MUNDO
27/07/2014 09:31 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

As últimas horas das vítimas do voo MH17 são de cortar o coração

No quarto de sua casa perto de Amsterdã, Miguel Panduwinata procurou sua mãe. “Mamãe, posso te abraçar?”

Samira Calehr envolveu em seus braços seu filho de 11 anos, que andava estranhamente agitado nos últimos dias, fazendo perguntas sobre a morte, sobre sua alma, sobre Deus. Na manhã seguinte, ela deixaria Miguel e seu irmão mais velho Shaka no aeroporto para que eles pegassem o voo 17 da Malaysia Airlines, primeira perna de uma viagem para Bali, onde encontrariam a avó.

O garoto normalmente alegre e bem viajado deveria estar empolgado. Sua mala prateada estava na sala, pronta para a viagem. Passeios de jet-ski e surfe no paraíso o aguardavam. Mas alguma coisa estava errada. Um dia antes, jogando futebol, Miguel tinha perguntado: “Como você escolheria morrer? O que aconteceria com o meu corpo se eu fosse enterrado? Será que eu não sentiria nada porque nossas almas voltam para Deus?”

E agora, na noite antes da grande viagem, Miguel não queria largar o abraço da mãe.

Ele só vai ficar com saudade, disse Calehr pra si mesma. Então ela deitou ao lado do filho, e eles passaram a noite toda abraçados.

Eram 23h da quarta-feira, dia 16 de julho. Miguel, Shaka e as outras 296 pessoas a bordo do voo 17 tinham cerca de 15 horas de vida.

O Boeing 777 que levaria seus passageiros de Amsterdã para Kuala Lumpur, na Malásia, tinha a promessa de começos e fins para muitos dos que estavam a bordo: a excitação de uma nova aventura ou das férias dos sonhos, para alguns, o conforto de voltar para casa, para outros.

Nesta foto sem data divulgada pela família Calehr, Miguel Panduwinata (direita) aparece ao lado da mãe, Samira Calehr (AP Photo/The Calehr family)

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Foram um amor e um recomeço que levaram Willem Grootscholten a bordo. O corpulento ex-soldado holandês, de 53 anos, divorciado, – um gigante gentil – tinha vendido sua casa e estava se mudando para Bali para construir uma nova vida com sua paixão, Christine, dona de uma pousada.

Ele a conhecera por acaso numa viagem a uma ilha indonésia no ano passado.

Christine, que como muitos indonésios tem somente um nome, ouviu de um amigo que um cara tinha caído de um penhasco, machucando as costas. Ela recomendou que o turista fosse levado a uma curandeira que ela conhecia. No dia seguinte, Grootscholten ligou para Christine para agradecer.

Eles saíram para tomar um café. Grootscholten tinha de voltar para a Holanda, onde trabalhava de segurança em um café que vende maconha. Mas os dois mantiveram contato online, e o relacionamento avançou. No ano novo, ele a surpreendeu aparecendo na porta da casa dela. Ficou por três semanas.

O pai dos dois filhos de Christine, Dustin, de 14 anos, e Stephanie, de 8, havia morrido seis anos antes, e os dois se deram bem com Grootscholten, chamando-o de “papai”. Os quatro mantinham contato online. Faziam refeições juntos quase todos os dias: com iPads na mesa, Christine e as crianças jantavam na Indonésia; Grootscholte almoçava na Holanda.

Em maio, Grootscholte voltou a Bali para comemorar o aniversário de Christine e disse que queria passar o resto de sua vida com ela. Ela o levou ao aeroporto em 3 de junho e lhe deu um beijo de despedida.

Seria o último beijo.

Christine, da Indonésia, segura o retrato do noivo Willem Grootscholten, da Holanda, um dos passageiros do voo 17 da Malaysia Airlines, em sua casa em Bai, em 23 de junho de 2014 (AP Photo/Firdia Lisnawati)

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Para Rob Ayley, um neozelandês de 29 anos, o voo 17 marcava o fim de uma viagem de um mês pela Europa e o começo de uma nova carreira.

A vida nem sempre foi fácil para Ayley. Diagnosticado com síndrome de Asperger na adolescência, ele tinha dificuldades de entender as emoções alheias. Aos 16 anos, saiu da escola e pulou de emprego em emprego – fast food, horticultura, produção de queijos. Passava de uma obsessão à outra: carros, bateria e, finalmente, os rottweillers, depois de ganhar um filhote de seus pais.

No meio do caminho, ele se apaixonou por uma mulher chamada Sharlene. Eles se casaram e tiveram dois filhos, Seth e Taylor. Ser pai o transformou; ele estava determinado a sustentar sua família. Entrou na faculdade para estudar engenharia química e decidiu transformar sua fixação em rottweillers em um negócio de criação de cachorros.

