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01/08/2014 11:05 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

"Racionamento mascarado" de água já atinge moradores da Grande São Paulo

LUIS MOURA/ESTADÃO CONTEÚDO

Apesar da negativa, por parte do governo estadual de São Paulo e da Sabesp, de que moradores da Grande São Paulo estejam passando por um racionamento de água, por conta do desabastecimento do sistema Cantareira, na prática já existe um “rodízio”, como o governador Geraldo Alckmin prefere chamar, de 3 dias sem água para cada 1,5 com, de acordo com dados da Sabesp.

O racionamento “velado” é consequência de medidas adotadas pela Sabesp para aliviar o sistema, que sofre há cinco meses com drásticas reduções em seu volume. Para a empresa de abastecimento, tal ação fez com que fosse alcançada uma expressiva economia de água, sem que fosse feito o racionamento convencional. As muitas reclamações da falta de água em regiões da Grande São Paulo, por outro lado, foram ainda mais ácidas por parte dos moradores afetados pela medida justamente pela ausência de avisos e informações sobre a o “rodízio”.

Os dados da Sabesp, divulgados pelo jornal Folha de S.Paulo nesta sexta-feira, apontam que a produção de água caiu de 31,8 mil litros por segundo, em fevereiro, para 23,3 mil litros por segundo em junho - assim, o sistema Cantareira deixou de produzir 8,5 mil litros por segundo. As causas da redução, ainda de acordo com a Sabesp, são: o remanejamento de água entre sistemas; a diminuição no consumo, estimulada pelo bônus na conta; e a redução na pressão da água durante a noite.

A diminuição na pressão da água à noite representa 19,5% da economia alcançada. Sem que houvesse o cuidado de alertar os cidadãos sobre a adoção da medida, no entanto, reclamações, inclusive de cortes de água prolongados, justamente no período noturno, em diferentes regiões da cidade, passaram a ser uma constante.

A advogada Lucia Del Picchia, moradora da Vila Madalena, zona oeste de São Paulo, afirmou achar “um absurdo não avisarem nada, não deixarem claro o horário que estão diminuindo". O Idec (Instituto de Defesa do Consumidor) chegou a rotular a prática como "racionamento mascarado".

Recentemente, o Ministério Público Federal (MPF) em São Paulo recomendou ao governo estadual e à Sabesp que apresentassem projetos para a imediata implementação do racionamento de água nas regiões atendidas pelo Sistema Cantareira. A Sabesp, porém, refutou a adoção da medida, ainda que passasse a fazer de forma velada, conforme a reportagem da Folha de S.Paulo apontou.

O diretor de tecnologia da Sabesp, Edson Pinzan, porém, afirma que as ações “anticrise” não configuram racionamento. “No rodízio, quando você tira [água] um dia e volta a abastecer, [o local] pode ficar até três dias sem água", diz. “Muita gente reclama que no período noturno falta água. Mas isso ocorre no mundo inteiro. Muitos sistemas no mundo administram a rede diminuindo a vazão à noite e normalizando durante o dia", diz o diretor da Sabesp.

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Além da redução na pressão (responsável por 19,5% da redução total na produção de água no Sistema Cantareira), outras medidas como o desconto de 30% na conta para quem diminuir o consumo de água em pelo menos 20% (31,7% da redução); o uso de água de outros sistemas, como o Alto Tietê (43,8%);e a venda limitada de água (5%) fizeram com que a o sistema deixasse de produzir 8,5 mil litros por segundo.

Para a Sabesp, essa redução fez com que o uso do “volume morto”, chamado de “reserva técnica” ´pelo governo estadual de São Paulo, iniciado em 15 de maio, fosse adiado em 70 dias.