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04/10/2014 09:43 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:57 -02

Pesquisa eleitoral: como os levantamentos dos institutos podem representar a realidade de milhões de eleitores?

Montagem / Estadão Conteúdo

Na última pesquisa para eleições presidenciais do primeiro turno, realizadas pelo Instituto Datafolha, foram entrevistados 12.022 eleitores. Esse público representa em torno de 0,008% da população brasileira apta a votar.

A poucos dias das eleições para as posições mais importantes no Poder Legislativo e Executivo, o Brasil Post quer saber:

Como uma porcentagem tão pequena da população brasileira pode representar a opinião de pouco mais de 140 milhões de eleitores?

As pesquisas são feitas por um cálculo simples de probabilidade. O mais importante nesse processo é selecionar entrevistados que representem camadas diversas da população.

“É preciso ter cuidado com a amostra escolhida. Eles têm que formar, nesse grupo, um mini-Brasil”, explica Dani Gamerman, professor de estatística da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e criador do blog StatPop.

Para os estatísticos, as amostras têm de ser aleatórias, ou seja, todos os indivíduos da população devem ter a mesma probabilidade de serem escolhidos para a amostra e, portanto, para a entrevista do instituto de pesquisa.

“O problema é que nem sempre isso acontece”, afirma Rafael Magalhães, o mestre e doutorando em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do Centro de Estudos das Negociações Internacionais (CAENI) ligado à instituição.

Os entrevistadores dos institutos têm também uma cota para cumprir. Existe um número x, calculado a partir de estudos, para cada grupo de pessoas com características específicas que devem integrar essa amostra. São critérios como faixa etária, região etc.

“Eles [entrevistadores] escolhem um ponto de fluxo, como a Avenida Paulista, por exemplo, para buscar entrevistados. Mas aquele local tem um perfil específico de pessoas que não atende, necessariamente, aos pré-requisitos da amostra”, explica.

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Portanto, deveríamos parar de acreditar nas pesquisas eleitorais? Não.

Para Rafael, as pesquisas não levam em conta todos os pré-requisitos da análise estatística. Mas do ponto de vista prático, elas funcionam sim, já que quase sempre elas acertam o resultado final dentro da margem de erro.

Histórico

Ao analisarmos as eleições presidenciais de 2002, 2006 e 2010, as pesquisas acertaram sempre os vencedores, mas nem sempre o resultado final.

No primeiro turno das eleições presidenciais de 2010, a última pesquisa Datafolha, que considerava somente os votos válidos, apontava Dilma Rousseff com 51% , José Serra com 31% e Marina Silva com 17%.

O levantamento indicava, portanto, vitória de Dilma já no primeiro turno — o que não aconteceu. Na apuração do Tribunal Superior Eleitoral (TSE),Dilma teve 46,9% dos votos válidos e Serra teve 32,6%. Já Marina teve 19,3%, pouco fora da margem de erro.

No segundo turno, entre Dilma e Serra, a pesquisa apresentou os resultados dentro da margem de erro. A petista, com 55%, na apuração teve 56%. O tucano, que aparecia com 45%, na apuração teve 43,95%.

Nas eleições presidenciais de 2006, a última pesquisa Datafolha, antes do primeiro turno, apontava o ex-presidente Lula com 50% dos votos válidos, seguido de Geraldo Alckmin com 38% e Heloísa Helena, com 9%.

Na apuração, uma surpresa: Alckmin teve 41,64%, quase quatro pontos percentuais acima da pesquisa. Lula ficou dentro da margem de erro, com 48,61% dos votos. Heloísa conseguiu 6,85% dos votos válidos.

No segundo turno, a pesquisa mostrava Lula com 61% dos votos válidos e Alckmin tinha 39%. Na apuração oficial, Lula teve 60,83% e Alckmin 39,17%, portanto, ambos dentro da margem de erro.

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Nas eleições presidenciais de 2002, Lula tinha 48% dos votos válidos, seguido de Serra, com 21% e de Anthony Garotinho, com 19%, de acordo com a pesquisa Datafolha. Na apuração, Lula (PT) teve 46,44% dos votos. Serra teve 23,19% e Garotinho (PSB) 17,86%.

Na última pesquisa Datafolha, antes do segundo turno, Lula aparecia com 64% e Serra com 36% dos votos válidos.

Lula se elegeu com 61,27%. Serra teve 38,72% dos votos.

Sobre a mais recente pesquisa Datafolha, divulgada nesta quinta-feira (2), a candidata do PT à reeleição Dilma Rousseff(PT) aparece com 40% das intenções de voto. Seguida de Marina Silva (PSB), com 24% e Aécio Neves (PSDB) com 20%. Em um provável segundo turno entre as duas mulheres, Dilma venceria por 48% a 41%.

Considerando a margem de erro, as oscilações entre as pesquisas e o resultado das eleições anteriores, neste ano, não se pode afirmar com certeza a vitória de nenhum dos candidatos, ainda que a probabilidade de vitória de Dilma, em segundo turno, seja bem mais significativa.

Influência das pesquisas

Ainda de acordo com Rafael Magalhães, o que mais acontece, ao nos deixarmos influenciar pelas pesquisas, é dar voto "estratégico". Isso acontece muito entre militantes do PT e PSDB.

“Você deixa de votar no seu preferido pra votar em quem tem mais chances de derrotar o seu opositor”, afirma.

Para o cientista político, é preciso se lembrar de mais um detalhe: os levantamentos são como ‘fotos’ da realidade, ou seja, uma representação momentânea dela. Quando se lida com pessoas, o processo é dinâmico, já que elas podem mudar de opinião a qualquer momento.

“A gente não pode se esquecer que acontece com frequência no Brasil das pessoas decidirem de ultima hora. Às vezes no mesmo dia de ir para as urnas”, lembra Rafael.