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20/06/2014 00:31 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Inglaterra x Uruguai: milhares vão às ruas da Vila Madalena

Rodolfo Viana/Brasil Post

Fazia 14°C em São Paulo. O céu cinza anunciava uma chuva que não veio. Apesar do vento frio, um rapaz de camiseta da Colômbia e bandeira do México parecia não sentir a baixa temperatura: ele dançava de rosto colado com uma negra linda, bem no cruzamento das ruas Aspicuelta e Mourato Coelho, duas das vias mais movimentadas da Vila Madalena, região oeste de São Paulo conhecida por sua vida noturna. Em dias normais, dançar no meio das ruas seria impensável. Mas ontem, a Vila Madalena não vivia um dia normal: era tarde de jogo da Copa.

Todas as mesas de todos os bares estavam ocupadas. Os televisores sintonizavam Inglaterra e Uruguai, duas seleções que perderam os jogos de estreia na Copa do Mundo 2014 e buscavam a recuperação no grupo D, o chamado "grupo da morte". Alguns assistiam ao jogo, mas a maioria estava em pé, no meio da rua, bebendo cerveja comprada de ambulantes (a R$ 5), tirando selfie com desconhecidos que remotamente parecessem de outra nação, paquerando qualquer coisa que se mexesse.

De longe, já se via o mundaréu. De acordo com a Polícia Militar, aproximadamente 5 mil pessoas estavam ali. Chegando mais perto, descobria-se a subversão de uma lei da física: dois corpos podem perfeitamente ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Sobretudo se são corpos que se amassam em algum canto da Aspicuelta.

Na calçada, dois caras fumam um baseado. Educados, oferecem o cigarrinho a um dos poucos ingleses ali. Há pouquíssimos estrangeiros do Velho Continente; por outro lado, para onde quer que se olhe, haverá uma bandeira uruguaia, uma camisa argentina, um rosto pintado com as cores da Colômbia.

Tem um holandês. Ele conversa (ou melhor, apenas ouve) duas loirinhas arranhando qualquer coisa em inglês. Um brasileiro se aproxima para dar um selinho em uma das meninas. Ela o repele: "Sai daqui! Você não é gringo!"

Do outro lado da rua, está Luis Lobo, de 27 anos. O designer brasileiro que mora na Austrália há cinco anos resolveu passar os últimos quatro dias na rua Aspicuelta, vendendo cachecóis das seleções da Copa. "Na Champions League, todo mundo no estádio tem um cachecol. Resolvi trazer isso para o Brasil", explica. Ele vende, por dia, aproximadamente 70 peças ao valor de R$ 30 cada. "Saiu muito o cachecol do seleção brasileira, claro — os gringos levam um do próprio país e um do Brasil, para ter de recordação."

De repente, uma gritaria generalizada. Sons de corneta. Aplausos. É gol do Uruguai. Suárez, de volta à Celeste Olímpica depois de ficar de fora do jogo contra a Costa Rica, aproveitou o cruzamento de Cavani e cabeçeou para dentro. O mesmo aconteceu no segundo gol, quando Suárez meteu um petardo na rede do goleiro inglês Hart. A Vila Madalena definitivamente é um pedaço do Uruguai.

 

Apesar da vitória, o uruguaio Agustín Zunini sabe que a seleção de seu país terá uma pedreira pela frente. A derrota para a Costa Rica por 3 a 1 na estreia deixou o time com a corda no pescoço, e o próximo confronto é contra a Itália de Super Mario Balotelli. "Se o Uruguai se classificar na fase de grupo, será capaz de qualquer coisa", afirma.

Ele veio com amigos para o Brasil na quarta-feira. "Depois que vi o jogo contra a Costa Rica, achei que devia vir para dar meu apoio." Foi ao Itaquerão antes do jogo contra a Inglaterra, mas não conseguiu achar ingressos a venda. Sem destino certo, rumou para a Vila Madalena, pois ali encontraria "las chicas más buenas".

Mas afinal, existe um fetiche por homens estrangeiros? Débora Vaccari, de 26 anos, acredita que sim. "Os gringos são mais bonitos. Você vê um cara loiro, alto... Sabe que não é brasileiro."

Apesar da concorrência, os brasileiros têm um jeitinho para contornar a situação. "Tem uns caras que se fingem de gringo", afirma Larissa Moraes, de 24 anos. "Eles começam a conversar com a menina, enrolam a língua só para ver se ela acredita."

No meio do povo, nasce um pagode. Uruguaios e brasileiros se unem para tocar pandeiro e entoar clássicos do Jeito Moleque e congêneres. Até um Lepo-lepo é arranhado. A festa segue noite adentro, mesmo com a neblina que paira sobre a Vila Madalena, o umbigo da América Latina.

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