O sonho levou Ayley a marcar a viagem para a Europa com seu amigo Bill Patterson, um dono de canil. O objetivo era olhar rottweillers e quem sabe levar de volta alguns filhotes para criar na Nova Zelândia.

Os dois passaram um mês viajando pela Europa, visitando canis e tomando um café ou uma cerveja com os donos. Eles adoraram dirigir em alta velocidade nas Autobahns da Alemanha no pequeno Peugeot que alugaram.

Finalmente, era hora de voltar para casa. Na quarta-feira à noite, Ayley mandou um email para sua mãe:

“Foi uma longa, longa jornada. Vimos os melhores rottweillers do mundo, fizemos contatos e amigos para a vida inteira, mas agora estou pronto para voltar para casa. Espero que esteja tudo bem, se não nos falarmos antes, te vejo no sábado. Muito amor, Rob.”

Nesta foto de 27 de novembro de 2010 divulgada família de Ayley, Rob (esquerda) e a esposa Sharlene Ayley aparecem no dia do casamento, realizado em Nelson, Nova Zelândia (AP Photo/The Ayley Family, File)

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O comissário de bordo Sanjid Singh também estava ansioso para voltar para casa. Ele não estava originalmente escalado para o voo 17, mas queria voltar para a Malásia um dia antes para visitar seus pais, no Estado de Penang, no norte do país.

Cinco meses antes, uma mudança de última hora tinha salvado sua família. Sua mulher, também comissária de bordo, concordara em trocar de lugar com um colega que queria estar a bordo do voo 370 da Malaysia Airlines. O avião sumiu a caminho de Pequim.

Escapar da morte mexeu com os pais de Singh, que reclamavam que o casal continuava a voar. Mas Singh era pragmático. “Se meu destino for morrer, vou morrer”, disse ele. “Você tem de aceitar.”

Na quarta-feira, ele ligou para a mãe e deu a boa notícia – conseguira um lugar no voo 17 e estaria em casa na sexta-feira. Cuide-se, disse ele para a mãe.

Depois de desligar, ela rezou pelo filho, como sempre fazia.

Nesta foto de domingo, 20 de julho de 2014, durante uma entrevista em sua casa em Bukit Mertajam, norte da Malásia, Jijar Singh Sandhu, 71, olha seu filho Sanjid Singh, comissário da Malaysia Airlines que estava a bordo do voo 17 (AP Photo/Gary Chuah)

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A família também foi o motivo pelo qual Irene Gunawan comprou uma passagem para o voo 17.

Ela ia para uma reunião de família anual nas Filipinas: um evento grande que acontece num resort e que teria camisetas especiais, bebida, dança, cantoria. E Gunawan, de 53 anos, seria a estrela, como sempre.

Gunawan era a luz e a alegria do seu clã. Quinta de seis filhos, a garota alegre que amava música sempre quis ver o mundo além de seu sonolento vilarejo rural. Depois do ensino médio, ela se mudou para o Japão, para cantar e tocar percussão numa banda. Lá ela conheceu Budy, um colega de banda.

Eles fizeram turnês juntos pela Europa e acabaram se apaixonando. Casaram-se e decidiram morar na Holanda, onde ela deu à luz Daryll e Sheryll, hoje com 19 e 14 anos, respectivamente. Gunawan conseguiu emprego num escritório e mandava dinheiro regularmente para sua família, nas Filipinas. Budy era supervisor da Malaysia Airlines em Amsterdã.

Gunawan voltava de vez em quando para o bairro da família, chamado “Céu”, na cidade de Pagbilao, perto de Manila. Nas reuniões de família, ela cantava músicas de Norah Jones e Diana Ross. Quando os vizinhos ouviam a cantoria, sabiam que ela tinha chegado na cidade.

Este ano, o casal e seus dois filhos voariam para Pagbilao, e Daryll estava levando seu equipamento de DJ. O plano era viajar antes, mas um tufão havia passado pelas Filipinas, e eles acabaram mudando a data do embarque.

Por acaso, conseguiram assentos no voo 17.

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Albert e Maree Rizk também não deveriam estar naquele voo.

Todo ano, o casal de 50 e poucos anos de Melbourne, Austrália, tirava férias de um mês com amigos. Eles cruzaram o globo, da Tailândia a Fiji e à Europa.

Dessa vez, os Rizk quase deixaram de fazer a viagem por causa de compromissos familiares. A família sempre vinha em primeiro lugar para Albert, um corretor imobiliário, e Maree, pais de dois filhos e membros queridos da comunidade onde viviam.

Uma mudança de planos os liberou para que eles pudessem se juntar a Ross e Sue Campbell, mas eles não conseguiram um lugar no mesmo voo de volta de seus amigos. Então eles compraram passagens para o mesmo voo, na mesma rota, no dia seguinte: o voo 17.

