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03/07/2014 15:45 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:35 -02

Moradores de rua: três conceitos de design inclusivos

Divulgação/ParaSITE

As intervenções anti-moradores de rua na arquitetura e no design dos espaços urbanos ganham cada vez mais opositores no mundo. Como foi explicado no último post, uma onda de desaprovação pública às práticas mais comuns – de pinos metálicos no chão de prédios a bancos de praça propositalmente desconfortáveis - tem impelido empresas e governantes de cidades como Londres e Montreal a encararem de frente a questão dos desabrigados nas últimas semanas e reverem suas abordagens.

Embora seja uma época de ouro para as metrópoles, cada vez mais conectadas, competitivas e globais, a população em situação de rua continua um tema delicado e persistente. Na Inglaterra, o número de pessoas nessa condição cresce a um passo de 14% ao ano. Nova York, por sua vez, possui hoje mais moradores de rua do que nos anos seguintes à Depressão norte-americana. E São Paulo viu o número de moradores de rua aumentar em 79% na última década. Mas da mesma maneira que há o “design da exclusão” para esconder essas pessoas, existe também a sua contraparte inclusiva e humana.

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Diversos artistas, designers e arquitetos ativistas decidiram dedicar seu talento e criatividade para projetos que chamam a atenção para a necessidade de mudanças nas políticas públicas e na forma como planejamos as cidades do futuro. Claro que as soluções desenvolvidas são meramente paliativas, mas se voltam para o questionamento da percepção social do problema. Com isso em mente, selecionei três conceitos.

1. ParaSITE

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Criado pelo artista plástico nova-iorquino Michael Rakowits, o paraSITE é um conceito de abrigo para o inverno feito a partir de sacolas plásticas, ziplocs e/ou nylon reaproveitados. Inflado facilmente usando os tubos de saída de calefação ou ar condiciando do lado de fora dos prédios, o artista cria cada modelo conforme a necessidade e os desejos do morador de rua que está tentando ajudar. “Um dos primeiros abrigos foi feito com o maior número de janelas possível porque o morador de rua que conheci não tinha problemas com privacidade, mas sim com segurança. Eram seis janelas na altura dos olhos para quando o morador estivesse sentado e seis para quando estivesse deitado. Ele queria ver potenciais ameaças e estar protegido pelos olhos dos outros”, explica Rakowits, cujo projeto já foi readaptado diversas vezes em Manhattan. Ao custo de cinco dólares em materiais como fita adesiva impermeável e plástico hermético já é possível criar um abrigo, segundo o artista.

2. O mobiliário urbano conversível de Sean Godsell

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Projetos de habitação baratos, confortáveis e capazes de serem produzidos em massa são a especialidade do arquiteto australiano Sean Godsell e de seu escritório em Melbourne, na Austrália. Um dos casos emblemáticos é o Future Shack, uma moradia para desabrigados de fenômenos naturais como enchentes e incêndios florestais (típicos na Austrália durante o verão) que reaproveita a estrutura de contêineres de navios usados. Mas para os moradores de rua dentro da cidade, criou uma série de mobílias urbanas que podem ser convertidas em abrigos, caso de mesas de piquenique, bancos de praça (foto) e pontos de ônibus. “Em Melbourne – considerada diversas vezes a cidade com a melhor qualidade de vida no mundo – há 173 desabrigados para cada 10 mil moradores. Uma cidade humana pode prover abrigo para quem não tem em sua própria infraestrutura, mesmo que de maneira rudimentar, revelando também seu grau de sofisticação pela forma como trata seus desprivilegiados”, conta o arquiteto. Segundo o site do escritório de Godsell, os projetos buscam definir “casa” no seu termo mais fundamental: “abrigo”.

3. Urban Shell

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As preocupações do conceito de abrigo Urban Shell, desenvolvido pelo designer mexicano Agustin Otegui, são as mudanças climáticas e a mobilidade dos moradores de rua. Trata-se de um carrinho (ou trenó) que pode ser armado para proteger de chuva, neve ou vento quando aberto e ao mesmo tempo manter os pertences do usuário secos e seguros na estrutura. Durante o calor, as laterais podem ser abertas na forma de um telhado para proteger do sol e permitir a passagem de ar fresco. “Além de preservar os pertences, os painéis ajudam o morador de rua a ter dignidade e privacidade ao ajudá-lo com a organização, mesmo que as coisas não estejam arrumadas”, afirma Otegui.