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30/08/2014 14:54 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Campanha de Marina Silva mutila capítulo "LGBT" de seu programa de governo

WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO

A coordenação da campanha da Marina Silva, candidata do PSB à presidência da República, realizou hoje (30) alterações substanciais no programa de governo divulgado na última sexta-feira (29), sobretudo no capítulo "LGBT".

O perfil @DeborahAlvim publicou no Twitter algumas das alterações:

De acordo com informações da Folha de S.Paulo, foram subtraídos trechos em que a presidenciável, caso eleita, se comprometia com a aprovação da lei de identidade de gênero – que permite alteração de nome e sexo em documentos – e com a articulação no Congresso para aprovar leis que criminalizam a homofobia e regulamentam o casamento gay. Também foi excluída parte que previa a distribuição de material didático "destinado a conscientizar sobre a diversidade de orientação sexual e às novas formas de família".

Na página 216 do capítulo "LGBT" da versão anterior do programa, havia um trecho em que a candidata propunha "apoiar propostas em defesa do casamento civil igualitário", uma referência à "aprovação dos projetos de lei e da emenda constitucional em tramitação, que garantem o direito ao casamento igualitário na Constituição e no Código Civil." A correção da coordenação da campanha é mais genérica: "Garantir os direitos oriundos da união civil entre pessoas do mesmo sexo."

Outra alteração é observada na página 215 do programa. Enquanto a versão prévia tinha uma linguagem mais incisiva, a nova redação é mais subjetiva. Anteriormente era:

"Ainda que tenhamos dificuldade para admitir, vivemos em uma sociedade sexista, heteronormativa e excludente em relação às diferenças. (...) Os direitos humanos e a dignidade das pessoas são constantemente violados e guiados, sobretudo, pela cultura hegemônica de grupos majoritários (brancos, heterossexuais, homens, etc.). (...) "Uma sociedade em que somente a maioria — seus valores, tabus e interesses — é atendida pelo poder político, enquanto minorias sociais e sexuais silenciam, não pode ser considerada democrática."

A nova redação é:

"Ainda que tenhamos dificuldade para admitir, vivemos em uma sociedade que tem muita dificuldade de lidar com as diferenças de visão de mundo, de forma de viver e de escolhas feitas em cada área da vida. Essa dificuldade chega a assumir formas agressivas e sem amparo em qualquer princípio que remeta a relações pacíficas, democráticas e fraternas entre as pessoas. (...) Nossa cultura tem traços que refletem interesses de grupos que acumularam poder enquanto os que são considerados minoria não encontram espaços de expressão de seus interesses. (...) A democracia só avança se superar a forma tradicional de supremacia da maioria sobre a minoria e passar a buscar que todos tenham formas dignas de se expressar e ter atendidos seus interesses. Os grupos LGBT estão entre essas minorias que têm direitos civis que precisam ser respeitados, defendidos e reconhecidos, pois a Constituição Federal diz que todos são iguais perante a lei."

Jean Wyllys, candidato a deputado federal pelo PSOL e ativista LGBT na Câmara, repercutiu as alterações no Facebook:

 

As alterações no programa — cuja versão anterior chegou a surpreender setores ligados à militância LGBT, de acordo com a Folha de S.Paulo, por Marina ser evangélica, devota da Assembleia de Deus e já ter afirmado, em 2010, ser pessoalmente "não favorável" ao casamento gay — foram feitas um dia depois de pesquisa Datafolha indicar empate entre Marina Silva e Dilma Rousseff, do PT. Os números mostram que a candidata do PSB teria o dobro do voto dos eleitores evangélicos num possível segundo turno com a petista.

(Com Estadão Conteúdo.)