COMPORTAMENTO
02/08/2014 20:59 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Lola Benvenutti: "Para mim, ser prostituta é empoderamento"

Reprodução/Facebook

"Sou Lola Benvenutti e faço porque gosto!"

Na primeira frase do livro O prazer é todo nosso, aquela menina de 22 anos sentada diante de mim num café na Frei Caneca na tarde de sexta-feira (1º) resume toda sua história: está na prostituição por opção, e não por falta dela. Poderia seguir a carreira para a qual estudou — é formada em Letras pela Universidade Federal de São Carlos (SP) — mas sua vocação mesmo é ser puta.

Lola lançará O prazer é todo nosso em 11 de agosto, às 18 horas, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista. Está ansiosa. "Eu nunca imaginei [que escreveria um livro]", confessa. Sobretudo um cuja tiragem inicial fosse de 10 mil exemplares — no mercado editorial, uma tiragem regular não passa do terceiro milhar. Lola é uma grande aposta — tão grande que, antes mesmo do título chegar às livrarias, a autora já foi procurada com propostas para levar o livro para o teatro e ao cinema.

A ansiedade também se deve a algo bastante particular: para Lola, o livro é um teste de maturidade literária. "No blog, logo no começo, minha escrita era algo mais visceral, muito cru, porque imaginava que seria isso que as pessoas queriam", explica a garota que tirou seu nome de guerra de Lolita, de Vladimir Nabokov, e em cujo corpo se esparramam tatuagens com frases de Manuel Bandeira e Guimarães Rosa. "Mas eu ficava em crise, porque aquilo não era exatamente a minha escrita. Hoje ela está bem mais madura e noto que, ainda assim, as pessoas se interessam. Por isso pensei: por que não escrever um livro com essa pegada?"

Holly Golightly de Pirassununga

Cinco anos antes do livro, Gabriela Natalia da Silva estava numa sala de bate-papo do UOL. Conversava com um rapaz. O papo estava quente. O cara ofereceu dinheiro para transar com a menina de 17 anos.

Ela aceitou.

"Pensei 'já faço tanta caridade mesmo... Por que não ganhar dinheiro?", lembra. O valor da transação fugiu da memória, "mas era bem mais que minha mesada e deu para comprar um espartilho", ri a menina que, quando pensava em prostituição, pensava na vida de Holly Golightly, personagem de Bonequinha de Luxo, romance célebre de Truman Capote. "Fiquei feliz [em transar por dinheiro]."

O vestibular se aproximava e Pirassununga é uma cidade pequena, onde todos sabem de tudo. Esses dois fatores fizeram com que Gabriela se afastasse do sexo pago. E o esforço foi recompensado: ela passou em Letras. Mudou-se para São Carlos, a 65 km de Pirassununga, e se meteu a estudar.

No último ano, quando já tinha o TCC pronto e poucas obrigações acadêmicas, colou pela faculdade cartazes — "aqueles com um pedaço picotado para você destacar, sabe?" — com o número de telefone e uma oferta: "Está sozinho? Me ligue."

Ali nascia Lola Benvenutti.

E como em todo nascimento, Lola precisava de uma certidão que atestasse sua vida. Por isso, criou o blog onde fala sobre sexo e suas experiências como garota de programa, apesar de ter sido a aconselhada pelas amigas a não se expor assim. "Não estou pedindo opinião; estou comunicando", retrucou Gabriela.

Com o blog no ar, não demorou para que a história ficasse conhecida. Saiu no G1 a primeira de muitas notas (VIP, Folha, Estadão, BOL...) e entrevistas (Marilia Gabriela, Danilo Gentili, Luciana Gimenez...) que viriam a ser veiculadas sobre a vida da menina que escolheu ser prostituta.

E veio o convite para o livro.

Explicando a si mesma

O convite para lançar um livro surgiu há aproximadamente um ano. Talvez em busca de um novo fenômeno à la Bruna Surfistinha (comparação que não agrada a Lola), surgiram editoras — no plural — com propostas de livros. "Me ofereceram, inclusive, ghost-writer. Mas se eu aceitasse, estaria assinando atestado de burrice", comenta a menina formada em Letras.

