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11/09/2014 20:56 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:03 -02

Repórteres fotográficos fazem ensaio em apoio a colega considerado culpado pela Justiça por perder a visão em cobertura

Divulgação/Facebook

Uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) da semana passada estarreceu os fotojornalistas, cinegrafistas e profissionais de imprensa de todo o País.

O fotógrafo Alexandro Wagner Oliveira da Silveira, atingido por uma bala de borracha enquanto cobria um protesto em 2000, foi considerado culpado por perder a própria visão.

Os desembargadores do TJ-SP consideraram que o então fotojornalista do jornal Agora São Paulo "colocou-se" em situação "de risco à integridade física".

"Pode-se afirmar ser dele a culpa exclusiva do lamentável episódio do qual foi vítima", redigiu o desembargador Vicente de Abreu Amadei, assinalando que a Polícia Militar do estado agiu adequadamente ao usar balas de borracha e bombas de efeito moral.

Em resposta à decisão classificada como absurda por quem trabalha em redações, repórteres fotográficos organizaram um protesto simbólico: o ensaio Os Culpados!.

São dezenas de retratos de profissionais de imprensa usando tapa-olhos, prestando solidariedade a Alex.

O organizador Rubens Cavallari espera sensibilizar a sociedade sobre o valor do trabalho dos repórteres fotográficos e o risco inerente a cobertura de protestos e de confrontos entre policiais e manifestantes.

"Somos uma categoria que está na linha de frente dos acontecimentos; não entramos nessas manifestações de alegre", disse, em entrevista ao Brasil Post.

"Precisamos mostrar a realidade dos acontecimentos, e um juiz achou que o Alex estava de alegre... [Com as fotos, eu] Quis mostrar que todos nós somos os profissionais de linha de frente dos acontecimentos bons e ruins nesse País e estamos unidos quando algo de ruim acontece com algum irmão repórter fotográfico", defendeu Cavallari.

Galeria de Fotos Os Culpados: Protesto em retratos Veja Fotos

Violência contra a imprensa

O caso de Alex é emblemático, mas há outros episódios recentes que mostram o perigo que correm repórteres fotográficos em cobertura de manifestações de rua.

Em fevereiro deste ano, o cinegrafista Santiago Ilídio Andrade morreu após ser atingido por um rojão. O repórter da TV Bandeirantes cobria protesto contra aumento de passagem de ônibus no centro do Rio de Janeiro. O incidente aconteceu durante confronto entre manifestantes e PMs.

No ano passado, a vítima das jornadas de junho foi o fotógrafo Sérgio Silva, da agência Futura Press. Ele perdeu o olho esquerdo como consequência de uma bala de borracha, também disparada por um policial militar.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) avalia que a decisão desfavorável a Alex desampara os profissionais de imprensa, como se estivessem assumindo um risco por cobrir uma pauta. Por isso, "transforma a vítima em culpado".

O presidente da Abraji, José Roberto de Toledo, endossa que há um "risco potencializado" para repórteres que cobrem protestos. "Você não tem lado para correr com segurança, pois corre risco de agressão dos manifestantes e dos policiais", afirmou em entrevista ao Brasil Post. "É o pior dos mundos."

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