COMPORTAMENTO
19/08/2014 20:29 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Depilação: por que mulheres e homens declararam guerra aos pelos? (+18)

vanz/Flickr
e adesso fai un enorme sforzo di immaginazione e dimmi tu sinceramente, facendo finta che questo fosse il tuo moroso (che ok, lo so che non è così peloso, ma ho detto appunto di fare finta) quale metà preferiresti avere di fianco nelle afose notti estive. (e sì, lo so, devo lavorare sui pettorali)

No verão, quando os dias estão lindos e o calor é quase palpável, os comerciantes de ar-condicionado estão preparados, os vendedores de churrasqueiras têm um sorriso nos lábios e as esteticistas esfregam as mãos. Quando o sol está forte, as clientes têm sempre hora marcada. Mais ainda que no restante do ano, verão rima com depilação. Não há lugar para pelos na praia. Por quê? Porque não é bonito — é o argumento mais citado. No entanto, de Madonna a Cameron Diaz, algumas estrelas se erguem contra esse ditame.

A guerra ao pelo foi declarada há tanto tempo que acabamos esquecendo os motivos que nos levaram a querer erradicá-lo a qualquer preço. Higiene, teoria da evolução e amor pelo liso, eis algumas das justificativas que levaram homens e mulheres a fazer da lâmina de barbear, da cera e mais tarde do depilador, do laser ou da luz pulsante seus fiéis companheiros.

O homem não quer ser um macaco

Voltemos aos fundamentos: o homem e a mulher são naturalmente peludos, como todos os mamíferos, ou quase. Com os seios, são as duas características que nos diferenciam do resto do mundo animal. O pelo serve de proteção quando as temperaturas estão frias ou quentes demais, e são uma barreira natural para preservar nossa epiderme das agressões de todo tipo, como os arranhões. Essa foi a aula de biologia.

Nós temos o mesmo número de folículos pilosos (a cavidade na qual o pelo nasce) que o macaco, como explica Anne Friederike Müller-Delouis em Histoire du poil ("História do pelo"), publicado em 2011. E aí está toda a origem do problema: temos pavor de ser confundidos com nosso primo mais próximo. No entanto, desde que nossos caminhos se separaram do do macaco, nossos pelos tornaram-se bem mais finos que os deles. Por quê? Sobre esse assunto não há certezas científicas.

O fogo é uma descoberta capital na evolução do homem. Ele nos permitiu cozinhar os alimentos e também nos aquecer. Foi nessa época que os pelos teriam perdido sua utilidade. A proporção entre benefício e desvantagem não se inclinava a favor dos pelos: eles ofereciam um terreno favorável à propagação de doenças pelos parasitas que ali se instalavam, no mesmo momento em que vestimentas e habitações se generalizavam, segundo o último estudo sobre o assunto, publicado em 2003. Essa hipótese chamada de "climática" é a mais difundida, mas os especialistas ainda não chegaram a datá-la com precisão. Verdade científica ou não, a imagem do homem pré-histórico hirsuto e selvagem permanece nos espíritos. O homem civilizado não é peludo.

Peludo sim, mas não muito

No final do século 19, a muito jovem antropologia mede o pelo, seu diâmetro, seu comprimento, para tentar estabelecer uma classificação das diferentes "raças humanas", segundo os termos da época. Conclusão, quanto menos os homens são peludos, mais evoluídos e inteligentes. Pequeno problema para os defensores dessa "teoria": os europeus são mais peludos que os indígenas americanos. Para não perder a face, atribuímos então à pilosidade masculina algumas virtudes. Os pelos do homem reforçam sua virilidade, quer lhes enfeitem o rosto, o torso ou as pernas. Os indígenas americanos são acusados de preguiça e falta de vigor sexual.

Os pelos do corpo da mulher, por outro lado, são unanimemente apontados com o dedo. "A imaginação popular, assimilando o sistema piloso à pele animal, vê aí um índice de animalidade e de agressividade sexual. Os homens o cultivam. [...] As mulheres o dissimulam", resumiu em 1970 a escritora australiana e universitária feminista Germaine Greer.

Depilação: por que mulheres e homens declararam guerra aos pelos?

