MUNDO
15/08/2014 10:51 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

À juventude católica asiática, papa prega fim de 'materialismo', 'modelos econômicos desumanos' e 'espírito de competição desenfreada'

Gregorio Borgia / AP

O “materialismo que sufoca os valores culturais e espirituais autênticos”, os “modelos econômicos desumanos que criam novas formas de pobreza e marginaliza os trabalhadores” e o “espírito de competição desenfreada que gera egoísmo e conflito” devem ser, definitivamente, abandonados.

Quem está falando isso não é nenhum líder esquerdista marxista-leninista, que prega pela destruição do capitalismo em busca de uma sociedade socialista. Tais palavras foram proferidas pelo papa Francisco, em encontro com jovens católicos da Coreia do Sul, uma nação que se forjou dos escombros de uma guerra fraticida com seus vizinhos do norte, e, imersa em um capitalismo ferrenho, tornou-se uma potência econômica da região.

Para o pontífice, porém, sistemas que privem os pobres devem ser descartados. Se tal recado pode ser difícil de ser assimilado em uma nação próspera, que tem um vizinho comunista que transmite mais situações de falta de liberdade do que igualdade social, a mensagem pode ser facilmente compreendida em outras nações asiáticas, que integram o rol dos países mais pobres do planeta, onde a fome e a miséria é um lado da moeda, que tem do outro lado a riqueza subtraída da população pela intensa corrupção.

As declarações do papa foram feitas em seu segundo dia de visita à Coreia do Sul. Sua Santidade teve, nesta ocasião, uma recepção eufórica de dezenas de milhares de jovens de toda a Ásia durante a celebração de sua primeira missa pública no país, uma das nações em que o catolicismo mais cresce no mundo. A homilia foi celebrada no estádio de futebol de Daejeon, que esteve lotado com mais de 50 mil pessoas.

Reunificação da Coreia

Colocando o dedo em uma ferida ainda não cicatrizada depois de muitas décadas de antagonismo entre norte e sul-coreanos, adeptos do comunismo e do capitalismo, em um dos últimos resquícios da Guerra Fria que ainda se faz presente nesta segunda década do século XXI, o papa Francisco pediu aos coreanos do Sul que rezem pela reunificação da península. Para o pontífice, eles devem ter como meta reunir-se em uma só família, “sem vencedores ou vencidos”.

“Senhor, somos uma família. Ajude-nos a alcançar a união. O Senhor pode. Para que não haja vencedores ou vencidos. Só uma família, somente irmãos", pregou papa, durante a missa. "Somos irmãos que falam a mesma língua... pensem em seus irmãos no norte. Eles falam a mesma língua e quando se fala a mesma língua em família há uma esperança humana”, completou.

Sendo um país oficialmente ateu, por ser comunista, a Coreia do Norte conta com pouquíssimos católicos. Segundo estimativas da Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, o número varia de 800 a 3 mil praticantes do catolicismo no país, ante cerca de 5 milhões na Coreia do Sul. Antes da Guerra da Coreia, no entanto, Pyongyang, capital a norte-coreana, era a cidade da península com mais católicos, sendo conhecida como "Jerusalém coreana".

A chegada do papa à Coreia do Sul, assim, pouco alterou a rotina dos norte-coreanos. A prova disso é que, no mesmo dia em que o pontífice chegou ao país sul-coreano, seus vizinhos do norte lançaram três mísseis de curto alcance a partir de sua costa leste. Os foguetes foram disparados da cidade norte-coreana de Wonsan e percorreram 220 quilômetros antes de caírem no mar.

(com Agências de Notícias)