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25/07/2014 18:52 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Reunião tensa, declaração de amor e fala de desembargador: o dia foi quente para ativistas no Rio (VÍDEOS)

A sexta-feira (25) foi bastante agitada para ativistas e coletivos do Rio de Janeiro. No evento mais importante do dia, um encontro entre ativistas – acompanhados de parentes e amigos – e jornalistas no sindicato da categoria no Rio, e promovido pela ONG Justiça Global, acirrou os ânimos entre os ativistas e a imprensa. A reunião ainda abordou a libertação de três ativistas, ocorrida na quinta-feira (24), e que acabou em confusão e agressões.

Segundo informações do jornal O Dia, os pais dos ativistas atacaram a imprensa, a qual estaria “demonizando” pessoas, segundo disse a psicóloga Rosoleta Quadros, mãe da ativista Elisa de Quadros, a Sininho. Ela deixou o Complexo Penitenciário de Gericinó, na quinta-feira, junto com Igor D’Icarahy e Camila Jourdan, como parte dos 23 beneficiados pelo habeas corpus concedido um dia antes pelo desembargador Siro Darlan, da 7ª Vara Criminal.

“Ela está sendo demonizada. Eliza sempre foi uma menina inteligente e generosa desde pequena (...). Ao ler as acusações, a gente chora e rir de tão estúpidas. Mas, ainda assim, elas têm o propósito de criminalizar os movimentos de rua. Deixem minha filha em paz”, disse Rosoleta. “Ninguém acha correto agredir repórteres na rua, mas a cobertura da imprensa mata reputações e tem feito sistematicamente”, completou Sininho.

A confusão aconteceu após a saída de Sininho, que ficou 13 dias detida. Antes dela, foram libertados Igor e Camila. Com a saída de Sininho, fotógrafos e cinegrafistas se aproximaram para registrar as imagens e foram impedidos por 32 ativistas. Houve empurra-empurra quando ela seguia para o carro, estacionado a 20 metros do local. Os dois grupos cercaram o veículo e as agressões físicas começaram. Um fotógrafo teve a máquina danificada, assim como um cinegrafista, que também ficou ferido.

De acordo com o jornal O Globo (este um dos mais criticados pelos ativistas), a ação de usar a violência contra a imprensa teria sido decidida 24 horas antes, em uma estratégia adotada pelos coletivos Frente Independente Popular (FIP) e do Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR).

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No encontro desta sexta-feira, outro que se exaltou no encontro foi o advogado Marino D’Icaray, pai de Igor. Ele chegou a colocar o dedo em riste para os jornalistas presentes. “Conclamo a todos para refletir seriamente sobre isso, para não sermos cúmplices do que esses caras (MP e polícia) estão fazendo. Os jovens não são algozes, são vítimas de vocês (imprensa). Vocês (imprensa) vão nos pagar”, afirmou, em tom de ameaça.

O desabafo de outros parentes dos ativistas foi divulgado pela ONG Justiça Global na noite desta sexta-feira, horas após o encontro.

Ainda durante a reunião, a presidente do sindicato, Paula Máiran, defendeu a categoria e a liberdade de trabalho para os jornalistas, independentemente das linhas que cada veículo da mídia venha a defender. Ela condenou veementemente as agressões contra fotógrafos e jornalistas.

“Não é uma agressão apenas contra a integridade física do trabalhador, mas também contra a sociedade porque ele (jornalista) deve garantir as informações relevantes para a sociedade. Somos pautados pela defesa da democracia e dos direitos humanos. A agressão é uma incoerência e um prejuízo para a luta travada nas ruas, mas não podemos criminalizar os movimentos sociais, por um desvio de um segmento minoritário dos manifestantes”.

Mais cedo, ela havia criticado duramente a confusão durante a libertação dos ativistas. “Custo a crer que quem agride jornalistas sejam manifestantes em luta por direitos, que (agindo assim) agridem trabalhadores”, avaliou. Segundo o sindicato, já passa de 90 a quantidade de jornalistas agredidos na cidade desde maio de 2013, pouco antes do início das manifestações. A maioria dos casos foi cometido por policiais militares contra os profissionais. “O problema é que os jornalistas apanham de todos os lados (da polícia e dos manifestantes). É um sinal de que nossa democracia está muito frágil”, emendou Paula Máiran.

Desembargador se pronuncia; ativista “se declara” a Sininho

Muito criticado por alguns setores, o desembargador Siro Darlan usou a sua página no Facebook para defender a sua decisão de conceder habeas corpus aos 23 ativistas denunciados pelo Ministério Público do Rio (MP-RJ). Segundo ele, há pouco o que possa justificar a manutenção dos réus na prisão para crimes que, caso eles sejam condenados, não os levarão para a cadeia ao final do processo.

“Ora, ainda que os acusados venham a ser condenados, na pior das hipóteses a pena não ultrapassará dois anos por serem réus primários e de bons antecedentes. Sabe-se que pela nossa legislação a condenação até quatro anos pode e deve ser substituída por penas alternativas em liberdade. Assim sendo o que justifica manter presas pessoas que ainda que condenados, permanecerão em liberdade? Prejuízo maior terá a sociedade se tais pessoas vierem posteriormente acionar o Estado para que paguemos com os tributos que nos são cobrados, indenizações por terem sido presos ilegalmente, apenas para saciar a ‘fome de vingança’ de setores raivosos, incapazes de raciocinar além do noticiário indutivo”, escreveu.

Outra notícia relacionada aos ativistas é no mínimo curiosa. Um ativista de nome Cleyton Silbernagel, que teria prestado depoimento à polícia contra os 23 denunciados pelo MP-RJ, divulgou um vídeo em que “pede perdão” a Sininho e diz “ser apaixonado por ela”. Acabou ironizado nas páginas de vários coletivos, que frisaram o fato de que ele ainda ser candidato para deputado estadual nas eleições deste ano.

Temas amorosos não são novidade no imbróglio do ativismo no Rio. Segundo reportagens dos jornais O Estado de São Paulo e O Dia, as “dores de cotovelo” também motivaram outros integrantes de coletivos a contribuir com depoimentos à polícia contra os denunciados por formação de quadrilha no Rio.

(Com Estadão Conteúdo)