Entre fragmentos de sua vida pessoal (como a relação com os pais depois que sua vida de prostituta ganhou manchetes) e casos de sua rotina profissional (como a vez em que um cara pediu a Lola que lhe fizesse um fio-terra), Lola escreveu quase 200 páginas. Com elas, busca ajudar as pessoas a entender a escolha que fez e, "talvez, até a si mesmas".

Entender a nós mesmos, inclusive no campo do sexo, é algo que precisamos fazer para acabar com alguns preconceitos. Lola observa a existência do conservadorismo arraigado na sociedade, o que torna a decisão de ser garota de programa ainda mais complicada. "A minha escolha é uma batalha diária. É muito ruim quando as pessoas já criam uma imagem sobre você. Por isso preciso sempre convencer as pessoas de quem eu sou, de onde vim..."

A tal imagem que as pessoas criam é uma figura caricaturada. "Fui no [programa do Danilo] Gentili e foi muito bom para mim — visibilidade e tal. Mas, cara, eles pintam você como uma figura pitoresca", comenta. "Por exemplo, fui fazer uma gravação numa emissora. No programa, tinha um quiz em que, cada vez que o participante acertava uma resposta, eu teria que tirar uma peça de roupa. Avisei 'cara, eu não vou fazer isso, não vou ficar pelada aqui'." Por causa da negativa, o quadro não foi transmitido. "Eu não me sujeito a isso. Sei como quero ser vista: com respeito. As pessoas podem não concordar comigo, mas devem me respeitar."

Uma batalha diária

A discriminação a garotas de programa é uma constante. Lola lembra um caso absurdo: em um bar do Itaim, na zona sul de São Paulo, o gerente chegou ao ponto de orientar os funcionários a não atendê-la. Achava que ela fazia ponto no estabelecimento. "Esse comportamento é ridículo! Eu vou lá toda semana, pago a minha conta, não peço saideira, não faço ponto lá, nada! E aí rola algo assim..."

"Tipo, riscaram meu carro, escreveram 'sua vaca, sua puta'... Coisas daí para pior", afirma Lola, que tem na ponta da língua uma lista imensa de agressões sofridas. "Também tive uma orientadora que escreveu no Facebook, no grupo de Letras [da faculdade], um poema me arregaçando. Foda, né?"

Sim, é foda. Foda a ponto do Catraca Livre ter de vir a público explicar por que é relevante ter Lola como notícia.

 

"Muitos veem [a prostituição] como uma coisa suja, prejudicial para a sociedade", comenta. "A gente é criado para achar que [prostituição] não é normal. Que é algo para repelir. Pessoalmente não rola tanto ofensa, mas, por exemplo, nos [comentários de] sites, a galera fala muito mal. 'Vai ter câncer', 'vai pegar Aids', 'vai morrer sozinha num buraco'... Escrevem as piores coisas. E, cara, eu não fiz nada! Tento não fazer mal a ninguém! Só decidi cobrar por sexo!"

 

Entretanto, na opinião de Lola, não é apenas isso que move uma parcela da sociedade a maltratar prostitutas. "Eu acho que — e eu sei que é arriscado dizer isso — muitas mulheres têm o fetiche de se sentir prostitutas, sabe? Não pelo ato de cobrar, mas pela valorização que os homens dão, pela forma como cobiçam, como olham..."

"Sou puta e sou feminista"

Algumas dessas agressões a prostitutas partem, inclusive, de mulheres que se dedicam a lutar pelo feminismo. Para Lola, existe uma certa opressão exercida por elas.

 

"Uns dias atrás eu fui em um debate na USP sobre prostituição na Copa. Fui com uma amiga travesti — ela estava participando; eu fui como ouvinte", lembra Lola. "Saí de lá indignada! Esse pessoal falando que 'toda puta é um objeto'. Para mim, [ser puta] é empoderamento. Ser feminista é definir as próprias regras, é ser dona do próprio corpo, e eu sou dona do meu. 'Eu sou puta e sou feminista', como diria Gabriela Leite [prostituta e socióloga que idealizou a ONG Davida e a grife Daspu, falecida em 2013]."

Lola observa a existência de radicalismo em parte do movimento, sobretudo no nicho que acredita que, para combater a opressão é preciso ser opressor. "O feminismo é também uma necessidade de colocar as pessoas em caixinhas e dizer, por exemplo, 'não, ninguém pode depilar a perna porque isso é uma imposição da sociedade patriarcal'. A vida é minha, pô, e eu quero depilar a minha perna!"

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