A Maja Desnuda, de Goya, pintada antes de 1800 e confiscada pela Inquisição em 1814 por obscenidade

O amor pelo imberbe, o liso e o limpo

Não foi preciso esperar o século 19 para que as mulheres se depilassem. Da rainha Cleópatra às damas da Idade Média, o pelo já era perseguido por certas mulheres, muitas vezes as mais abastadas. Mas aí está toda a diferença: "A depilação feminina nunca foi uma norma", lembra Stéphane Rose, autor de um ensaio publicado em 2010, "Défense du poil" ("Em defesa do pelo"). Sendo a moda mutável, a Renascença, por exemplo, apreciava o pelo, como o início do século 19. A proibição do pelo se instalou no século seguinte e não parou de se reforçar desde então. Essa história é o triunfo do liso.

De todos os pelos do corpo, o púbico é o mais odiado. Na pintura, para começar, os púbis são escondidos ou representados sem pelos. Por quê? "O nu feminino não era considerado obsceno se os pelos púbicos não fossem representados", explica Marie-France Auzépy em sua introdução à "História do pelo", e essa regra vale até o final do século 19. É o que provam as reações indignadas diante do quadro de Gustave Courbet, A origem do mundo.

Nos anos 1930, a regra ela volta a Hollywood. "Os órgãos genitais da mulher não devem se traduzir, sob um tecido, nem na sombra, nem em vestígio. Toda alusão ao sistema piloso, incluindo as axilas, está proscrita" — foi assim que o código moral estabelecido para as produções dos estúdios de Hollywood proibiu o pelo e o sexo. Na França, censuramos automaticamente os pelos das fotos nas revistas até os anos 1960.

Pornografia, higienismo e industriais impõem novas normas

Não é tanto o sexo que representa o problema quanto os pelos que o escondem. A mulher sem pelos torna-se fisicamente uma criança; portanto, em posição de fraqueza. Ao retirar os pelos, retiramos o que é sexual; mostrando o órgão sexual, removemos o mistério. No Japão e nos países muçulmanos, os pelos femininos (e, às vezes, os masculinos) sofrem tratamento semelhante. Os únicos pelos tolerados são os cabelos, que, desembaraçados e pousados sobre os ombros, são um forte símbolo de sedução. A sexualidade não é a única explicação para essa luta impiedosa; a higiene também está em jogo. Trata-se de ter um corpo tão liso quanto possível, e sem odor. Essa guerra contra os pelos se transforma para muitas mulheres em um "trabalho de Sísifo [...] que com frequência termina com um sentimento de vergonha diante do fracasso inevitável", pois sim, apesar de todo o trabalho dedicado, eles renascem.

Depois dos anos 1960 e 70, que haviam descomplexado a relação com os pelos, a luta recomeça com vigor, culminando nos anos 1990 e 2000, que veem a depilação se tornar um ditame para as mulheres, primeiro, e depois para um número crescente de homens. Hoje o pelo não é mais a norma. O maior responsável, segundo Stéphane Rose, é a pornografia, que promove sexos sem um pelo. Uma pesquisa do instituto Ifop publicada em abril de 2014 confirma essa hipótese: "O sexo glabro visto nos filmes adultos se impõe cada vez mais como a norma do corpo feminino desejável aos olhos dos homens entre as jovens gerações, em que o consumo de pornografia é mais forte", comentou então François Kraus, diretor de estudos do Ifop. O instituto estima que, em 2014, uma em cada duas jovens de menos de 25 anos recorre à depilação integral.

Galeria de Fotos Os manequins peludos da American Apparel Veja Fotos

Essa lisura que perseguimos representa a juventude, a doçura e a inocência. Uma busca incentivada pelos industriais, para quem o setor da depilação é muito rentável. Algumas vozes se erguem contra a depilação, como o movimento feminista MIEL (Movimento Internacional por uma Ecologia Libidinosa), que denuncia a depilação como antinatural, o tumblr Hairy Legs Club (literalmente "Clube das Pernas Peludas"), no qual as mulheres se expõem com seus pelos, ou ainda o trabalho do fotógrafo inglês Ben Hopper e seu projeto Natural Beauty (Beleza natural), divulgado por Le HuffPost.

Em 2007, a atriz Laetitia Casta, citada por Stéphane Rose, anunciou o retorno do pelo: "Vocês vão ver, os pelos voltarão à moda. As que fizeram depilação definitiva vão ficar bem chateadas". Sete anos depois, a previsão ainda não se confirmou.