Os Rizk e os Campbell eram mais família que amigos desde que Sue e Maree se conheceram num grupo de mães quando seus filhos, hoje crescidos, eram bebês. Eles se divertiram em viagens pela Itália, pela Suíça e pela Alemanha. A sensação era a de ter passado um mês inteiro dando risada. Juntos, realizaram um sonho: subiram ao topo do Klein Matterhorn, na Suíça.

Na terça-feira, os quatro se juntaram num restaurante italiano para uma última refeição. Lembraram das aventuras da viagem – uma das melhores que tinham feito juntos – e fizeram planos de se reencontrar na Austrália. No sábado, iriam tomar vinho, se deliciar com os queijos holandeses que tinham comprado e olhar as fotos das férias.

Os quatro voltaram para o hotel, se abraçaram e foram para seus quartos.

Alguns amigos ficaram surpresos ao saber que os Rizk aceitassem voar com a Malaysia Airlines depois do desaparecimento do voo 370. A madrasta de Maree, Kaylene Mann, perdera um irmão e uma irmã no desastre.

Jack Medcraft, amigo de 30 anos de Albert, fez a pergunta: por que a Malaysia Airlines?

“Porque um raio nunca cai duas vezes no mesmo lugar”, respondeu Albert.

Eles caíram na gargalhada. A explicação tinha duplo sentido: a casa de Albert fora atingida por um raio no ano passado.

Nesta foto de família de 26 de junho de 2014 divulgada por Ross Campbell (esquerda), Ross Campbell, Albert Rizk, (segundo a partir da direita) e Maree Rizk (direita), durante feriado em Florença, Itália (AP Photo/Ross Campbell)

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A terça-feira 17 de julho amanheceu quente e ensolarada em Amsterdã.

Antes de sair de casa para o aeroporto Schiphol, Grootscholten ligou para Christine e as crianças para uma última conversa. Ele estava tão empolgado que começou a dançar.

“O papai vai pegar o avião”, disse ele. “Vamos ficar juntos para sempre.”

Enquanto isso, Ayley tinha um problema. Patterson, seu sócio no canil, tinha ido embora na quarta-feira, e ele tinha de ir para o aeroporto sozinho. “Perdi o ônibus para o aeroporto”, escreveu ele para a mulher via Facebook. “Esperando o próximo.”

Na Malásia, os pais de Singh esperavam a chegada de seu filho. A mãe tinha preparado a comida favorita dele – camarões apimentados, curry de caranguejo, porco assado e vegetais.

Irene Gunawan não aguentava de ansiedade para voltar para o “Céu” e reencontrar sua família. Ela pediu que sua irmã fizesse o pudim que ela adorava. A filha de Gunawan estava empolgada para passar no Jollibee, uma cadeia de hamburguerias famosa das Filipinas.

Com o amigo Aan, Samira Calehr levou os filhos de trem para o aeroporto. Eles estavam rindo e contando piadas, empolgados com a ideia de encontrar a avó nas montanhas de Bali. Shaka, 19, tinha acabado de terminar o primeiro ano da faculdade, onde estudava engenharia têxtil, e prometera para a mãe ficar de olho em Miguel. O outro irmão, Mika, 16, não tinha conseguido lugar no voo 17 e viajaria no dia seguinte.

No balcão do check-in, Calehr disse estar preocupação com a bagagem dos meninos. Shaka percebeu que tinha esquecido de levar meias. Cahler prometeu mandá-las com Mika.

Finalmente eles estava diante da alfândega. Os garotos abraçam a mãe e foram em direção à imigração. De repente, Miguel deu meio volta e correu para abraçar a mãe. “Mamãe, vou sentir sua falta”, disse ele. “O que vai acontecer se o avião cair?”

Por que ele está falando disso, perguntou-se Calehr.

“Não fale assim”, respondeu ela, apertando o filho. “Vai ficar tudo bem.”

Shaka tentou acalmar os dois. “Vou tomar conta dele”, disse ele para a mãe. “Ele é meu bebê.”

Ela viu os dois indo embora. Mas Miguel continuava olhando para trás. Seus olhos grandes e castanhos estavam tristes.

E então ele sumiu de vista.

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Todos convergiram para o portão G3.

Singh e seus colegas da tripulação terminaram a preparação para o voo. Veio o anúncio. Era hora de embarcar.

Miguel e Shaka foram para seus assentos, na primeira fileira da econômica. Grootscholten estava na mesma fileira, duas poltronas à esquerda. Ele tinha acabado de mudar a imagem de seu Facebook para a torre de controle de Schiphol.

Mais para trás, Ayley se acomodou em seu assento. Apesar do atraso, ele chegara a tempo. O viajante ansioso mandou uma mensagem final para seu amigo Patterson: “Bom dia, amigo, saindo de Amsterdã agora. Grande viagem, mas não estou com vontade de andar de avião.”

