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10/07/2014 17:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:35 -02

Dilma Rousseff relembra ditadura em entrevista à rede CNN e critica violência do Estado

Reprodução/CNN

A presidente Dilma Rousseff mergulhou fundo em suas lembranças e revisitou os tempos de luta contra a ditadura militar, na segunda parte da entrevista concedida à rede de TV americana CNN, exibida na tarde desta quinta-feira (10) - a primeira parte foi exibida na quarta-feira (9). O relato da presidente, concedida à jornalista Christiane Amanpour, vai de encontro ao tema de campanha eleitoral de Dilma, que intitula a presidente como “coração valente” e como alguém que já esteve nas ruas, como os manifestantes que pedem melhorias ao País em manifestações nos últimos 15 meses.

“É muito difícil viver sob uma ditadura. Ditadura limita seus sonhos. E quando alguém não tem o direito de se expressar ou organizar seus esforços, qualquer ato de desacordo torna-se um ato de oposição sob a ditadura”, disse Dilma na entrevista. A presidente acabou presa em 1970, e ficou atrás das grades por três anos. No período, como acontecia com a maioria dos presos políticos, acabou torturada, algo que lhe deixou marcas permanentes.

“Foi uma experiência - uma experiência na qual se aprende que duas coisas são necessárias: Número um, resistir. E você percebe que só você, você mesmo, pode derrotar a si mesmo (...). Você não pode se permitir ser contaminado pelo que torturadores pensam de você (...). As pessoas eram penduradas pelos braços e pernas neste pedaço de madeira, bem como uma série de choques elétricos”, explicou, para em seguida dizer que considera “imperdoável” a tortura.

Contudo, Dilma abordou o desfecho da ditadura e das torturas de uma maneira antagônica. Se para ela, que nunca viu “um processo de tortura que não tenha finalmente destruído a instituição que nela tenha se envolvido”, é preciso evitar “desenvolver a raiva ou ódio contra aqueles que perpetraram tortura contra você” – o que sepulta, mais uma vez, a ideia do governo federal revisar a Lei da Anistia, algo que o PT tentou incluir no programa de governo para a reeleição de Dilma, mas acabou retirando o conteúdo original por não haver consenso com os demais partidos aliados.

Ainda na linha da violência no Brasil, a presidente criticou o fato de que a polícia brasileira esteja envolvida em pelo menos 2 mil mortes por ano no País, com base em dados da Anistia Internacional. Se reeleita, ela sugeriu mexer na atual composição que dá o controle das polícias brasileiras aos Estados, conforme manda a Constituição Federal. “Combater a atividade criminosa não pode ser realizada utilizando os mesmos métodos que são utilizados pelos próprios criminosos, e que muitas vezes é o que acontece (...). Acredito que vamos ter de revisitar esse arranjo e rever a artigo da Constituição”.

“Colocamos uma Argentina na classe média”

Criticada pelo baixo crescimento da economia nos últimos anos, Dilma se defendeu ao apresentar alguns números, como aqueles que apontam para a retirada de 36 milhões de pessoas da faixa mais baixa de pobreza e da entrada de 42 milhões de brasileiros na faixa da chamada classe média, o que a presidente comparou com a população da Argentina, principal parceiro comercial do País na América do Sul.

Dilma afirmou que acredita em um novo ciclo de desenvolvimento no Brasil, e que as dificuldades econômicas são ainda reflexo da grande crise mundial de 2008, da qual a economia brasileira escapou em um primeiro momento. Como já disse recentemente em cadeia nacional de TV, Dilma acredita que no seu próximo mandato, se reeleita, o foco deverá ser dado à educação.

“Como um País, temos de travar uma aposta na educação. Educação pode cuidar de duas coisas: número um, você pode garantir que as pessoas que melhoraram sua renda e padrão de vida vão estar em uma posição para garantir a continuidade desses ganhos. E número dois, temos de avançar para a economia do conhecimento e economia de valor agregado”, comentou a presidente brasileira.

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A jornalista da CNN ainda questionou Dilma sobre a corrupção, tema que já vem sendo explorado por opositores há meses, sobretudo focados na polêmica em torno da Petrobras – sem falar que os 12 anos do PT ficaram marcados pelo escândalo do mensalão, ainda no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A presidente reafirmou o compromisso de combate aos desvios de conduta.

“Toda a minha vida mostra que eu defendo a tolerância zero contra a corrupção. Ao nível do serviço público federal, nós estabelecemos o portal da transparência ou prestação de contas, em que todos os gastos do governo, todas as compras e contratos públicos pelo governo federal são mostrados ou postada no portal web prestação de contas em menos de 24 horas depois de as despesas são feitas”, completou.

Mulheres e futebol

A eleição de 2010 fez de Dilma Rousseff a primeira mulher eleita para comandar o Brasil em mais de 500 anos de história do País. Apesar de outras mulheres já terem assumido o comando de outras nações antes, ela ainda considera que, genericamente, as pessoas ainda veem as presidentes de países “como um fato de diferente”. Para Dilma, é tempo de derrubar certos mitos que acompanham o pensamento popular.

“Mulher que são líderes políticas são vistas como sendo mulheres duras, frias, cercadas por homens bonitos. Mas acho que as duas coisas não são verdadeiras. Como líderes – líderes femininas, como presidentes, ou como chanceleres – somos apenas mulheres exercendo o nosso papel como mulheres”, avaliou a presidente.

Dilma ainda prometeu parabenizar a chanceler alemã Angela Merkel pela vitória da sua seleção sobre o Brasil por humilhantes 7 a 1. Para animar os brasileiros, a presidente brasileira reforçou que o País vai se recuperar. Ela ainda sugeriu que alguma coisas precisam mudar para que a Seleção Brasileira e o futebol brasileiro possam retomar o caminho do sucesso e, por consequência, das vitórias.

“Exportação de jogadores de futebol significa que desistimos da principal atração que pode ajudar estádios ser lotados com torcedores. Afinal, o que é a maior atração que um país como o Brasil tem para atrair torcedores para os estádios? Seus adeptos e jogadores de futebol”, opinou, defendendo mais uma vez o alto investimento na construção das arenas para o Mundial.