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19/08/2014 18:47 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Ativista alerta para desperdício de água no Brasil; Sabesp volta a descartar racionamento em SP (VÍDEO)

A crise hídrica em São Paulo e que atinge outros Estados do País com a atual estiagem preocupa não só autoridades, mas também ambientalistas. Mario Mantovani, da ONG SOS Mata Atlântica, afirmou em entrevista à TV Câmara que um dos maiores problemas enfrentados é o alto desperdício de água tratada no Brasil e a falta de cuidados com os recursos hídricos, como a falta de políticas mais abrangentes de saneamento básico.

“O Brasil perde 40% de tudo o que é tratado nas cidades com os vazamentos nos encanamentos”, afirmou Mantovani, que já presidiu o comitê das bacias do Alto Tietê, sistema este que vem auxiliando o Sistema Cantareira no fornecimento de água para a população da Grande São Paulo. O ambientalista ainda alertou que a crise ainda está longe do fim, mesmo com as autoridades esperando um “alívio” com o período de chuvas, esperado para outubro e novembro.

“Estamos há dez anos acompanhamos, já em 1990 contratamos um estudo para São Paulo. Uma das coisas colocadas nesse estudo que teria, em caso de crise no abastecimento, buscando essas águas como do Vale do Ribeira e até o reaproveitamento da Billings, que continua recebendo o esgoto de São Paulo”, comentou. O tema da melhora da gestão da água em SP já foi abordado por outros especialistas ao Brasil Post neste ano.

Mantovani ainda comentou que acha que o racionamento “deve ser pensado” em São Paulo - os números seguem apontando quedas nos reservatórios dia após dia. A opinião destoa do que voltou a ser dito pela Sabesp nesta terça-feira (19). A companhia não considera o tema para este ano, segundo afirmou o superintendente da produção de água da Região Metropolitana da companhia paulista, Marco Antônio Barros. “Não existe um planejamento da nossa parte ou um horizonte para a aplicação de um racionamento”.

Barros disse que o foco está sendo na redução das perdas e ampliação dos sistemas de abastecimento, com maior integração, além da adesão dos clientes ao programa de bônus na conta, para economia no consumo superior a 20%. A autorização obtida pela Sabesp para extrair da reserva técnica – o chamado volume morto – adicionais 106 bilhões de litros também é outro trunfo das autoridades contra o racionamento.

E a falta de água no interior de São Paulo? Para o diretor Econômico-Financeiro e de Relações com Investidores da Sabesp, Rui Affonso, há uma explicação para este quadro. “Quem está adotando neste momento o racionamento (vários municípios no interior de São Paulo o adotaram) está fazendo porque não tem alternativa, e não por convicção técnica ou institucional”, analisou.

Se a situação não melhorar até o fim do ano, a Sabesp pode lançar mão do uso do volume morto também do Alto Tietê. Os estudos já foram feitos, mas não se fala em prazos para exploração ou não desta reserva técnica.

Alckmin “feliz” com acordo fechado com Estados do Sudeste

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), classificou como uma "boa solução" o acordo feito segunda-feira (18), com o governo federal e do Rio que definiu o aumento do volume de água que a Companhia Energética de São Paulo (Cesp), controlada pelo tucano, terá de liberar na usina hidrelétrica do Rio Jaguari, em São José dos Campos, para o Rio Paraíba do Sul, que abastece cerca de 15 milhões de pessoas em cidades paulistas, mineiras e fluminenses.

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A partir desta quarta-feira (20), a Cesp aumentará de 10 mil litros para 43 mil litros por segundo a vazão para o Rio Paraíba. A informação foi confirmada pela Agência Nacional de Águas (ANA). No dia 6 deste mês, a estatal paulista havia descumprido uma determinação do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que regula o setor, para liberar 30 mil litros por segundo. Em contrapartida, a Cesp reduzirá de 80 mil para 47 mil litros por segundo a vazão da Represa Paraibuna, a maior da Bacia do Rio Paraíba do Sul, mas que apresenta o nível mais baixo de armazenamento: 12,2%.

“Acho que foi uma boa solução. Continuamos com os nossos 90 (mil litros por segundo liberados para o Rio Paraíba), só que distribuídos. O que era 80 no Paraibuna e 10 no Jaguari, ficou 47 no Paraibuna e 43 no Jaguari. E o entendimento pressupôs também, lá na Light (concessionária de energia do Rio), reduzir 5 metros (cúbicos) a partir de 10 de setembro”, afirmou Alckmin, citando que o acordo prevê uma redução de 165 mil para 160 mil litros na vazão da Barragem Santa Cecília para o Rio, a partir do dia 10 do mês que vem.

O arrefecimento da crise entre os Estados dá mais tempo para que a comissão formada pela ANA possa trazer soluções para a região até o fim do próximo mês. Esse grupo de trabalho deverá produzir um documento detalhado sobre, entre outros, a Represa Jaguari, que estava sendo preservada pela Cesp. Ela é a mesma de onde Alckmin quer fazer a transposição de água para o reservatório Atibainha, do Sistema Cantareira. A obra, orçada em R$ 500 milhões, ainda está sendo discutida pelos órgãos gestores e provocou uma crise com o governo do Rio e cidades do Vale do Paraíba que temem impacto da transferência de 5 mil litros por segundo de um reservatório para o outro no volume de água que restará na bacia para o abastecimento da região.

A ideia do governo paulista é concluir o canal de transposição até o início de 2016 para ajudar na recuperação do Cantareira, que atravessa a pior estiagem da história e opera exclusivamente com uso do volume morto das represas. Segundo a Sabesp, o manancial deve demorar pelo menos três anos para se recuperar da atual crise. Nesta terça-feira, os reservatórios estão com 12,7% da capacidade.

Enquanto isso, corre no Rio a ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal (MPF) contra a transposição. Ou seja, o assunto está longe do fim, com ou sem chuvas.

CPI da Sabesp define integrantes e será instalada

Foram publicados no Diário Oficial da Cidade de São Paulo os nomes dos vereadores que irão compor a CPI que vai investigar os contratos firmados entre a Sabesp e o executivo municipal.

Além do vereador Laércio Benko (PHS), que presidirá os trabalhos, também farão parte da CPI os seguintes parlamentares: Reis (PT), José Police Neto (PSD), Milton Leite (DEM), Roberto Trípoli (PV), Paulo Frange (PTB), Nelo Rodolfo (PMDB), Ari Friedenbach (Pros) e Mário Covas Neto (PSDB). O vereador Floriano Pesaro (PSDB) havia sido indicado inicialmente pela presidência da Câmara, mas na sessão plenária desta terça-feira notificou que o partido será representado por Covas Neto.

A instalação da CPI acontece nesta quarta-feira, no Plenário 1º de Maio, quando serão definidos o vice-presidente e o relator.

(Com Estadão Conteúdo)

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