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24/07/2014 14:32 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Israel diz que Brasil é um 'anão diplomático' por denunciar 'uso desproporcional da força em Gaza'

AP Photo/Adel Hana

"Esta é uma desafortunada demonstração de que o Brasil, um gigante econômico e cultural, continua sendo um anão diplomático."(Yigal Palmor, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel)

"Somos um dos 11 países do mundo que têm relações diplomáticas com todos os membros da ONU e temos um histórico de cooperação pela paz e ação pela paz internacional. Se há algum anão diplomático, o Brasil não é um deles."

(Luiz Alberto Figueiredo, ministro das Relações Exteriores do Brasil)

As duas frases acima, ambas ditas nesta quinta-feira (24), expõem o desentendimento diplomático entre Israel e Brasil sobre a atual ofensiva israelense na Faixa de Gaza.

Nesta quinta, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor, reagiu à decisão do Brasil de chamar o embaixador brasileiro em Tel Aviv de volta a Brasília em protesto ao grande número de mortos durante a ofensiva militar israelense na Faixa de Gaza.

"O relativismo moral por trás deste movimento (o de chamar o embaixador de volta) faz do Brasil um parceiro diplomático irrelevante, um que cria problemas em vez de contribuir com soluções", afirmou Palmor nesta quinta-feira (24), segundo o jornal Jerusalem Post.

Para o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, a atitude brasileira "não reflete o nível de relações entre os dois países e ignora o direito de Israel de se defender". "Esses passos não contribuem para promover a calma e a estabilidade na região. Na verdade, insuflam o terrorismo e naturalmente afetam a capacidade do Brasil de exercer influência. Israel espera apoio de seus amigos na luta contra o Hamas, que é reconhecido como uma organização terroristas por muitos países ao redor do mundo", concluiu Yigal Palmor, de acordo com o jornal israelense Haaretz.

O Itamaraty, como é conhecido o Ministério das Relações Exteriores brasileiro, divulgou nota de condenação ao grande número de mortos durante a atual ação militar israelense em Gaza. "O governo brasileiro considera inaceitável a escalada da violência entre Israel e Palestina. Nós condenamos fortemente o uso desproporcional da força por Israel na Faixa de Gaza, que resultou em grande número de vítimas civis, inclusive mulheres e crianças", afirmou o Itamaraty, que também pediu um "imediato cessar-fogo entre as partes".

Nesta quinta, o Itamaraty chamou o embaixador brasileiro em Tel Aviv de volta a Brasília: "Devido à seriedade da situação, o governo brasileiro votou a favor de uma resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre o tema e o embaixador brasileiro em Tel Aviv foi chamado a Brasília para consultas."

Na quarta-feira, o Conselho de Direitos Humanos da ONU anunciou a criação de uma comissão de investigação sobre supostos crimes de guerra cometidos por Israel durante a atual ofensiva em Gaza. A resolução teve 29 votos favoráveis entre os 46 membros do conselho. Os Estados Unidos foram o único país a votar contra, e os representantes europeus se abstiveram de votar.

O premiê israelense Binyamin Netanyahu qualificou a decisão da ONU como "uma farsa que deveria ser rejeitada por pessoas decentes em todos os lugares".

A Confederação Israelita do Brasil criticou a decisão brasileira: “A lamentável nota divulgada pela chancelaria exime o grupo terrorista Hamas de responsabilidade no cenário atual. Não há uma palavra sequer sobre os milhares de foguetes lançados contra solo israelense ou as seguidas negativas do Hamas em aceitar um cessar-fogo."

Segundo a Folha de S.Paulo, o gesto brasileiro foi elogiado tanto na Faixa de Gaza, território palestino controlado pelo Hamas, quanto na Cisjordânia, governada pela Fatah, mais moderada e liderada pelo presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas.

"O passo do Brasil é muito importante. O Brasil está sempre do lado da justiça. Pedimos que todos os países façam o mesmo", disse à Folha o porta-voz do Hamas Ihab al-Ghussein.

"O Brasil entende que a responsabilidade da comunidade internacional não é apenas emitir notas. O que foi feito pelo Brasil é um dos diversos passos que todo Estado deveria tomar", afirmou Xaiver Ebu Eid, porta-voz da Fatah, segundo a Folha.

Em evento em São Paulo, o ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, rebateu as declarações do porta-voz da chancelaria de Israel. "Somos um dos 11 países do mundo que têm relações diplomáticas com todos os membros da ONU e temos um histórico de cooperação pela paz e ação pela paz internacional. Se há algum anão diplomático, o Brasil não é um deles", afirmou o ministro, segundo a agência Reuters.

"Mas não contestamos o direito de Israel de se defender, jamais contestamos isso. O que contestamos é a desproporcionalidade das coisas", acrescentou o chanceler brasileiro.

Pelo menos 15 pessoas foram mortas e muitas ficaram feridas nesta quinta-feira, após forças israelenses terem disparado fogo de artilharia contra uma escola administrada pela ONU que abrigava refugiados palestinos no norte de Gaza, disse um porta-voz do ministério da Saúde de Gaza, Ashraf al-Qidra.

Cerca de 750 palestinos já morreram, a maioria civis, desde que Israel iniciou há mais de duas semanas os bombardeios a Gaza, com o objetivo de impedir o Hamas de continuar lançando foguetes e morteiros do Hamas contra o território israelense. A ofensiva terrestre, iniciada há uma semana, também tem o objetivo de localizar e destruir túneis construídos pelo Hamas para atravessar a cerca que separa Gaza de Israel e realizar ataques dentro do território de Israel.

Do lado israelense, 32 militares e três civis, entre eles um cidadão tailandês, morreram.

Atualizado às 17h46 com a reação do ministro das Relações Exteriores brasileiro.

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