47 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Com setor em crise, montadoras no Salão do Automóvel pedem ações do governo

MARCELO GONCALVES/SIGMAPRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

A 28ª edição do Salão Internacional do Automóvel abre as portas ao público hoje (30), em um momento de crise no setor automobilístico brasileiro. As vendas estão 10% abaixo do volume registrado em 2013 e várias empresas têm funcionários em lay-off (com contratos suspensos por cinco meses).

O cenário é diferente daquele registrado no último salão, em 2012, quando o setor bateu recorde, com 3,8 milhões de veículos vendidos, e diversas marcas anunciaram fábricas no País. "O setor passou este ano por uma espécie de tempestade perfeita", diz Rodrigo Baggi, analista do setor automotivo da Tendências Consultoria.

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Segundo ele, começou com o aumento do custo da energia no início do ano, passou pela interrupção do crédito do Banco Nacinal de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para caminhões, pela paradeira das vendas durante a Copa e depois pela crise de confiança dos consumidores e o período de indefinição das eleições.

A partir de agora, Baggi vê chances de melhora no mercado, mas não o suficiente para recuperar toda a perda verificada até este momento. Até sexta-feira, foram vendidos 2,763 milhões de veículos (incluindo caminhões e ônibus), queda de 10% em comparação a igual período de 2013.

A Tendências projeta que o ano feche com queda de 8,6%, enquanto a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) mantém previsão de queda de 5,4%, porcentual que pode ser revisto nas próximas semanas.

Em outubro, até sexta-feira, 24, foram licenciados 237,2 mil veículos, queda de 0,2% ante o mesmo intervalo de setembro, revertendo uma alta de 2% registrada na primeira quinzena do mês. Em relação a outubro de 2013, há queda também de 10%.

O presidente da Anfavea, Luiz Moan, acredita numa melhora no último trimestre. "Teremos mais dias úteis e teremos a abertura do Salão do Automóvel (que deve receber 750 mil visitantes), que é um motivador das vendas", diz. Ele conta ainda com a sazonalidade de fim de ano, em razão das festas e do pagamento de 13º salário, para impulsionar as vendas.

Baggi, porém, acredita que o salão terá pouco resultado nas vendas. "Teria mais impacto se os fundamentos da economia estivessem melhor".

Montadoras e o futuro do mercado

Hyundai pede ao governo regras estáveis — A Hyundai espera que a economia brasileira seja mais competitiva no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff (PT), disse nesta terça-feira, 28, o presidente do Grupo Caoa, Antônio Maciel Neto, durante coletiva de imprensa no 28º Salão do Automóvel.

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De acordo com ele, após a reeleição da petista, o setor automotivo espera uma diminuição das incertezas e, com isso, a normalização do mercado. Maciel disse esperar do novo governo uma estabilidade das regras em relação ao setor. Ele destacou ainda que o Grupo Caoa investiu R$ 1,8 bilhão nos últimos sete anos e que já produziu 180 mil unidades na fábrica de Anápolis (GO) em 2014.

Ford espera recuperação do mercado em 2015 — A Ford espera uma recuperação do mercado automotivo a partir do segundo semestre de 2015, afirmaram, nesta terça-feira, 28, dirigentes da empresa durante entrevista à imprensa no 28º Salão do Automóvel, aberto hoje. Eles disseram esperar mudanças por parte do governo que possibilitem uma retomada da economia brasileira como um todo, mas ponderaram que aguardam sinais mais claros dessas modificações, como a indicação da nova equipe econômica da presidente Dilma Rousseff, para tomar decisões em relação aos investimentos futuros.

Ford Edge Concept #Salao4Rodas

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O presidente da Ford na América Latina, Steven Armstrong, avaliou que a queda nas vendas da indústria automobilística neste ano em relação a anos anteriores foi causada por uma série de fatores, entre eles a Copa do Mundo e as eleições, que impactaram na economia brasileira como um todo. Diante disso, ele prevê que o setor deva encerrar 2014 com um total entre 3,2 milhões e 3,3 milhões de unidades vendidas, das quais a marca deve ter participação de aproximadamente 10%, o que daria algo em torno de 33 mil automóveis.

