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09/10/2014 23:46 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

A arma mais recente na luta contra a resistência aos antibióticos vive na vagina

Pesquisadores viajaram até os confins da terra em busca de microrganismos exóticos que pudessem produzir medicamentos necessários para nossa sobrevivência e superação. Mas um novo estudo aponta que podemos ter deixado de lado uma fonte extremamente rica de drogas que se encontra bem debaixo de nossos narizes: as bactérias que habitam sobre o corpo humano e dentro dele.

Cientistas da Universidade da Califórnia, da Faculdade de Farmácia de São Francisco, localizaram uma bactéria vaginal que naturalmente tem um papel importante na defesa do organismo, isolaram e amplificaram suas capacidades de defesa e criaram um antibiótico que é capaz de matar agentes patogênicos prejudiciais, ao mesmo tempo poupando as bactérias que compõem uma parte importante do ambiente bacteriano da vagina.

"Nós pensávamos que drogas eram descobertas por empresas farmacêuticas, aprovadas pela FDA e prescritas por um médico, e só depois chegavam a você", disse o principal pesquisador e biólogo Michael Fischbach, Ph.D., ao The Huffington Post. "O que esta descoberta mostra é que as bactérias que vivem conosco, e dentro de nós, estão colocando um ponto final nesse processo."

A bactéria vaginal Lactobacillus gasseri é a base de um antibiótico chamado lactocillin que pode matar os patógenos causadores de infecções vaginais, mas sem eliminar as bactérias que convivem pacificamente com o órgão. Os antibióticos tradicionais podem ter efeito arrasador, destruindo todas as bactérias - mesmo as boas - o que pode ocasionar mais problemas adiante.

Mas além da implicação imediata (um possível novo medicamento para infecções vaginais), os métodos utilizados para encontrar as bactérias poderiam revolucionar a forma como abordamos a pesquisa farmacêutica e sua manufatura, argumenta Fischbach.

Um microbioma de mais de 100 trilhões de bactérias vive em cada um de nós, e a maioria delas é benigna ou, até mesmo, útil. A pesquisa de Fischbach é uma das primeiras a procurar as bactérias produtoras de drogas dentro do microbioma humano.

Tipo um remédio

vagina

"É muito cedo ainda e não sabemos dizer quais são as implicações, mas parece que o intestino, pele e bactérias orais são melhores químicos do que pensávamos, e são capazes de fazer muitas moléculas se assemelharem a drogas, mais do que já havia sido realizado," disse Fischbach. "Isso pode ser uma ótima maneira de perceber a utilidade das bactérias e como elas podem nos ajudar."

Para isolar os poderes especiais do Lactobacillus Gasseri para produzir o medicamento, Fischbach utilizou um algoritmo de computador para olhar através das sequências do genoma de bactérias coletadas que fazem parte do Projeto Microbiome NIH Humano, um esforço multi-centrado contínuo para mapear geneticamente as bactérias que vivem no corpo humano. Ele estava tentado ver se poderia detectar genes produtores de medicamentos que fossem comuns. Embora Fischbach tenha isolado bactérias do interior da vagina, ele tem esperança de que a tecnologia possa beneficiar os homens também.

"Nós achamos que eles ainda têm bactérias capazes de produzir o mesmo medicamento, mas é apenas uma espécie bacteriana diferente, que vive na boca e ainda não foi isolada", explicou Fischbach.

A necessidade de novos antibióticos é urgente; estima-se que pelo menos dois milhões de pessoas nos EUA se infectam com bactérias resistentes aos antibióticos, o que resulta em 23 mil mortes, de acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças.

A crescente ameaça da resistência aos antibióticos faz com que o Dr. Vincent Young, MD, Ph.D., se anime sobre as implicações da pesquisa de Fischbach. Como professor e também como médico infectologista da Universidade de Medicina de Michigan, do departamento de medicina interna, Young encontra regularmente pacientes que aparecem no hospital com infecções multi-resistentes.

"Nós não temos quase nada com que tratar esses pacientes", disse Young em uma entrevista por telefone com o Huffington Post. "Esta é uma nova maneira de se descobrir um medicamento."

Mais amplamente, Young chamou o estudo de Fischbach um "uma proeza técnica" que se destaca entre os outros artigos sobre microbioma, pela forma como ele usou o que já se sabia sobre as nossas bactérias (suas sequências genéticas), transformando-as em um novo medicamento e, em seguida, analisando a forma que interagiram com o resto da comunidade bacteriana na vagina.

"Isso realmente mostra qual é o caminho que a pesquisa microbioma vai tomar no futuro", concluiu Young.

Joseph Petrosino, Ph.D., diretor do Centro Alkek de Pesquisa de Metagenômica e Microbioma da Universidade de Baylor, ecoou o elogio de Young à metodologia de Fischbach. Petrosino não estava envolvido com a pesquisa de Fischbach, mas elogiou o estudo por oferecer uma visão sobre a importância das bactérias boas para a nossa saúde como um todo.

"Esta pesquisa demonstra diretamente como o microbioma pode conferir proteção contra patógenos que são uma constante ameaça à saúde humana", escreveu Petrosino em um e-mail para o HuffPost.

O estudo foi publicado na edição da revista científica Cell em 11 de setembro de 2014.