COMPORTAMENTO
18/06/2014 09:45 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Como o "papo de gordo" virou uma epidemia social – e como você pode parar com isso

Alguns podem achar que o momento seminal de As Patricinhas de Beverly Hills é a cena em que um computador escolhe a roupa de Cher Horowitz, mas é outro diálogo que captura com perfeição a realidade da mulher contemporânea. É quando Cher diz casualmente para sua amiga Dionne:

“Estou me sentindo uma baleia. Comi duas porções de sucrilhos, três pedaços de bacon de peru, um punhado de pipoca, cinco M&M’s de manteiga de amendoim e, tipo, três pedaços de doce.”

Familiar? Todos fazemos isso: o papo aparentemente inofensivo sobre as calorias que ingerimos ou sobre a necessidade de ir para a academia. Mas muitos de nós não percebemos como esse tipo de “papo de gordo” pode ser prejudicial. Ele penetrou insidiosamente não só nas nossas conversas do dia a dia, mas também nos programas de TV, filmes, revistas e outdoors. É inescapável.

O termo “papo de gordo” foi cunhado por pesquisadores em 1994, quando eles observaram a maneira como meninas do ensino médio falavam de seus corpos. As garotas estavam se degradando e se desculpando. Desde então, houve inúmeros estudos detalhando o quão onipresente é a conversa sobre o corpo e o medo de ser gorda entre as mulheres de todas as idades.

“É sobre o corpo, mas também parece ser sobre disciplina e moderação”, diz Alexandra F. Corning, professora associada de psicologia na Universidade Notre Dame, disse ao Huffington Post. “Essencialmente, é uma conversa autodegradante sobre o corpo, a comida ou o ato de comer.”

Há muito mais que gordura em ser “gordo”

Talvez um dos motivos pelos quais o “papo de gordo” é tão prevalecente seja o fato de “gordo” ter se tornado uma palavra tão carregada. De acordo com a Associação Nacional dos Distúrbios Alimentares , 81% das crianças com 10 anos têm medo de engordar, e 42% daquelas entre a segunda e a quarta séries dizem que gostariam de ser mais magras.

“A palavra ‘gordo’ tem muitos novos significados”, diz Corning, que realizou vários estudos sobre o “papo de gordo” entre crianças e mulheres adultas. “’Gordo’ é uma ofensa.”

A autointitulada ativista dos gordos Lindsey Averill, uma das cabeças por trás do documentário “Fattitude” , diz que o termo “papo de gordo” é problemático em si mesmo. Ela citou a recente campanha contra o “papo de gordo” da Kellogg’s como uma medida equivocada.

“A ideia intrínseca é que a ‘gordura’ é ruim”, disse Averill ao Hunffington Post. “A realidade é que todo corpo tem gordura e, se não tiver gordura, está com um problema.”

Averill também aponta que a cultura pop nos ensina a considerar a gordura uma coisa má. Personagens como Ursula a Bruxa do Mar e a Rainha de Copas, por exemplo, são apenas dois exemplos de pessoas acima do peso retratadas na tela como piada ou vilões. É só pensar nas piadas supercasuais com gente gorda feita em programas como “The Big Bang Theory” ou “How I Met Your Mother”.

“São dois programas hilários, mas inacreditavelmente gordofóbicos”, diz Averill. “Com Barney Stintson, é como se a cada terceira palavra uma é piada de gordo.” (De fato, há blogs inteiros dedicados a esse tópico.

E há pessoas públicas como Mike Jeffries, CEO da Abercrombie & Fitch, e Chip Wilson , ex-CEO da Lululemon, que ou dizem explicitamente que não querem gente gorda usando as roupas de suas empresas ou dão a entender que os corpos de certas mulheres simplesmente não servem para determinados tipos de roupa. Não é à toa que tantas mulheres – inacreditáveis 93%, de acordo com uma pesquisa recente -- estão preocupadas em manter uma silhueta esbelta e socialmente aceitável.

“Temos tanto medo de que nossos corpos sejam vistos como gordos”, diz Averill. “Ser gordo é uma das piores coisas que existem em nossa cultura, e vem com tantas conotações e efeitos negativos que, quando nos olhamos no espelho, temos medo de fazer parte dessa categoria e internalizamos esse medo como ódio.”

As mulheres aprendem a estar infelizes com seus corpos, sejam `gordas’ ou não

Nos Estados Unidos de hoje, as mulheres são criadas para se sentir insatisfeitas com seus corpos, um fenômenos chamado de “descontentamento normativo” nas pesquisas, diz Corning. Em vez de sentirmos amor ou mesmo apatia em relação aos nossos corpos, tendemos a nos concentrar em nossas supostas falhas.

“As mulheres não são criadas para pensar ‘Ei, eu estou bem – está tudo certo com meu corpo’ ou ‘meu corpo é uma não-questão, vou estudar matemática’”, diz Corning.

Corning culpa que a maneira com que as mulheres são bombardeadas com a publicidade, de outdoors aos quadradinhos que aparecem no Facebook – todos eles mostram um único tipo de corpo: magro, que os pesquisadores chamam de “ideal magro”. Ela diz que é papel dos publicitários criar esse descontentamento e essa insatisfação sobre quem somos e também convencer os consumidores de que esses problemas podem ser corrigidos com seus produtos. Agora, com a possibilidade de alterar imagens digitalmente, alguns dos corpos femininos que vemos regularmente não são nem sequer humanos. Pense em cinturas minúsculas, seios grandes, nenhum poro e nenhum grama de celulite.

