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16/07/2014 14:30 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:42 -02

Aécio Neves: "FHC é de esquerda; Lula é de direita"

Estadão Conteúdo

O candidato à Presidência da República pelo PSDB, Aécio Neves, quer mudanças nas regras para a previdência social e sugere reestatizar empresas como a Petrobras. Foram essas algumas das afirmações na sabatina realizada hoje (16), às 11 horas, no Teatro Folha, no shopping Pátio Higienópolis.

A sabatina começou com questionamentos a respeito das "medidas impopulares" às quais o candidato se referiu durante um jantar, em abril. Na ocasião, Aécio Neves afirmou, em relação à economia: "Eu estou preparado para tomar as decisões necessárias, por mais que elas sejam impopulares. Se o preço for ficar quatro anos com [índices de] impopularidade, pagarei esse preço. Que venha outro [presidente] depois de mim."

Aos jornalistas presentes na manhã de hoje, o candidato explicou que "o mal está sendo feito por este governo", que supostamente segura reajustes em tarifas em troca de popularidade na véspera das eleições. "[O Brasil está] com crescimento pífio, menor que todos os nossos vizinhos. A inflação já ultrapassa o teto da meta. E o governo não indica medidas que tomaria no futuro."

"Economia é perspectiva", afirmou. Ele lembrou que, quando Lula se elegeu, em 2002, houve incertezas na área econômica, que resultou em "explosão da inflação [e] do preço do dólar". No segundo momento, a economia encontrou estabilidade, pois "Lula manteve inalterada a política econômica, uma herança do governo FHC."

O cenário da economia hoje não é positivo: nos cinco primeiros meses de 2014, o resultado primário do governo central, formado pelo Tesouro Nacional, pelo Banco Central e pela Previdência Social, caiu para R$ 19,16 bilhões — 42,4% a menos do que em igual período de 2013. Diante disso, há indícios de que Aécio reajustará tarifas, apesar do candidato não deixar claro como isso seria feito. Entretanto, afirmou: "Não vou governar com olhos nas curvas de popularidade."

Novas regras para aposentadoria

Outro ponto levantado foi o da previdência social, cujo déficit em 2013 chegou a R$ 51,3 bilhões — aumento de 14,8% em relação a 2012. Sem entrar em detalhes, Aécio Neves afirmou que adotará novas regras para aqueles que entrarem no funcionalismo público; garantiu, porém, que isso não afetará direitos adquiridos pelos aposentados.

Vale ressaltar que, de acordo com a última pesquisa Datafolha, Aécio Neves ganha pontos percentuais entre eleitores com idades entre 45 e 59 anos (22%) e acima de 60 anos (25%).

Por fim, o candidato tucano atacou a candidata à reeleição Dilma Rousseff (PT), em cuja gestão as "reformas foram adiadas". Para ele, o governo não consegue assumir um papel de "protagonismo" para realizar as mudanças necessárias.

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Energia e fontes renováveis

Questionado a respeito das políticas de energia, Aécio Neves mostrou preocupação na área de infraestrutura e à forma como o intervencionismo "quase pessoal" da presidente Dilma custou, nas contas do tucano, R$ 30 bilhões à população. Diante disso, o candidato falou em regulação e na exploração de energias alternativas.

"Eu estimularei parcerias da Petrobras para a exploração de gás", afirmou. Também não poupou críticas à política conduzida pela gestão de Dilma. "O Brasil jogou fora um programa que talvez seja uma das nossas maiores fronteiras: o etanol. Tenho compromisso com esse resgate", disse.

Mais adiante, Aécio voltou a citar a Petrobras. O tema em questão eram as privatizações. Perguntado sobre seu posicionamento em relação a isso, foi categórico ao sugerir a reestatização da empresa "que hoje está a mercê de um grupo político" e que atualmente "ocupa mais as páginas policiais dos jornais" que as de mercado. Uma clara referência ao caso Pasadena.

Em 2006, quando Dilma Rousseff era presidente do conselho administrativo da Petrobras, a estatal comprou 50% de uma refinaria de petróleo em Pasadena, Texas (EUA), por US$ 360 milhões. Um ano antes, a empresa belga Astra Oil havia pago US$ 42,5 milhões pela refinaria inteira. Dois anos depois, após um desentendimento entre Petrobras e Astra Oil, a estatal brasileiro foi obrigada a comprar os outros 50% da refinaria. Por eles, pagou mais US$ 820,5 milhões. Assim, a refinaria custou 27 vezes o valor pago pela Astra Oil em 2005. Em 2013, o Tribunal de Contas da União passou a investigar a negociação, que tinha fortes indícios de superfaturamento e evasão de divisas. O julgamento ainda não tem data prevista.