Na frente, Albert e Maree Rizk estavam na primeira fileira da classe executiva. Budy Gunawan sentou-se ao lado de Maree. Sua mulher, Irene, e as crianças estavam algumas fileiras mais atrás. Eles estavam entre os últimos a fazer check-in.

Irene, ainda preocupada com sua família e o tufão, mandou uma última mensagem para sua irmã: “Hehehe te amo, desligando o celular, hora de embarcar... se cuide, uma árvore pode cair em cima de você.”

Ela estava a caminho do Céu.

Nesta foto de julho de 2011 fornecida por Ron Peter Pabellon, Irene Gunawan aparece com o filho Darryl em um resort na sua cidade natal de Pagbilao, província de Quezon, durante uma reunião de família com o marido Budy, que é descendentes de indonésios, e a filha Sherryl (AP Photo/Ron Peter Pabellon)

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O voo 17 decolou por volta de 12h15, no que deveria ser uma viagem de 11 horas e 45 minutos.

Ela durou duas horas.

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Os corpos começaram a cair. Os telefones começaram a tocar. A confusão começou, corações se partiram. E as voltas do destino ou as coincidências que levaram essas pessoas àquele avião começaram a se desenrolar.

Na Nova Zelândia, a família de Ayley começou a mandar mensagens desesperadamente, na esperança de que o email sobre o ônibus perdido significasse que ele tinha perdido o avião.

“Seu voo explodiu, literalmente”, escreveu sua mãe, Wendie. “Então, onde quer que você esteja, em qualquer confusão em que estiver metido, adoraríamos saber que você perdeu o voo... Te amamos demais e só queremos saber que você está vivo, meu querido.”

Na Austrália, os Campbell haviam acabado de chegar quando souberam que um avião da Malaysia Airlines havia sido derrubado na Ucrânia. Temendo o pior, eles correram para a casa dos Rizk para checar os filhos do casal amigo. E, pela segunda vez em cinco meses, a madrasta de Maree perdeu uma pessoa querida num desastre da Malaysia Airlines.

Em Bali, Christine rezava. “Espero que você esteja bem. Deeeeeeeeuuuuusssss por favooooooooooor. Eu imploro”, postou ela no Facebook.

Em Amsterdã, Cahler tinha acabado de comprar as meias de Shaka quando o telefone tocou. Era seu amigo Aan. “Onde você está”, ele gritou. “O avião caiu!”

Ela chegou em casa e desmaiou.

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Eles têm de lidar agora com os “se”, as probabilidades astronômicas, o mundo que, num piscar de olhos, nunca mais será o mesmo.

Nas Filipinas, a casa da família Gunawan ficou silenciosa. Irene se foi e, com ela, a alegria da comunidade.

Amigos passam para oferecer condolências e rezar. Irene sorri em uma foto antiga, num altar cercado por velas. Uma máquina de videokê e um microfone que ela comprou na sua última visita estão num canto.

Sua melhor amiga, Zenaida Ecal, está furiosa. O que ela deseja como punição para aqueles que lhe roubaram Irene?

“O que é pior que a morte?”, responde ela.

Na Malásia, a comida preparada pela mãe de Singh está na geladeira. Ela não consegue olhar para ela.

Os pais não compreendem como algo tão simples como uma troca de turno pode ter sido tão boa para sua nora e tão cruel com seu filho.

“Salvou a vida dela”, diz Jihar Singh. “Agora meu filho salvou a vida de alguém.”

Na Nova Zelândia, o trabalho de Wendie Ayley como enfermeira de um asilo lhe dá uma perspectiva diferente. Ela sabe que o fim chega para todos, incluindo seu filho, que perdeu ônibus, não o voo.

“Quando ele morreu ele estava 10 000 metros mais perto de Deus. Ele saberia que estava morto, e abriu suas asas”, diz ela. “Acho que o primeiro pensamento dele terá sido: `Isso é demais’.”

Na Holanda, Samira Calehr pensa como seu filho mais novo parecia sentir que seu tempo na terra estava para acabar. Ela imagina futuros que jamais virão: o sonho de Shaka de ser um engenheiro têxtil, o de Miguel de ser piloto de kart.

Como ele poderia saber? Como ela poderia saber?

“Eu deveria tê-lo ouvido”, diz ela em voz baixa. “Eu deveria tê-lo ouvido.”

Linda Pabellon (esquerda) e Tirso Pabellon, irmã e irmão de Irene Pabellon Gunawan, deixam o Departamento de Assuntos do Exterior na segunda-feira, 21 de julho de 2014, na cidade de Pasay, região de Manila, Filipinas (AP Photo/Bullit Marquez)