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20/09/2014 16:11 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Enterros clandestinos e resistência de povos africanos a procedimentos de segurança fazem epidemia do Ebola avançar

John Moore / Getty Images

"O Ebola está afetando hábitos sociais: como nascemos, como morremos, como enterramos" (Leila Hernandez, USP)

O surto de Ebola na África Ocidental, além de causar mortes e desestabilizar países inteiros, está obrigando famílias a abrir mão de rituais próprios em nome da segurança.

Desde que o vírus começou a se alastrar pela região, em março, a Cruz Vermelha e os Médicos Sem Fronteiras vêm protagonizando esforços para dar um destino seguro para os corpos das vítimas que morrem contaminadas.

Diferentemente de outras enfermidades, o risco de transmissão do vírus permanece mesmo alguns dias após a morte do paciente.

Entretanto, o trabalho da Cruz Vermelha e dos Médicos sem Fronteiras não tem sido fácil por causa das práticas das culturas locais.

Em um enterro tradicional em comunidades africanas, familiares ficam incumbidos de lavar o corpo do morto e envolvê-lo em panos.

“Parte dos ritos funerários de algumas regiões afetadas pelo surto segue o que milenarmente é feito. As pessoas usam suas próprias mãos para preparar o corpo, velar o corpo e até mesmo enterrar”, explica a professora Leila Hernandez, coordenadora da área de África do Departamento de História da Universidade de São Paulo, em entrevista ao Brasil Post.

Resistindo às orientações dos médicos, algumas famílias escondem os corpos das vítimas e promovem enterros clandestinos de madrugada. Com isso, o vírus se dissemina ainda mais.

“Quando as pessoas fazem enterros clandestinos, significa que os encarregados do enterro têm altas chances de terem sido contaminados. A casa toda precisa ser desinfetada, e as pessoas colocadas em isolamento”, recomenda Benoit Carpentier, da Cruz Vermelha Internacional, em entrevista ao Brasil Post.

Em outro caso, um povoado inteiro impediu a entrada de equipes de saúde que iriam recolher corpos contaminados com o Ebola.

“Há muitas comunidades que não acreditam que o Ebola é real e continuam com o costume local de preparar, por conta própria, os corpos para serem enterrados”, disse Daniel James, líder da equipe de manejo de corpos da Cruz Vermelha em Serra Leoa.

Segurança no enterro dos corpos

Os enterros seguros consistem em desinfetar o corpo, acomodá-lo em um saco plástico, também desinfetado, e depois em um segundo saco plástico.

Esse procedimento é feito apenas por equipes treinadas, responsáveis pelos funerais. Dessa maneira, o corpo é enterrado sem ser tocado por outras pessoas, eliminando portanto o risco de contaminação.

A Cruz Vermelha recomenda que os voluntários “ajudem a família a compreender o porquê de algumas práticas não serem possíveis de serem realizadas, porque podem expor a família ao risco de contaminação.”

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Para Leila Hernandez, da USP, essa cautela com os rituais é fundamental para o controle do surto.

“Sem que haja uma mediação, mantendo uma parte [dos ritos] e negociando outra, as pessoas vão entrar mais para a floresta, ir para a costa atlântica, subir e descer. E esses movimentos espalham mais o vírus”, adverte.

As lideranças comunitárias são sensibilizadas a endossar as orientações da Cruz Vermelha, ajudando a população local a entender que é necessário deixar alguns ritos de lado, uma vez que os enterros seguros são uma questão de saúde pública.

De acordo com números mais recentes da OMS, já foram registrados mais de 4.700 casos da doença e pelo menos 2.400 mortes.

Galeria de Fotos Epidemia de Ebola na África Ocidental Veja Fotos

O procedimento

Quando uma vítima do Ebola morre, o procedimento é complexo e, segundo a Cruz Vermelha, envolve 36 passos para que o risco de contaminação seja reduzido ao mínimo.

Em alguns casos, os enterros são feitos em parceria com os Médicos sem Fronteiras. Em outros, os corpos são recolhidos diretamente na comunidade, por uma equipe da Cruz Vermelha.

O processo de transporte do corpo, do ponto onde é feita a desinfecção até o local do enterro, deve ser acompanhado sempre por um profissional de saúde, para assegurar que as precauções sejam mantidas durante o trajeto.

A situação é mais complicada quando uma vítima morre em casa, o que obriga membros da Cruz Vermelha a irem às comunidades para recolher o corpo e fazer o funeral de forma adequada.

Mesmo com a resistência, membros do Médicos sem Fronteiras e da Cruz Vermelha são unânimes em dizer que a situação está melhorando.

“A reação das famílias tem mudado muito desde o início do surto: de serem muito resistentes e até agressivos com as equipes a estarem mais comprometidos, ao ter mais conhecimento da doença, com os procedimentos. Há vezes que as famílias esperam até três dias para que a equipe chegue, sem tocar o corpo”, conta Cristina Estrada, do departamento de gestão de crises e desastres da Cruz vermelha, em entrevista ao Brasil Post.

Quem faz o enterro?

As equipes que fazem os enterros são coordenadas por um profissional da área da saúde e compostas por jovens que estudavam outras áreas, antes de a epidemia assolar a região.

Segundo Benoit Carpentier, da Cruz Vermelha, eles recebem um treinamento e uma remuneração diária, que varia de acordo com a localidade.

O Guardian informa que a remuneração dos voluntários gira em torno dos US$ 100 mensais.

A Cruz Vermelha diz que os voluntários em Serra Leoa ganham US$ 5 por dia trabalhado.

Benoit afirma que nenhum caso de contaminação entre os membros da equipe foi registrado.