Bolsa Família e Mais Médicos

Quando o microfone foi aberto ao público, Aécio Neves foi questionado a respeito dos programas sociais, forte bandeira do PT. Ele respondeu que "os programas sociais que estão dando certo serão mantidos e aprimorados". Disse que o Bolsa Família vai continuar, mas que é preciso fazer mudanças. "O que quero é tirar [o Bolsa Família] da agenda eleitoral", explicou. "Quero transformá-lo em programa de estado."

Uma das mudanças brevemente sugeridas pelo candidato tucano foi um complemento do valor. "O pai de família que recebe Bolsa Família e volta estudar deve receber um 'plus'."

Atualmente, o programa oferece às famílias quatro tipos de benefícios: o Básico (para famílias em situação de extrema pobreza, no valor de R$ 77 por mês, independente da composição familiar); o Variável (no valor de R$ 35, concedido a famílias pobres e extremamente pobres que tenham crianças e adolescentes até 15 anos, com teto de cinco benefícios por família, totalizando R$ 175); o Variável para Jovem (R$ 42 concedidos a famílias pobres e extremamente pobres que tenham, sob sua responsabilidade, adolescentes entre 16 e 17 anos, matriculados na escola); e o Superação da Extrema Pobreza (concedido às famílias que se encontrem em situação de extrema pobreza, sendo que o valor do benefício varia em razão do cálculo realizado a partir da renda per-capita da família e do benefício já recebido, podendo chegar a R$ 336 por mês).

Outro programa citado foi o Mais Médicos. Hoje, o Brasil tem 14,4 mil médicos estrangeiros, sendo 80% deles cubanos. A intermediária é a Organização Pan-Americana da Saúde — OPAS, que faz o repasse do valor do programa ao governo cubano que, por sua vez, repassa uma fatia ao médico contratado. "Precisamos rever este acordo", disse Aécio. "Os médicos recebem 20% do valor pago."

Questionado sobre como essa mudança poderia mexer na relação entre Brasil e Cuba, Aécio foi categórico: "Nós não temos que concordar com o governo cubano; o governo cubano é que tem que concordar com o Brasil."

FHC é de esquerda; Lula é de direita

Os interlocutores tentaram levar Aécio Neves a fazer uma réplica aos comentários de Eduardo Campos (PSB) que, no dia anterior, afirmou que o tucano era conservador.

A isso, Aécio respondeu que estes conceitos são abstratos, "com pouca conexão com a realidade". Para ilustrar seu ponto, ele criou um cenário com dois governos: um que gerou os maiores lucros e outro que colocou 97% das crianças na escola. "Qual é de direita e qual é de esquerda? O governo de FHC seria de esquerda, enquanto o de Lula seria de direita."

Foi além disso: "Não haveria governo do presidente Lula se não tivesse havido governo do presidente FHC."

Alianças

Aécio Neves repudiou a oferta de apoio político em troca de cargo, prática comum na política brasileira. "O governo de Dilma demitiu um ministro [César Borges, de Transportes] por excesso de honestidade, para ter uns minutos a mais de TV", afirmou. No fim de junho, depois que a bancada do PR no Congresso entregou o cargo à presidente e ameaçava abandonar a presidente nas eleições, Dilma transferiu Borges para a Secretaria dos Portos e empossou como ministro dos Transportes Paulo Sérgio Passos.

Segundo o candidato, "não se pode criar feudos", algo que "o PT faz" ao trocar aliança por cargos.

Copa e futebol

Aécio ecoou o que já vinha dizendo desde antes do fim da Copa do Mundo 2014. Afirmou que a presidente Dilma "tentou surfar tanto quanto pôde" na onda da seleção, apropriando-se do êxito do time. Contudo, com a seleção fora da final, ela quis se descolar da ruína do time. "No sábado, quando o Brasil disputava o terceiro lugar em Brasília, eu pensei que a presidente iria ligar para a comissão, para um café. Se [a seleção] fosse campeã, ela não hesitaria fazer isso", disse.

Questionado sobre a intervenção do governo no futebol conforme defendida pelo ministro do Esporte, Aldo Rebelo, Aécio descartou a "Futebrás". Disse que é preciso que haja uma lei de responsabilidade para o esporte, "mas intervenção estatal não".

Aécio Neves tem aparecido em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto. Na última pesquisa Datafolha, divulgada no começo do mês, ele estava com 20%.