"A primeira metade de 2015 ainda vai ser ruim. Somente a partir do segundo semestre devemos começar a se recuperar", afirmou. Para ele, uma retomada maior do setor em 2016 vai depender da volta de crescimento maior do PIB. Ele defendeu que a indústria brasileira precisa se tonar mais competitiva e, para isso, é preciso combater o chamado Custo Brasil, ainda muito alto. Apesar de não dar previsão, ele garantiu que a Ford deve continuar investindo em novos produtos. De 2011 a 2015, o total investido pela empresa deve ser de R$ 4,5 bilhões.

O vice-presidente da Ford América do Sul, Rogélio Golfarb, por sua vez, destacou que o principal gargalo que a indústria automobilística brasileira deve resolver é o excesso de capacidade. Segundo ele, na América do Sul, a Ford deve encerrar o ano com 45% da sua capacidade ociosa, podendo subir próximo de 50% em 2015. Outro problema, citou, é em relação ao IPI. Apesar de dizer que trabalha com o fim da redução da alíquota em 2014, ele afirma que o diálogo com o governo para tentar prolongar o benefício "nunca parou".

Para Honda, 2015 será um ano de ajustes econômicos — O presidente da Honda na América do Sul, Issao Mizoguchi, avaliou nesta terça-feira, 28, que o mercado automotivo deve ter em 2015 um desempenho semelhante ao de 2014, uma vez que o próximo ano será de ajustes na economia. Ele destacou que uma possível retomada do crescimento da indústria automobilística só deve ocorrer em 2016 e dependerá das mudanças prometidas pela presidente Dilma Rousseff. O executivo se disse confiante em relação à adoção de reformas.

Honda lança HR-V no Salão. #Salao4Rodas

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"2015 vai ser um ano em que a economia vai ter que tomar alguns remédios", afirmou durante entrevista à imprensa no Salão Internacional do Automóvel. Segundo ele, a principal mudança a ser adotada deve ser a retomada dos investimentos em infraestrutura e logística, bem como ajustes nas políticas de juros e de combate à inflação. Mizoguchi garantiu que, mesmo com perspectivas não muito boas, a Honda mantém os investimentos a longo prazo, embora não revele números. "O potencial do mercado brasileiro continua fantástico", disse.

Mizoguchi defendeu ainda que é preciso diversificar as estratégias de estímulo ao consumo. De acordo com ele, o fim da redução do IPI no fim deste ano deve ter um impacto nas vendas a partir de 2015, provocando um aumento de 2% no valor total dos automóveis. Ele avaliou também que hoje o crédito está restrito, mesmo com as medidas de incentivo do Banco Central, pois faltam condições melhores para os bancos emprestarem. O executivo ponderou, contudo, que o volume de crédito não tem impacto grande na venda de automóveis Honda, ao contrário do que ocorre no segmento de motos da marca.

Toyota avalia prorrogação do IPI como muito necessária — A prorrogação da redução do IPI para o setor automotivo é algo "muito necessário" diante da situação atual do mercado automotivo, defendeu nesta terça-feira, 28, o vice-presidente executivo da Toyota no Brasil, Luiz Carlos Andrade Júnior. Ele afirmou que a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) está negociando com o governo federal a postergação do benefício, previsto para acabar em 31 de dezembro deste ano, mas não deu muitos detalhes.

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Durante entrevista à imprensa no Salão do Automóvel, Andrade Júnior disse esperar que o governo federal mantenha e expanda o diálogo com a indústria automobilística no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, para que o setor possa passar por mudanças e se tornar mais competitivo. Ele avaliou que o governo deve focar o investimento em infraestrutura e logística e a reforma tributária, a qual "queremos fazer a quatro mãos".

