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12/10/2014 14:10 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Presidente do PSB declara apoio a Dilma Rousseff e consolida ‘racha' aberto pela eleição presidencial no partido

RUDY TRINDADE/FRAME/ESTADÃO CONTEÚDO

A falta de coerência na aliança entre PSB e PSDB neste segundo turno das eleições presidenciais já foi noticiada aqui no Brasil Post. Caciques das duas siglas trocaram farpas no primeiro turno e a aliança firmada na semana passada ainda rende. A novidade agora foi o anúncio de que o presidente do PSB, Roberto Amaral, vai apoiar Dilma Rousseff (PT) no segundo turno.

Em carta aberta publicada em seu site oficial, Amaral criticou a decisão tomada por seu partido classificando-a de “suicídio político-ideológico” e uma opção pelo “polo mais atrasado”, em referência ao candidato Aécio Neves. “O apoio à reeleição da presidente Dilma Rousseff é, neste momento, a única alternativa para a esquerda socialista e democrática”, escreveu.

“Ao aliar-se acriticamente à candidatura Aécio Neves, o bloco que hoje controla o partido, porém, renega compromissos programáticos e estatutários, suspende o debate sobre o futuro do Brasil, joga no lixo o legado de seus fundadores – entre os quais me incluo – e menospreza o árduo esforço de construção de uma resistência de esquerda, socialista e democrática”, emendou Amaral.

A posição do atual presidente do PSB, em tom de desabafo, é justificada. Ele foi voto vencido na reunião da Executiva da sigla, realizada na última quarta-feira (8), a qual definiu o apoio a Aécio no segundo turno. Amaral defendia a neutralidade do partido, assim como outros seis integrantes da Executiva. Acabaram vencidos, já que 21 companheiros discordaram.

De quebra, o dirigente não integra a única chapa registrada para as eleições da Executiva do PSB, marcadas para esta segunda-feira (13). Tudo indica que o candidato único, Carlos Siqueira, será eleito para comandar a sigla. Ele, que era assessor direto do então candidato Eduardo Campos antes de sua morte, em agosto, se afastou tão logoMarina Silva assumiu a candidatura à Presidência da República.

“Ao aliar-se à candidatura Aécio Neves, o PSB traiu a luta de Eduardo Campos, encampada após sua morte por Marina Silva, no sentido de enriquecer o debate programático pondo em xeque a nociva e artificial polarização entre PT e PSDB”, avaliou. No artigo, o presidente criticou ainda o debate interno em sua legenda, afirmando que restringiu-se “à disputa rastaquera dos que buscam sinecuras e recompensas nos desvãos do Estado” e denunciando conversas sobre quadros da sigla que poderiam integrar o ministério de um eventual governo do PSDB.

Versão ‘direitista’ do PSB pela primeira vez

Sem Eduardo Campos, o PSB ensaia pela primeira vez uma trajetória à direita do espectro político desde sua fundação em 1947. A legenda, que desde a redemocratização viveu sob a órbita do PT, a quem apoiou em cinco das seis últimas eleições presidenciais e integrou sua base aliada em 11 dos 12 últimos anos, se apresenta pela primeira vez como aliado nacional do PSDB.

Depois de oficializar o apoio aos tucanos, o partido articulou sua sucessão interna de modo que os que se posicionaram contra o apoio ao tucano ficassem excluídos da Executiva nacional. De quebra, iniciou conversas com tucanos para ser seu braço de apoio em uma eventual base aliada de Aécio; ou uma oposição a Dilma, se ela for reeleita.

Um dos que lideraram esse movimento, o presidente do PSB em Minas, deputado Júlio Delgado, diz que a mudança é um momento histórico. “Nunca antes havíamos ficado com o PSDB contra o PT”, disse, ressaltando não se tratar de submissão aos tucanos. “O Aécio disse muito claramente que a aliança não é para tornar o PSB submisso, porque isso não aceitaremos. Nós o apoiamos no 2.º turno porque ele representa a possibilidade de mudança, o que era defendido por Eduardo Campos”, disse.

O próximo presidente do partido, Carlos Siqueira, que coordenou a campanha de Campos até a sua morte, em 13 de agosto, diz que a legenda continuará a perseguir o socialismo. “Eventual apoio ao PSDB não passa de eventual apoio, como apoios já foram firmados com o PT”, comentou.

Campos fazia um jogo político situando-se em âmbito nacional com o PT e liberando a sigla para apoiar o PSDB ou quem estivesse no poder em nível regional. Essa fórmula se rompeu depois que ele decidiu se candidatar a presidente.

Para o presidente e líder histórico do partido, Roberto Amaral, o desafio sem Campos é grande. Segundo ele, essa é uma característica brasileira: os partidos quase sempre dependem de uma liderança. “A péssima tradição brasileira é que todo partido tem de ter uma liderança messiânica. Foi assim com Arraes e Eduardo Campos. E não é nenhuma novidade dizer que Lula é maior que o PT”.

Para a deputada Luiza Erundina, da ala esquerda, o PSB precisa encontrar a forma de sobreviver sem se aliar ao PSDB. “Temos legado, história e construção coletiva. Esse é nosso desafio, sobreviver no campo socialista no qual estamos há mais de 70 anos”, concluiu.

(Com Reuters e Estadão Conteúdo)

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