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02/07/2014 15:55 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:50 -02

Conheça a história do homem que revolucionou o mercado de bonecas na Nigéria

Reprodução/Facebook

“Eu gosto dessa boneca. Ela é negra, como eu”, disse uma menina de cinco anos em um shopping de Lagos, na Nigéria, ao se deparar com uma Rainha da África.

As Rainhas da África são bonecas negras inspiradas em mulheres icônicas da história africana vestidas com trajes locais, tradicionais da sua cultura.

rainhas africa

As bonecas Rainhas da África

A ideia é empoderar essas meninas, dando um modelo real com o qual elas possam se identificar. “Muitas mensagens subliminares são passadas adiante todos os dias, e as bonecas são outra ferramenta subliminar que pode influenciar uma criança e sua realidade”, disse o criador das bonecas, Taofik Okoya ao Brasil Post via e-mail.

"Eu quero encorajar as crianças da África a apreciar quem elas são e sua raça. Quero promover a auto-apreciação e confiança na criança nigeriana e africana", diz.

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Taofik Okoya, criador das Rainhas da África

Okoya decidiu largar seu cargo de diretor-executivo da empresa do seu pai para abrir seu próprio negócio e mudar a realidade de milhares de meninas do seu país depois de ter a ideia das Rainhas da África enquanto comprava um presente para sua sobrinha. "Todas as bonecas à venda eram brancas e caras. Eu refleti sobre o valor que isso teria para o desenvolvimento dela como uma criança africana. Foi aí que tive a ideia”, conta.

bonecas nigeria

Foto publicada no Facebook das bonecas mostra uma Rainha da África em meio a barbies em um shopping

“Com o tempo, percebi que minha filha tinha tantas bonecas brancas e todas as suas personagens preferidas eram brancas que ela se imaginava como uma pessoa branca. Um dia, ela me perguntou ‘de que cor eu sou?’ e eu respondi preto, então ela disse que preferia branco. Demorou muito tempo para explicar a ela que existem vários tipos de pessoas e culturas no mundo e que elas não são iguais, e que preto também é bonito”, diz Okoya.

Como pai, Okoya ficou triste vendo a autoestima da filha ser abalada por causa da cor da sua pele. "Muitos psicólogos interpretam essa preferência como uma indicação de um sentimento de inferioridade entre as crianças negras. Eu acredito que os pais precisam inculcar orgulho e cultura nos seus filhos, apesar de ser difícil inculcar no outro o que você não tem em você", diz.

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Okoya não foi o primeiro a perceber o poder dos brinquedos sobre as crianças. Há mais de 60 anos, os psicólogos Kenneth e Mamie Clark desenvolveram pesquisas com crianças dentro do Movimento de Direitos Civis dos Estados Unidos para estudar as atitudes das crianças em relação a raça. O chamado “experimento Clark” descobriu que, entre as opções de bonecas negras ou brancas, as crianças negras sempre preferiam as brancas “porque são brancas”. O trabalho do casal contribuiu para a Suprema Corte dos EUA determinar que a segregação racial nas escolas é inconstitucional. O experimento já foi repetido várias vezes nos Estados Unidos desde então, e a maioria das crianças continua preferindo as brancas.

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As Rainhas da África aderiram à campanha #BringBackOurGirls, em relação ao sequestro de 200 meninas na Nigéria

“Eu percebi que a melhor maneira de acessar a mente de uma criança geralmente é através da brincadeira. E eu percebi que as meninas se desenvolvem mais rápido que os meninos e que elas são mais propensas a viver o que elas veem, e é por isso que eu foco nas meninas agora. Além disso, há regiões da Nigéria onde existe uma preferência por meninos em relação a meninas, então se investe mais financeiramente e emocionalmente nos meninos do que nas meninas”, diz Okoya.

Assim como no experimento Clark, as Rainhas da África também enfrentaram uma resistência inicial das meninas nigerianas, que preferiam as barbies brancas. Como disse ele durante a entrevista, “as pessoas são resistentes a mudanças”. Anos, campanhas e entrevistas depois, Okoya venceu a resistência: hoje as Rainhas da África são mais vendidas que as barbies na Nigéria. Ele vende entre 6.000 e 9.000 bonecas por mês, com uma grande variedade de preços. Okoya leva em consideração o fato de que muitas famílias não podem investir em uma boneca para as suas filhas, então vende um modelo econômico de cinco dólares.

“Nós tivemos altos e baixos nos últimos anos. A cultura de bonecas aqui na Nigéria ainda tem que se desenvolver até seu potencial máximo, a boneca ainda é vista como algo elitista ou um privilégio, já que é cara, mas nós temos bonecas com diferentes preços para diferentes classes sociais”, afirma. Essa foi a grande sacada de Okoya.

A Nigéria é a nação mais populosa da África, com 170 milhões de habitantes, e a sua economia está crescendo em 7%, sendo uma das maiores do continente. A Mattel vende barbies negras há anos, mas sua presença no mercado africano é limitada porque dois terços das crianças nigerianas nascem em famílias que não têm condições de pagar os preços exorbitantes das barbies nas prateleiras dos shoppings. Aí que entre Okoya com modelos econômicos a partir de cinco dólares. Com presença solidificada em países como Nigéria, África do Sul, Costa do Marfim e Zimbábue, Okoya planeja exportar os brinquedos. E não é só isso: ele já vende quadrinhos e versões especiais das Rainhas da África e planeja criar séries de animação infantil e músicas, além de uma ONG para ajudar famílias necessitadas. A mensagem que fica? "Ser negra é ser linda".

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