De acordo com ele, o setor automotivo em geral deve ter desempenho um pouco melhor em 2015, embora a participação da Toyota no mercado deva continuar a mesma, em torno de 6% nos dois anos. A estimativa da empresa é de que o mercado termine 2015 com cerca de 3,5 milhões de unidades vendidas no País, 100 mil a mais do que a previsão para este ano. Para 2016, ele pondera que uma possível recuperação do setor vai depender das mudanças a serem anunciadas por Dilma.

"Precisamos de investimentos externos, e isso só vai acontecer se os investidores tiverem confiança na economia", afirmou. O vice-presidente executivo da Toyota disse ainda que os investimentos da marca no Brasil são "mutáveis" e feitos de acordo com o acompanhamento que a empresa faz em relação à demanda. O dirigente disse, no entanto, não poder revelar números.

Volks não está otimista com promessas de Dilma — O presidente da Volkswagen do Brasil, Thomas Schmall, avaliou nesta terça-feira, 28, que as vendas de automóveis no País podem crescer até 4% em 2015, dependendo das mudanças na economia a serem anunciadas pelo governo federal, mas não se mostrou otimista em relação a uma real disposição da presidente Dilma Rousseff em implementar as reformas necessárias no segundo mandato. As declarações foram dadas durante entrevista à imprensa no Salão Internacional do Automóvel.

VW apresentou o novo Touareg. #Salao4Rodas

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Segundo ele, não basta para o setor apenas manter a redução do IPI: é preciso um pacote de medidas que possam aumentar as vendas de veículos, entre elas o incentivo à exportação por meio da redução do chamado Custo Brasil. Ele destacou, contudo, que a medida mais urgente deve ser o incentivo à concessão de financiamentos, por meio da redução dos custos dos bancos. Ele citou também a necessidade de um programa de renovação de frota, como aconteceu na Alemanha, EUA e Itália.

O presidente avaliou que 2015 será um ano de ajustes. Ele destacou que a Volkswagen ainda tem um estoque "maior do que deveria". Por conta disso, defendeu a ampliação do período de lay-off (afastamento temporário do trabalhador) para "qualquer tempo" além do máximo de cinco meses estabelecidos pela legislação atual. Mais cedo, o presidente da GM no Brasil, Santiago Chamorro, afirmou que a empresa e outras montadoras voltaram a negociar com o governo a ampliação para, no mínimo, um ano.

Schmall informou que atualmente 1,2 mil funcionários da Volkswagen estão em lay-off nas quatro fábricas da marca espalhadas pelo Brasil. "Ainda precisamos fazer ajustes, por isso faz sentido prolongar", defendeu. O presidente da empresa fez questão de ressaltar, contudo, que a companhia também tem utilizado outras medidas para ajustar estoques, como concessão de folgas por banco de horas acumuladas e férias coletivas.

Com o alto nível de estoques em várias montadoras, Schmall afirma que a Volkswagen projeta que o mercado automotivo brasileiro deve encerrar 2014 com vendas abaixo de 3,4 milhões de unidades. Para 2015, com a "esperança de melhora", ele afirma que as vendas devem crescer entre 3% e no máximo 4%, dependendo das mudanças aguardadas. Questionado se acredita na real chance de reformas por parte de Dilma, ele ironizou: "Acredito quando vou à igreja no domingo".

Mesmo com projeções não muito animadoras, Schmall afirmou que a Volkswagen mantém o plano de investir até R$ 10 bilhões entre 2012 e 2018. "Nenhuma montadora define seu plano de investimentos pela situação atual", afirmou. "O potencial de crescimento do mercado brasileiro é grande", justificou, destacando que a população é jovem e, ao mesmo tempo em que 40% ainda não têm condição de comprar um carro atualmente no País, está havendo um aumento da classe média.

(Com Estadão Conteúdo)