Inevitavelmente, muitas mulheres começam a se comparar com o “ideal magro” e desenvolvem uma relação negativa com seus corpos. Isso é o que leva ao “papo de gordo” – que, por sua vez, só piora as coisas. Pesquisadores da Universidade Northwestern descobriram que as pessoas que participam de “papos de gordo” têm mais culpa e maiores níveis de insatisfação com seus corpos, e também o contrário: aqueles com índices mais altos de insatisfação com o corpo têm maior probabilidade de fazer parte desses papos.

Essa autodepreciação é reforçada pelos nossos filmes e programas de TV favoritos

De “As Patricinhas de Beverly Hills” a “Sex and the City”, o “papo de gordo” é algo que vemos o tempo todo na TV e nos cinemas. É fácil entrar nessa espiral: Se a Alicia Silverstone está infeliz com o corpo dela, eu devo estar enorme. Esse tipo de pensamento já foi comprovado em estudos assim como na vida de muitas mulheres. Quando Averill era criança, ela via mãe e sua avó experimentando roupas nos provadores das lojas. Foi a fundação para uma série de hábitos negativos.

“Eu ficava sentada no chão, ouvindo as duas falarem que não poderiam usar jeans brancos porque suas coxas era gordas demais”, diz Averill. “Se as coxas delas são gordas, as minhas são gigantescas. Não acho que fosse intencional, mas foi o que aconteceu comigo.”

A mãe e a avó de Averill pesavam cerca de 55 quilos cada uma, diz ela.

A mídia também tem parte da responsabilidade pela preocupação nacional com peso e aparências. Olhe os tabloides na sua banca de jornais e você verá uma avalanche de manchetes sobre o corpo feminino, do tipo “Como Fiquei Magra” e “Ela ganhou 30 quilos” . No Jantar dos Correspondentes da Casa Branca deste ano, Averill reparou como os âncoras passaram um tempão comentando as roupas das mulheres, ignorando completamente o que os homens estavam vestindo.

“É por isso que falamos dos corpos das mulheres o tempo todo e por que as mulheres sempre falam dos seus corpos”, diz Averill. “O noticiário diz para elas o que é importante – se elas são atraentes ou não.”

Mas também falamos do assunto para não ficar de fora

A principal razão pela qual há tanto “papo de gordo”? Porque todo mundo fala assim. Quando um amigo se lamenta por ter comido muito bolo numa festa, você corre o risco de parece antipático ou até mesmo arrogante se não prometer sair para uma corrida depois da próxima fatia.

“É uma maneira de acharmos que ninguém é melhor, ninguém é acima da média e somos todos iguais”, diz Corning.

Estudos mostram que o “papo de gordo” faz você ter mais chances de reclamar do seu corpo ou da sua carga calórica. Não é uma surpresa que, num recente experimento controlado, Corning e a co-autora, Michaela Bucchianeri, descobriram que é mais provável que mulheres acreditem em afirmações do tipo “papo de gordo” do que naquelas que projetam mais autoconfiança. Se as mulheres tendem para o negativo quando se trata de suas silhuetas, não é surpresa que o descontentamento seja a norma.

Outra explicação para o “papo de gordo” é a segurança. Pesquisadores da Universidade de Wisconsin-Madison e da Universidade Northwestern disseram que a resposta mais comum para o “papo de gordo” é negar que o amigo que está reclamando esteja gordo, dizendo que, na realidade, o gordo é você. O terrível diálogo de “Não, você está ótima, olha as minhas coxas gigantes!” (perfeitamente retratado nesta cena de “Meninas Malvadas”) se tornou parte integral da socialização entre as mulheres. É o que você e sua mãe estão fazendo desde pequena e é o que você faz com seus pares assim que toma consciência de seu corpo. É como você se ajusta ao grupo e interage com as outras mulheres.

“O `papo de gordo’ é uma mulher dizendo para a outra que é OK odiar seu corpo”, diz Corning. “Existe uma pressão social para ser o tipo de mulher que se conforma ao padrão moral que diz que, se eu como o que quero, sou uma menina má.”

Como evitar esse papo, então?

Tem boa notícia: podemos controlá-lo. Ou, pelo menos, adotar algumas medidas para controlar o nosso próprio “papo de gordo” e como o “papo de gordo” dos outros nos afeta.

Tanto Averil como Corning recomendam atacar a questão de frente, se você estiver falando com alguém com quem se sinta à vontade. Se seu amigo ou amiga começar com o “papo de gordo”, Corning sugere dizer algo com: “Você está se ouvindo? Percebe como está se degradando? Você é tão mais valioso que isso”, ou “Eu você não vamos ter esse ‘papo de gordo’ – estamos acima disso”.

É fundamental mudar suas perspectiva de “gordo”. Um estudo recente indica que sua “dieta visual” pode fazer toda a diferença. Os resultados da pesquisa, de 2012 mostram que as preferências das mulheres pela magreza diminuíam quando elas eram expostas com mais frequência a imagens de corpos grandes. Basicamente, se virmos corpos de todos os tipos e tamanhos na mídia, todo mundo fica mais feliz.

O crescente movimento pela “aceitação dos gordos” é um ótimo começo. Ativistas como Jess Baker , Marilyn Wann e Lesley Kinzel se manifestam contra o preconceito contra gordos e desafiam os ideais de corpo da sociedade. (Os anúncios que Baker criou em resposta aos comentários do CEO da Abercrombie são obrigatórios). Entre esses livros, esses blogs, essas mulheres. Não aceite as imagens empurradas pela grande mídia.

É claro que, quando se trata de “papo de gordo”, muito do ruído vem das nossas próprias cabeças. Para isso, Corning tem um conselho simples.

“Se quiser se exercitar, vá se exercitar. Não precisa dizer pra ninguém que você é uma pessoa terrível”, diz ela. “Se você não quiser comer um pedaço de pizza, não coma. Ou, se você se pegar comendo, simplesmente coma. Aproveite.”

Bom apetite.