LGBT
31/08/2014 00:06 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Marina Silva e comitê LGBT justificam alterações no programa de governo: "Não foi uma revisão"

CARLOS MONTEIRO/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Marina Silva, candidata do PSB à presidência da República, afirmou no sábado (30) que as alterações realizadas no seu programa de governo no dia seguinte à divulgação foram feitas para apresentar o texto que foi acordado. "O texto que foi publicado não era o texto que havia sido acordado. O que fizemos é apenas retornar ao texto da mediação", disse para os jornalistas que a acompanhavam durante caminhada na Rocinha, Rio de Janeiro.

Na manhã de ontem, a coordenação da campanha da candidata realizou alterações substanciais no programa de governo divulgado na última sexta-feira (29), sobretudo no capítulo "LGBT". Entre elas, foram subtraídos trechos em que a presidenciável, caso eleita, se comprometia com a aprovação da lei de identidade de gênero – que possibilitaria a alteração de nome e sexo em documentos – e com a articulação no Congresso para criminalizar a homofobia e regulamentam o casamento gay. Em vez disso, a nova redação é vaga — afirma que Marina se compromete a "garantir os direitos oriundos da união civil entre pessoas do mesmo sexo" sem, no entanto, mencionar o apoio à aprovação de leis neste sentido.

 

Com a repercussão da nova versão do programa de governo, a coordenação da campanha de Marina Silva divulgou nota em que justifica as alterações alegando “falha processual na editoração” e descartando que esta redação seria uma revisão. Marina também negou que o programa tenha sido corrigido. "Não foi uma revisão."

"Na parte do LGBT, a parte que foi para redação foi a parte apresentada pelos movimentos sociais", disse. De acordo com a candidata, foram contempladas todas as propostas. “O que fizemos é apenas retornar ao texto da mediação."

Comitê LGBT em defesa de Marina

Além de Marina Silva, seu comitê LGBT também saiu em defesa da nova redação. No começo da noite de ontem (30), o comitê divulgou nota de esclarecimento em que afirma: é o "texto de consenso das propostas LGBT para o plano de governo aprovado pela coordenação política da campanha".

"Nenhuma das candidaturas apresentadas ao povo brasileiro tem em seus programas a temática LGBT tão bem dita e definida", diz o texto. O comitê afirma também que "ainda que não seja tão abrangente, o texto reapresentado representa para nós, LGBTs, uma defesa significativa para a concretização das políticas da nossa população".

Leia a íntegra da nota:

NOTA DE ESCLARECIMENTO

São Paulo, 30 de agosto de 2014 — O Comitê LGBT da campanha de Marina Silva e Beto Albuquerque (Coligação Unidos pelo Brasil), diante dos fatos veiculados pela imprensa e pela coordenação nacional da campanha, acerca da errata ao plano de governo no item que se refere a políticas para a população LGBT, esclarece o que segue:

1. O processo de construção do Plano de Governo de nossa coligação passou por um amplo processo democrático de discussão social em seminários programáticos até chegar em sua forma final;

2. Para cada eixo colocado em nosso Plano de Governo existiu a mediação e contextualização das propostas dos diversos segmentos nele inseridos para que fosse feita uma adequação das demandas ao atual momento social do Brasil. No que se refere à temática LGBT não foi diferente. Nossas propostas passaram por esse mesmo processo;

3. Ocorre que, por erro de envio, o material publicado e publicizado na versão do Programa apresentado para a sociedade brasileira no dia 29 de agosto foi a pauta integral reivindicada por este coletivo, tal qual saiu de sua base;

4. O texto divulgado hoje, no dia 30 de agosto, junto com a errata, representa o texto de consenso das propostas LGBT para o Plano de Governo aprovado pela coordenação política da campanha, tendo em vista que o mesmo passou por todo o processo de revisão e contextualização;

5. Ainda que não seja tão abrangente, o texto reapresentado representa para nós, LGBTs, uma defesa significativa para a concretização das políticas da nossa população. Marina e Beto são os únicos candidatos que assumem uma postura firme em defesa dos Direitos de todas as pessoas.

Nenhuma das candidaturas apresentadas ao povo brasileiro tem em seus programas a temática LGBT tão bem dita e definida. Acreditamos que o apresentar e reapresentar das propostas não descaracteriza nossa e, tampouco, classifica nossa candidata como conservadora ou até mesmo homofóbica. Nossa luta é pela defesa do Estado laico e por um Brasil que respeite a todos independente de sua orientação sexual ou convicção religiosa.

Não vamos aceitar que uma falha de diagramação desqualifique nosso debate pela construção de uma nova política e nem desmereça o nosso plano de governo que foi tão bem construído pelo povo brasileiro. O coletivo LGBT compromissado com essa população e compreendendo a complexidade de suas necessidades permanecerá na luta pela expansão e consolidação de nossas reivindicações. Na certeza que vamos eleger Marina e Beto para a Presidência da República para juntos construirmos o Brasil dos nossos sonhos.

Não vamos desistir do direito ao amor em sua plenitude. Não vamos desistir do Brasil.

Estado laico e pesquisas

Devido ao teor incisivo, a versão anterior do programa — agora descartada — chegou a surpreender setores ligados à militância LGBT, de acordo com a Folha de S.Paulo. Evangélica, Marina é devota da Assembleia de Deus e já afirmou, em 2010, ser pessoalmente "não favorável" ao casamento gay. Entretanto, a candidata afirmou ser defensora de um Estado laico. "Estado laico é para defender os interesses de todos, de quem crê e de quem não crê, independentemente da cor, orientação sexual ou religião."

As alterações no programa foram feitas um dia depois de pesquisa Datafolha indicar empate entre Marina Silva e Dilma Rousseff, do PT. Os números mostram que a candidata do PSB teria o dobro do voto dos eleitores evangélicos num possível segundo turno com a petista.

(Com Estadão Conteúdo e Reuters)