Mulheres não falam mais do que os homens, a não ser em situações colaborativas (PESQUISA)

Num mundo cheio de “Maria Matraca” e “João Sabichão”, que gênero realmente fala mais?

Quem quer que você ache que seja mais falante, provavelmente existe um estudo para comprovar sua tese. As mulheres há muito são consideradas mais falastronas, mas alguns estudos indicam que os homens podem falar mais, enquanto outros não encontraram diferenças entre os sexos.

Aparentemente, tudo depende do contexto. As mulheres não falam necessariamente mais que os homens – é só mais provável que elas o façam. Vamos explicar.

Pesquisadores da Universidade Northeastern observaram dois ambientes profissionais contrastantes para ver como a propensão de falar de cada gênero pode variar de acordo com o lugar. Publicado na edição de julho do Scientific Reports, o estudo indica que as mulheres falam mais que os homens em situações colaborativas e baseadas em tarefas – e principalmente umas com as outras. Em situações mais individualizadas e menos estruturadas, não houve diferença entre quanto falaram os homens e as mulheres.

Liderados pelo professor Jukka-Pekka Onnela, hoje professor da Escola de Saúde Pública de Harvard, os pesquisadores criaram dois cenários separados para analisar o comportamento de quem fala. No primeiro cenário, os pesquisadores passaram um projeto para alunos e alunas de pós-graduação. O projeto teria de ser completado individualmente, mas os participantes tinham a liberdade de discutir entre si por um período de 12 horas. No segundo cenário, os pesquisadores observaram funcionários e funcionárias de uma central de atendimento telefônico durante 12 pausas de almoço, cada uma com uma hora de duração.

Entre os pós-graduandos no cenário colaborativo, as mulheres falaram “significativamente mais que os homens”, segundo o estudo. As mulheres também tinham maior probabilidade de estar “fisicamente próximas” das outras mulheres, em grupos pequenos. No cenário do horário do almoço, durante o qual não havia tarefa para completar ou nenhum incentivo em particular para que os participantes falassem, não se notaram “diferenças baseadas em gêneros” na propensidade a falar.

Em cada experimento, os participantes usavam pequenos aparelhos chamados “sociômetros”, que registravam discurso e mediam a proximidade com os outros. Os participantes sabiam que tipo de dado seria coletado e, de fato, “o ato de fazer medições costuma mudar o que está sendo medido, pelo menos de alguma maneira”, disse Onella ao HuffPost. Mas, usando aparelhos relativamente pouco intrusivos, o estudo tentou estabelecer um ambiente de observação mais objetivo que os dos estudos prévios sobre fala.

Conduzir enquetes e pedir que as pessoas digam precisamente o quanto falam dá enorme margens a vieses, assim como ambientes laboratoriais de observação direta, nos quais os indivíduos tendem a alterar seus comportamentos quando os pesquisadores estão presentes. Usando métodos de apuração menos conspícuos deveria “levar a menos modificações comportamentais que usando outros hjumanos para assistir e registrar os detalhes de cada interação social”, disse Onnela.

Ser “falante” pode ter associações de gênero. Sob observação, homens e mulheres podem ajustar seus comportamentos (http://psycnet.apa.org/index.cfm?fa=buy.optionToBuy&id=1987-34377-001) para ficar dentro – ou parecer livres – das expectativas sociais. A presença de um pequisador pode “aumentar o constrangimento das pessoas e as preocupações delas de aparecer de maneira socialmente desejável, o que para algumas pessoas pode incluir agir de acordo com estereótipos de gênero”, explica o estudo. Por outro lado, “os desejos sociais podem causar o efeito oposto.” Por exemplo, homens podem se esforçar para colaborar mais na presença de um pesquisador do que o fariam sem a sua presença.

Com certeza, condicionamentos sociais provavelmente informam os comportamentos de homens e mulheres, estejam os pesquisadores presentes ou não. Mas os pesquisadores da Universidade Northeastern esperavam que o acompanhamento do comportamento dos indivíduos em um ambiente relativamente normal fosse capas de produzir dados mais precisos sobre a predisposição em falar que a realização de enquetes ou testes de laboratório.

Que as mulheres tendam mais a colaborar é consistente com pesquisa prévias que sugerem que as mulheres têm um estilo de aprendizado mais interativo, enquanto os homens tendem mais a abordar as tarefas individualmente. Então há algo em particular sobre as mulheres que as façam “falar mais” ou são elas simplesmente mais inclinadas ao tipo de colaboração que exige que elas falem? Dado que as disparidades de gênero “desaparecem completamente em contextos não-orientados a tarefas e não-estruturados”, será que os estudos sobre a fala são só isso – só papo?

Não necessariamente. Em si mesmo, falar – quanto e com quem – importa. Pesquisas mostram que os funcionários valorizam transparência e colaboração em seus líderes – qualidades que as líderes mulheres têm maiores chances de possuir, de acordo com uma enquete mundial. Outros estudos, entretanto, sugerem que as mulheres são percebidas menos favoravelmente que os homens quando decidem se pronunciar.

Se ambientes “orientados a tarefas” incentivam o tipo de colaboração de que gostamos, mas as conversas de que não gostamos, o que as mulheres têm de fazer? O estudo não avaliou a fala em em ambientes profissionais de alto nível, mas suas conclusões são úteis para consideração no contexto da mobilidade e da percepção da mulher no trabalho. Considerando como o gênero pode influenciar estilos de comunicação em certos ambientes pode ajudar as organizações a montar times de gerentes de maneira mais eficiente.

Para organizações que queiram diversificar seus altos escalões, reconhecer que a propensidade das mulheres de colaborar com outras mulheres “pode representar desafios para sua promoção em organizações em que há predominância de executivos homens”, como sugere o estudo, pode permitir que as promoções sejam abordadas com mais cuidado, assim como a montagem das equipes.

Além da diversidade em nome da diversidade, a colaboração entre grupos diversos tende a melhorar a performance. O argumento a favor do “entendimento do papel do contexto na expressão ou na supressão de diversidade de gênero” é bastante forte, conclui o estudo da Northeastern.

Então será que as mulheres conseguem chegar aos cargos importantes só falando? Talvez, mas só se as pessoas estiverem ouvindo.