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30/06/2014 12:02 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:47 -02

Moradores de rua: por trás destes números há pessoas

Feio, derrotista e estúpido” é como Boris Johnson, o prefeito de Londres, chamou recentemente uma prática que mostra o lado perverso do design dos espaços públicos e se tornou comum nas grandes cidades globais: as intervenções anti-moradores de rua. São feias porque tornam as cidades mais inóspitas, desumanizando aqueles que já se sentem privados de humanidade. Derrotistas e estúpidas porque não lidam com o problema diretamente e, enquanto solução, são o equivalente a “o que os olhos não vêem o coração não sente”.

Entre as mais comuns estão paredes de viadutos inclinadas, construções sem toldos cobertos, bancos de praça divididos com barras, gradeados em marquises , assentos de pontos de ônibus desenhados com o propósito de serem desconfortáveis e, inclusive, o uso de produtos químicos nas fachadas para afastar com o cheiro forte os frequentadores “indesejados”. Mas algumas mais criativas devem ser citadas. Em São Francisco, nos EUA, por exemplo, os administradores de uma casa de shows decidiram colocar no último volume a reprodução de sons de serras elétricas, motocicletas e britadeiras para impedir que os desabrigados possam dormir por lá. No centro velho de São Paulo, algumas lojas usam sprinklers ou mangueiras para molhar de hora em hora as suas fachadas.

Essas táticas por mais cruéis que pareçam, no entanto, são até mais sutis do que a que foi alvo do comentário de Johnson. No começo do mês de junho, a divulgação pelo Twitter de uma série de fotos de pinos de metal, instalados no chão para evitar que sem-tetos dormissem sob a cobertura de entrada de um luxuoso condomínio de flats no centro da capital inglesa, reacendeu a polêmica antiga e incômoda sobre o que fazer com os excluídos do progresso das cidades. A comoção cresceu e mais denúncias surgiram. Por perto, um supermercado de uma grande rede varejista na City também tinha os infames pinos.

Dessa vez, os londrinos fizeram coro com seu governante e condenaram o que classificaram como “desumano” nas redes sociais. A reação saiu da internet e foi para as ruas quando ativistas cimentaram os pinos de alguns prédios. Uma petição na Change.org reuniu 130 mil assinaturas compelindo o supermercado a retirar na semana passada os pinos que, segundo seu porta-voz, tinham o propósito de passar uma sensação de segurança para os consumidores, intimidados por “comportamentos anti-sociais”. Da mesma maneira, os súditos canadenses de Montreal seguiram o exemplo e tiraram os pinos de sua cidade. “É uma desgraça. Esse não é o tipo de sociedade na qual eu quero viver”, disse em seu perfil do Twitter o prefeito Denis Coderre antes da decisão.

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Desde o século XVIII, a cidade sofre de maneira endêmica com a questão, literariamente abordada por Charles Dickens em “Oliver Twist” e em um dos melhores livros-reportagens já escritos, “Na pior em Paris e Londres” de George Orwell. Hoje, a região metropolitana de Londres possui cerca de 35 mil moradores de rua, concentrando 72% do total que vive no país, segundo um censo de 2011 do Departamento de Comunidades e Governos Locais do Reino Unido. Parece muito, mas, para efeito de comparação, em 2003, um ano de pico, a contagem era de 135 mil em toda a nação. Embora as políticas de assistência social para moradias populares, combate ao uso de drogas e reintrodução no mercado de trabalho tenham surtido grande efeito na última década, desde a crise financeira de 2008 estima-se que o índice aumente a um passo acelerado de 14% ao ano. E como em diversos lugares, Londres também sofre com o alto preço dos imóveis que impossibilitam os menos favorecidos possam encontrar saídas melhores que o frio das ruas.

Em Nova York, onde as primeiras imagens de pinos começaram a surgir, dados da entidade Coalition for Homeless mostram que a cidade tem um pouco mais de 50 mil desabrigados. É o maior numero desde a Depressão de 1929, capaz de lotar o estádio dos Yankees. Apesar de a cidade ter passado por uma grande transformação sustentável na última década durante o governo Bloomberg, de 2003 a 2012 a população de sem-tetos aumentou em quase 73%. Resolver o déficit de habitação e tirar as pessoas das ruas será o grande desafio para os próximos anos.

São Paulo é outra que viu esse número disparar. De acordo com o Censo da População em Situação de Rua (2011) da Secretaria Municipal de Assistencia e Desenvolvimento Social, a capital paulista conta com 14 mil moradores de rua, ou 79% a mais desde a ultima pesquisa do tipo feita em 2000. A gestão de Fernando Haddad tem apostado na recuperação dos moradores de rua, mas são ações ainda em fase embrionária. Desde 2013, o Pronatec/ Pop Rua, criado com o Senai, oferece cursos profissionalizantes e moradia. Em janeiro deste ano, o programa tinha 388 matriculados com nove meses de funcionamento, dos quais 74 deixaram as aulas e 115 obtiveram seus certificados. Destes graduados, 43 foram contratados em empregos formais. Resta a reflexão: faltam investimentos ou o preconceito é o que mais atrapalha? E, dessa vez, não se trata de vagas de estacionamento.

A tendência no Brasil é preocupante quando paramos para dimensionar o problema no contexto de déficit de habitação. Uma pesquisa sobre o tema da Fundação João Pinheiro, em parceria com o Ministério das Cidades, aponta um déficit de 6,9 milhões de unidades de moradia, sendo 85% na área urbana. Além disso, o estudo concluiu que 70% do déficit nacional estão concentrados no Nordeste e no Sudeste.

É óbvio que não queremos um futuro com mais pessoas em situação de rua, mas não resolveremos nada fazendo vista grossa para a desumanização de nossas cidades. E o que podemos aprender de Londres e Montreal? Para Katharine Sacks Jones, diretora de políticas e campanhas na entidade inglesa Crisis, esconder os moradores de rua não é mais uma opção nas cidades em que queremos viver neste século. “Por trás desses números há pessoas reais lutando contra a falta de moradia, cortes de benefícios e cortes de assistência social que podem ajudar a reconstruir suas vidas. Elas merecem mais do que ser enxotadas para a próxima porta no final da rua”, afirma ela.