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28/07/2014 21:55 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

"Não conseguirão destruir o movimento", diz Sininho, ativista-símbolo das prisões no Rio

SEVERINO SILVA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO

Acusada de liderar uma "quadrilha armada para a prática de atos violentos em protestos" no inquérito policial que fundamentou a denúncia do Ministério Público contra 23 militantes no Rio, a produtora cultural Elisa Quadros Sanzi, a Sininho, de 28 anos, afirma: "Por mais que mirem em mim, estão destruindo uma pessoa, mas não vão destruir o movimento".

Elisa foi presa na véspera da final da Copa do Mundo e ficou 13 dias em uma cela da penitenciária de Bangu, na zona oeste carioca, até ser beneficiada por habeas-corpus, na quinta-feira (24).

Perguntada pelo Estado sobre a acusação de ser uma das lideranças da Frente Independente Popular (FIP), ela afirma: "Historicamente, o Estado, o poder, precisa criar um líder para matar e criminalizar o movimento. É isso o que estão fazendo. E vão fazer com todos. Vão destruir as identidades através da mídia, para depois justificar prisão, tortura e assassinato. Eles precisam disso. Mas o movimento é espontâneo, não aceita esse tipo de coisa. Não adianta tentar criar o que não existe."

Elisa classificou de "abobrinha e história surrealista" o conteúdo do processo de 15 volumes contra os 23 acusados. "Somos perseguidos políticos", diz ela, que usa como perfil no Facebook uma foto de Maria Auxiliadora Lara Barcelos, a Dora, presa, torturada e banida para o Chile durante a ditadura, que suicidou-se em 1976, em Berlim, no exílio.

"Vão fazer 5 mil, 20 mil páginas de abobrinhas, de história surrealista. Porque não existe, são 23 pessoas que mal se conhecem. Nunca falei com a maioria dessas pessoas. Que líder é esse que não fala com os seus? Não existe liderança."

Orientada pelo advogado Marino D'Icarahy, Elisa não comentou trechos do inquérito policial, como o depoimento de uma testemunha que a acusa de ter incitado manifestantes a incendiar o prédio da Câmara de Vereadores do Rio - o suposto plano teria sido abortado por outros militantes.

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Ela não se diz anarquista, mas "libertária". "A polícia não sabe o que é anarquismo. Dentro de um movimento espontâneo, de massa, que a gente está vivendo no Brasil, existem várias linhas de pensamento político diferentes, e cada um atua da forma que acredita. É isso o que faz (o movimento) ser horizontal. Tem anarquista, tem comunista, tem socialista e tem até capitalista no meio desse povo querendo destruir o sistema, como eu não sei. Eu sou uma libertária."

Elisa afirmou ter presenciado "torturas psicológicas" e ter sido impedida por agentes penitenciárias de cantar palavras de ordem e músicas de Chico Buarque e Geraldo Vandré, entre outras, no período em que ficou presa em Bangu. "Elas falavam: canta hino de louvor ou pagode. Você ali é refém, aí não canta."

Sininho é acusada de agredir manifestante no Rio

A ativista Sininho e uma advogada identificada apenas como Camila são acusadas pela também manifestante Joia Löwenthal Sangenis, de 58 anos, de agressão física. Elas ainda serão convocadas à comparecer na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam), no centro do Rio, onde o caso está registrado.

Além de Joia, um garçom identificado apenas como Manuel e o gerente Antônio Gomes já prestaram depoimento. As imagens das câmeras de segurança já foram entregues aos policiais.

Joia contou encontrou com Sininho na frente do restaurante Spaghettilândia, no centro do Rio. "Ela falou, sorrindo, 'Você me ferrou lá na Câmara (dos Vereadores) e temos muito que conversar'. Deu meia volta e foi embora".

Joia tentou entrar no restaurante ao ver o advogado Marino D'Icarahy, mas foi impedida pela advogada Camila. "Toquei nela para passar e quando consegui, recebi um empurrão dela (Camila) nas costas e fui parar em cima de mesa, depois de desequilibrar".

Depois de discutir com Sininho, Joia disse que "ela veio para cima de mim, me deu um chute na perna, acima do joelho. Depois disso, alguém me segurou e disse para eu me acalmar".

Sininho é acusada por uma testemunha de incitar manifestantes a incendiar a Câmara dos Vereadores durante o Ocupa Câmara, plano que teria sido abortado por outros ativistas. Joia é acusada por Sininho de tê-la delatado à polícia. Ela nega.