COMPORTAMENTO
06/07/2014 11:31 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

Como você lida com a sua menstruação?

Reprodução/MGM/Screen Gems

Menstruar é a coisa mais natural do mundo para as mulheres, certo? Mais ou menos, se pensarmos que muitas de nós ainda mantêm uma relação de nojo ou profundo descontentamento em relação ao próprio ciclo mensal. Sem falar que, dependendo da cultura, a menstruação ganha conotações prá lá de curiosas: de um lado, nas sociedades industriais, a mulher tem que fazer de conta que nada está acontecendo, e continuar trabalhando com o mesmo rendimento. De outro, em comunidades tradicionais e vilarejos orientais, a mulher não pode sair de casa, não pode manter relações sexuais, não pode participar de certos rituais sagrados ou mesmo de atividades rotineiras, e por aí vai.

Nossa sociedade, pautada em tecnologias, máquinas e produtividade, não tolera a ideia de que as mulheres tenham oscilações de rendimento no trabalho (ou em casa, nos cuidados com a família) provocadas por alterações hormonais, fases lunares, uma cólica menstrual etc. Todas têm que trabalhar com a mesma força e determinação todos os dias, não importa o que esteja acontecendo internamente.

É como se tivéssemos que ser robôs. Se uma dor de cabeça nos deixa mal no escritório, em segundos surgem vários colegas sugerindo um comprimido fantástico. Cólica, então, pega mal assumir no ambiente de trabalho. E dá-lhe outro comprimido. Sofrer com a menstruação ou, minimamente, aceitar que o momento pede um pouco mais de calma, nem pensar!

Foi assim que optamos, décadas atrás, pelos absorventes descartáveis, que mantêm as mulheres ainda mais longe de si mesmas, com um punhado de plástico misturado a celulose, que absorve o sangue menstrual, altera sua cor e seu perfume. Tudo para que a mulher não tenha o "desgosto" de ir ao banheiro e dar de cara com algo tão…repugnante (!?). Afinal, em pleno século XXI, é inaceitável que uma mulher tenha que conviver com seu próprio sangue…

Se pensarmos em lutas feministas, porém, essa história é puro machismo. Mas as mulheres, infelizmente, compraram a ideia, sem questionar, sem parar para refletir um pouquinho.

Hoje, em tempos de tantos desafios socioambientais, a escolha pelo absorvente descartável ainda gera uma montanha de lixo todos os anos (durante sua vida fértil, uma mulher consome aproximadamente 15 mil absorventes íntimos), pois o material não costuma ser alvo de tentativas ou pesquisas de reciclagem. Além disso, muitas mulheres apresentam alergias ao absorvente e alterações no pH da mucosa vaginal (o que provoca irritação na pele, coceira, ardência ao urinar, entre outros desconfortos), que as levam a crer que precisam de um sabonete íntimo especial. E, assim, o que era tão simples vai se tornando cada vez mais complexo, confuso, artificial e caro (para elas e para o planeta).

Para mim, buscar um caminho de maior conexão com os ritmos da natureza ajuda as mulheres a conquistar uma aceitação mais plena de si mesmas, e até gratidão em relação ao que acontece com o nosso corpo, mês a mês. Sete anos atrás, publiquei um post aqui no blog sobre a minha opção de usar absorventes reutilizáveis, feitos com tecido de algodão. Dois anos depois, relatei minha experiência de fertilizar vasos de plantas com o sangue menstrual que eu recolhia na lavagem dos absorventes de pano, no post O Segredo da Abóbora Mágica.

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Minha relação com a menstruação sempre foi de respeito e aceitação. Não uso remédios alopáticos e, por isso, se estou com cólica, crio a oportunidade de me recolher um pouco, respeitando meu corpo. Preparo um chazinho quente, uma bolsa térmica e procuro transformar o incômodo em tempo para mim mesma, tempo de me conhecer um pouco mais, de refletir sobre como foram os dias anteriores e de maneira a cólica pode ter sido resultado de algum abuso na alimentação, noites mal dormidas ou sentimentos e pensamentos ruins.

Trocar o descartável pelo paninho não é apenas uma boa opção para reduzir o lixo no planeta, mas é também dar uma chance à nossa natureza. É desacelerar, buscar um ritmo mais natural, menos robotizado, mais feminino.

Mas, eis que ontem li uma reportagem sobre um indiano que revolucionou o absorvente higiênico em vilarejos rurais na Índia, onde o tema é um enorme tabu. Vale a pena ler a matéria completa, mas vou resumir alguns pontos aqui para você. O indiano Muruganantham passou anos pesquisando uma maneira de melhorar a vida das mulheres da sua região, durante o período da menstruação, quando elas se afastavam do trabalho, não podiam ir ao templo nem preparar comida, e as meninas não iam à escola. Tudo porque elas usavam trapos de tecido para conter o fluxo menstrual, que não podiam ser vistos por ninguém. Isso, aliás, prejudicava até a maneira como elas higienizavam os paninhos, já que não costumavam expor ao sol, para evitar constrangimentos e comentários na comunidade.

Está lá na reportagem um dado do The Times of India: apenas 12% de 355 milhões de mulheres indianas que menstruam usam absorventes descartáveis. E há ainda um dado da BBC, afirmando que as consequências para a saúde são sérias: 70% das doenças reprodutivas no país são causadas por falta de higiene menstrual, o que pode afetar a mortalidade materna.

Em meio a tantos equívocos, um dia, Muruga perguntou à sua mulher por que ela não usava absorventes descartáveis, e ela respondeu que eram caros demais. Foi aí que Muruga decidiu que fabricaria seus próprios absorventes, e passou a pesquisar sobre o funcionamento do corpo da mulher, algo que ele desconhecia completamente. Tentou conseguir voluntárias para seu primeiro experimento, mas não deu muito certo. Chegou a usar ele mesmo (!) um absorvente, ligado a um falso útero, feito com uma bexiga com sangue animal e um furinho.

Chocada com tudo aquilo, todos se revoltaram contra Muruga e ele perdeu a mulher e a mãe (que o abandonaram), e sofreu ataques da comunidade, que o pressionou a deixar o vilarejo. Mas, ainda assim, ele não desistiu até que conseguiu, quatro anos e meio depois, construir sua própria máquina de fabricar absorventes, bem mais baratos. Apesar da hesitação inicial, ele conseguiu espalhar sua invenção (sempre operada por mulheres) por 1300 vilarejos em toda a Índia, e recebeu até prêmios de institutos de tecnologia.

Entendo suas motivações e não questiono a boa intenção que ele teve, resumida na frase: “Se você empodera uma mãe, empodera um país”. Mas não consigo evitar a pergunta: não teria sido melhor lutar pelo fim do tabu ou, ao menos, dar início a tentativas por um novo olhar sobre a menstruação? Sinceramente, admiro a coragem e a perseverança de Muruga, mas lamento que a solução tenha de ser criar mais um problema ambiental em uma região já tão carente de saneamento básico… Estou até agora tentando formular um pensamento sobre essa história, que possa considerar a cultura local, as necessidades do planeta, as conquistas das mulheres, a noção de empoderamento… Que tal pensarmos sobre isso?

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