COMPORTAMENTO
12/08/2014 17:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Morte de Robin Williams mostra como é difícil sair do buraco da depressão

Charles Sykes/Invision/AP
Robin Williams attends the CBS Upfront on Wednesday, May 15, 2013 in New York. (Photo by Charles Sykes/Invision/AP)

A morte por suicídio do comediante e ator Robin Williams chocou muitos de seus fãs. Mas aqueles que o conheciam sabiam de sua luta contra a depressão.

Segundo sua relações-públicas, Williams, 63, estava completando um programa de 12 passos por causa do abuso de drogas e lutava contra uma depressão severa.

“Você está na beira de um precipício e olha para baixo, tem uma voz, e é uma vozinha baixa, que diz: ‘Pule’”, disse Williams a Diane Sawyer em uma entrevista sobre sua dependência em 2006. “A mesma voz diz ‘Só um’ ... E a ideia de ‘só um’, para alguém que não tem tolerância, não é uma possibilidade.”

Mais recentemente, Williams falou do medo e da ansiedade massacrantes que o levaram a buscar conforto no álcool.

“Ter depressão e estar num estado suicida altera a realidade. Não importa se a pessoa é casada ou bem amada”, disse ao USA Today Julie Cerel, psicóloga e presidente do conselho da Associação Americana de Suicidologia. “Elas ficam tão consumidas pela depressão e pela sensação de não terem valor que esquecem de todas as coisas maravilhosas de suas vidas.”

De fato, uma razão prevalecente pela qual as pessoas com pensamentos suicidas não buscam ajuda é a crença de que nada poderia melhorar as coisas, segundo os Institutos Nacionais de Saúde (INS).

Ariane Sherine, jornalista do The Guardian, falou recentemente com o The Huffington Post sobre sua luta.

“Quando eu estava suicida e tinha ideias de me matar todos os dias, todas as horas, nunca imaginei que poderia me sentir tão feliz e estável como me sinto hoje”, diz Sherine.

“Por favor não desista”, disse ela a Caroline Modarressy-Therani, do Huffington Post. “A vida pode melhorar... talvez seja preciso passar por muita tentativa e erro, mas é possível sentir-se normal de novo, ou pelo menos quase normal.”

Apesar de jamais podermos saber o que se passava na vida pessoal de Williams, a luta do ator, agora pública, faz muita gente pensar sobre as dificuldades enfrentadas por aqueles que lutam contra a depressão e o vício. Isso é especialmente importante diante de evidências recentes de que suicídios de pessoas famosas possam inspirar jovens a tirar as próprias vidas.

EM NÚMEROS

A cada ano, 34 000 pessoas cometem suicídio nos Estados Unidos, cerca de uma morte a cada 15 minutos . Em 2030, a depressão vai passar o câncer, os derrames, as guerras e os acidentes como a maior causa mundial de deficiências e morte, segundo a Organização Mundial de Saúde.

Os idosos têm o maior índice de suicídio, mas qualquer um pode tornar-se suicida. Os homens, como regra geral, tendem a ter mais chances de completar o suicídio, embora as mulheres tenham maior probabilidade de tentá-lo.

Cerca de metade dos suicídios acontecem entre homens entre 25 e 65 anos. Os fatores de risco incluem situações avassaladoras, como o envelhecimento, abuso de substâncias, traumas emocionais e desemprego ou problemas financeiros, segundo os INS.

Entre os que tiram a própria vida, 90% lutam com algum problema mental subjacente. Segundo a estimativa mais recente, 13% das pessoas vão sofrer depressão em algum momento de suas vidas.

E cerca de 15% das pessoas com depressão clínica vão morrer por suicídio.

O FATOR ABUSO DE SUBSTÂNCIAS

O abuso de substâncias combinado com um problema mental pré-existente, como depressão ou síndrome bipolar, pode ser mortal, de acordo com o site da Suicide Awareness Voices of Education (SAVE), uma entidade de prevenção do suicídio.

Muitas vezes, uma pessoa sofrendo de doenças mentais vai procurar alívio dos sintomas no álcool ou nas drogas, mas isso pode afetar o discernimento e facilitar comportamentos impulsivos.

Williams discutiu a relação entre abuso de substâncias e pensamentos suicidas numa entrevista no podcast humorístico WTF com Mark Maron [aos 52 minutos].

Descrevendo um período sombrio, quando bebia sozinho num quarto de hotel, contemplando o suicídio, Williams disse que seu “‘cérebro consciente’” mandou seu cérebro bêbado colocar o suicídio aqui na área ‘discutível’. Vamos deixá-lo aqui na área de discussão” até ficar sóbrio.

SINAIS DE PROBLEMAS

Pode ser difícil determinar quando alguém querido passou a ter tendências suicidas. A SAVE recomenda fazer as seguintes perguntas, sem julgamentos ou confrontações:

  • Você se sente mal a ponto de pensar em suicídio?
  • Você tem planos de cometer suicídio ou tirar a própria vida?
  • Você já penso quando o faria (hoje, amanhã, semana que vem)?
  • Você já pensou em que método usaria?

Indivíduos suicidas podem mencionar sentimentos de desesperança ou culpa, se afastar das pessoas queridas e completar tarefas que parecem ter o objetivo de colocar as coisas em ordem, doar seus bens ou fazer arranjos com relação à família, segundo os INS.

OFERECENDO AJUDA

Se você ou alguém que você conheça ameaçou se suicidar ou mostra tendências, é importante buscar ajuda imediata.

Há jeitos de oferecer apoio para uma pessoa querida sofrendo de depressão (Apesar de ser essencial saber que a depressão não significa que a família tenha fracassado na hora de oferecer apoio.)

Quando conversar com alguém que sofre de depressão, “é melhor não dizer nada que dê a entender que o problema tenha relação com dificuldades em lidar com o problema, fraquezas pessoais ou falhas de caráter”, disse Adam Kaplin, professor associado do departamento de psiquiatria e neurologia da Universidade Johns Hopkins, para uma reportagem do Huffington Post.

“A pior parte da depressão é que ela estreita o campo de visão para um pequeno tubo, e os doentes não conseguem enxergar as opções. Muito [do objetivo de ajudar] é dar às pessoas a esperança de que as coisas vão melhorar.”

Precisa de ajuda? No Brasil, ligue para o CVV - Centro de Valorização da Vida no telefone 141.