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13/06/2014 07:42 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Repressão, sangue e R$ 0,20: o mais emblemático protesto de 2013 em SP completa um ano nesta sexta-feira

André Stéfano/Fotoarena/Estadão Conteúdo

O dia 13 de junho já tem um espaço especial na agenda do Movimento Passe Livre (MPL). Há exatos 365 dias, o coletivo fundado em 2005 e que defende o transporte gratuito para toda a população liderou a mais emblemática manifestação registrada em São Paulo no ano passado. Era o quarto ato contra o aumento da tarifa do transporte na capital, e o saldo daquele dia levou mais de 240 pessoas detidas e uniu manifestantes e jornalistas como alvos da Polícia Militar.

“Assim como o dia 6 de junho, quando começaram os atos no ano passado, o dia 13 também teve importância até pela grande repressão que apareceu muito. O dia 19 de junho também é importante, porque foi quando a tarifa baixou, até por isso faremos um ato no dia 19 agora, para comemorar essa conquista”, relembrou Mariana Toledo, integrante do MPL, em entrevista ao Brasil Post.

A decisão conjunta da Prefeitura de São Paulo e do governo do Estado em subirem a passagem para todo o transporte público – ônibus, metrô e trens da CPTM – de R$ 3,00 para R$ 3,20, tomada em maio do ano passado e com início em 2 de junho daquele ano, foi o estopim para os primeiros protestos. A adesão aos atos, liderados pelo MPL, foi crescente na mesma medida que a repressão da PM - esta já registrada nos anteriores -, assim como na última quinta-feira (12), na abertura da Copa do Mundo.

O quarto ato, no dia 13 de junho de 2013, foi justamente o mais violento registrado até então. Mais de 240 pessoas foram presas, depois da manifestação que saiu da região do Teatro Municipal, no centro da cidade, tentar avançar pela Rua da Consolação em direção à Avenida Paulista. A PM alegou, na ocasião, que o MPL “descumpriu o combinado” – que seria a dispersão do ato acontecer na altura da Praça Roosevelt. Foi a senha para a Tropa de Choque e a Cavalaria da corporação avançar sobre os manifestantes. No tumulto, jornalistas viraram alvos gratuitos de alguns policiais.

Reedição da 'Batalha da Maria Antônia'

O principal ponto do confronto, na altura da Rua Maria Antônia, foi levado aos lares de todo o Brasil pelos jornais Nacional (TV Globo) e da Record, que sobrevoavam o local no exato momento dos embates violentos. No mesmo local, em outubro de 1968, estudantes da USP e do Mackenzie se enfrentaram em plena ditadura militar, o que deu uma ironia ainda mais trágica ao que acontecia naquele ato do MPL.

A prisão de jornalistas e o ferimento de vários deles, sem justificativas por parte da PM, fez até mesmo com que a chamada “grande imprensa” finalmente reconhecesse a luta pelos R$ 0,20 como uma manifestação de fato. Nos três atos anteriores, o grupo engajado com o Passe Livre era descrito como “vândalo” e “baderneiro”.

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“Olha, o que posso te dizer é o que a gente sempre disse, que a intenção dos protestos é que não exista repressão e que o ato transcorra pacificamente. Toda manifestação a gente pensa como uma grande festa de apropriação da cidade e, nos atos do ano passado, a gente queria criar um espaço coletivo dentro da vida urbana da cidade. Então, quando a repressão começa, ela não se dá por parte do movimento, mas sim partindo da própria polícia. A gente tenta se preparar, abrir o diálogo, mas sempre sabe como isso acaba”, relembrou Mariana.

O dia 13 de junho de 2013, não por acaso, pode ser considerado um “ponto de virada”, já que os protestos seguintes voltados à redução do valor da tarifa do transporte em São Paulo somente cresceram de tamanho e passaram a unir diversos coletivos, cada um trazendo as suas próprias demandas. Foi o caminho encontrado para uma grande parcela da população apresentar ao Poder Público o seu descontentamento. Menos de uma semana após o violento quarto ato do MPL, o prefeito Fernando Haddad e o governador Geraldo Alckmin anunciaram a redução do preço da passagem para os anteriores R$ 3,00, valor que permanece até hoje.

Ao mesmo tempo que o Poder Executivo recuou na questão da tarifa, nem um único policial envolvido em excessos foi punido, conforme noticiou em fevereiro deste ano a BBC Brasil. Mais absurdo só mesmo a alegação da PM, naquele período de manifestações, de que seria possível fabricar bombas com vinagre - produto usado pelos manifestantes para diminuir os efeitos do gás lacrimogêneo.

Legado popular ainda vivo

Nos últimos 12 meses, protestos se espalharam pelo País e diluíram aquela mobilização registrada majoritariamente nos meses de junho e julho do ano passado. Quanto ao MPL, o movimento continua realizando o mesmo trabalho que já fazia, sobretudo na periferia e junto a outros coletivos, ao melhor estilo “a união faz a força”. “A articulação desses vários grupos já existia antes, mas a gente está tentando contar cada vez mais com os demais coletivos, construindo alianças aos poucos”, completou Mariana.

A integrante do Passe Livre faz questão ainda de ponderar sobre dois temas: Copa do Mundo e eleições. Quanto ao primeiro, o movimento afirma não ter problemas com o futebol em si, mas sim com o legado negativo trazido pelo Mundial. “Tivemos a remoção da população pobre de áreas de obras da Copa, com uma truculência enorme. Também ocorreram obras de transporte público que não atendem aos interesses da população, mas seguem somente a lógica da Copa, tudo feito com violência e repressão. Não temos problema com o futebol e nem vamos nos reunir para ver jogos, então o que posso dizer é que estaremos na rua, mostrando nossas pautas e apresentando um contraponto ao que está aí”.

Em relação às eleições de outubro, o Passe Livre mantém a posição dita apartidária. Não por acaso, alguns dos momentos de maior tensão durante os atos do MPL acontecem quando partidos tentam participar dos protestos, buscando maior visibilidade para si próprios. “Não somos cabos eleitorais de ninguém. No próximo semestre vamos focar os nossos trabalhos cotidianos, focados na pauta dos transportes”, adiantou Mariana. Falando nisso, e a conhecida proposta de “tarifa zero” para toda a população?

Na semana passada, o secretário estadual de Transportes Metropolitanos, Jurandir Fernandes, aproveitou a discussão em torno da greve dos metroviários em São Paulo para taxar o MPL de um movimento “romântico”, comentando ainda ser impossível uma proposta de tarifa zero, ou “uma vida sem catracas”, como sempre destaca o MPL, vingar. Para a integrante do Passe Livre, a discussão está longe do fim, no que depender do coletivo.

“No contexto atual, de criminalização dos movimentos sociais, ouvir que somos românticos é bem melhor do que ser chamado de vândalos, como era o caso. Mas discutindo a sério esse romantismo, o MPL se organiza para discutir tecnicamente a tarifa zero, temos textos no nosso site para discutir essa acessibilidade, com exemplos de outras experiências que deram certo em outras cidades. Estamos sempre tentando destacar a viabilidade, porque geralmente essa decisão nunca é técnica, mas sim política. Em SP, houve uma tentativa no governo Erundina, mas não avançou na época (1992)”, concluiu.