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11/06/2014 08:33 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Greve do metrô na Copa? Sindicato vê ‘tática de guerrilha' de Alckmin; Metrô usou imagens e B.O. para demissões

Alex Silva/Estadão Conteúdo

Haverá metrô ou não na próxima quinta-feira (12), data da abertura da Copa do Mundo em São Paulo? Oficialmente, essa pergunta deve durar até o dia do jogo entre Brasil e Croácia, na Arena Corinthians. Mas nos bastidores, o cenário que se desenha está vivo na memória recente do paulistano: os metroviários devem parar, enquanto o Metrô adotará um plano de contingência e o governo do Estado poderá realizar novas demissões.

Após cinco dias de paralisação, os metroviários suspenderam a greve e voltaram ao trabalho nesta terça-feira (10). Nesta quarta-feira (11), às 17h, a categoria realiza uma nova assembleia para decidir se retoma o movimento no dia seguinte, ou se encerra a paralisação.

Em entrevista ao Brasil Post, o secretário-geral do Sindicato dos Metroviários, Alex Fernandes, disse que a decisão dos trabalhadores será soberana, mas que já há um indicativo do que deve ocorrer.

“Vamos ouvir os trabalhadores e o que eles decidirem será feito. É claro que todos ficaram com medo (com as 42 demissões de segunda-feira), mas o sentimento de raiva é maior do que o medo. O movimento está inflamado e conta com apoio até internacional, então se não houver a reintegração dos trabalhadores demitidos, é greve no dia 12”, afirmou Fernandes. O sindicalista classificou como “tática de guerrilha” as últimas ações do governo de Geraldo Alckmin.

“Ele (Alckmin) vai ficar com esse jogo de palavras. Mas nós vamos parar tudo, até o esquema de contingência. Faremos uma ofensiva no diálogo até para convencer os supervisores (que ajudaram a operar os trens durante a greve) a não trabalharem. Tudo está sendo feito para que a categoria não continue se manifestando, mas não vamos nos ater a essas ameaças, essa repressão”, completou.

Demissões no centro do debate

Ainda nesta terça-feira, o presidente da categoria Altino de Melo Prazeres Junior garantiu que as 42 demissões se focaram exclusivamente em dirigentes e delegados sindicais, o que contrapõe o que disseram Geraldo Alckmin e o secretário de Transportes Metropolitanos, Jurandir Fernandes: de que todos os desligamentos por justa causa estavam ligados a desvios de conduta, como vandalismo e uso irregular dos sistemas de som de algumas estações do Metrô.

“Foi uma retaliação política do governo estadual contra a organização dos trabalhadores”, criticou o sindicalista, em declarações reproduzidas pelo site da Rede Brasil Atual.

A reportagem do Brasil Post procurou o Metrô, para obter mais detalhes sobre as demissões. A assessoria de imprensa da empresa informou somente que as demissões foram justificadas para cada um dos 42 trabalhadores, mas se negou a divulgar os nomes e a irregularidade que cada um cometeu. O Metrô disse ainda que imagens das câmeras de algumas estações e até um boletim de ocorrência, envolvendo um funcionário que teria tido a perna quebrada por grevistas, também auxiliaram na investigação interna que levou às demissões. O teor desse B.O. ou onde ele teria sido registrado não foram informados.

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Além disso, o Metrô assegurou que não há nenhuma possibilidade de reintegração dos trabalhadores demitidos, uma vez que a ação da empresa foi justificada. Quanto à ameaça de retomada da paralisação, a companhia garantiu ter um plano de contingência especial para que a abertura da Copa em Itaquera, na zona leste da capital, não seja afetada. Detalhes desse plano, contudo, não serão divulgados, completou a assessoria.

A posição da empresa se une ao discurso adotado por Alckmin também nesta terça-feira: “Nós teremos tanto o Metrô quanto a CPTM. É difícil, aliás, você ter um estádio que tenha, na porta, uma linha de Metrô, a 3 (Vermelha) e uma linha de trem, que é a linha 11 da CPTM”, afirmou de maneira categórica, sem temer o que chamou de “grupo querendo fazer bagunça pela bagunça, caos pelo caos”.

A garantia de que vai haver metrô na quinta-feira foi tanta que, nas redes sociais, a companhia de trens orienta torcedores, turistas e a população a usar o transporte público para ir à abertura do Mundial.

Quinta de feriado em SP pode ter novos confrontos

Em dois dos cinco dias de greve, grevistas entraram em confronto com a Tropa de Choque da Polícia Militar. Ambos aconteceram na Estação Ana Rosa, localizada na Vila Mariana (zona sul da capital) e ponto por onde passam as Linhas 1-Azul e 2-Verde. Nas duas ocasiões, a discordância estaria em torno dos piquetes montados pelo sindicato para impedir a entrada de funcionários para trabalhar. Se governo e sindicato não alterarem em uma vírgula o que estão dizendo, é possível que novos confrontos sejam registrados nesta quinta-feira.

De acordo com secretário-geral do Sindicato dos Metroviários, Alex Fernandes, há uma intensificação no número de policiais militares nos arredores de algumas estações, como Ana Rosa, Paraíso e Sé. O sindicalista disse acreditar que tudo faz parte a estratégia do governo em minar o movimento, em uma medida que, na visão de Fernandes, “nem na ditadura militar foi vista”.

“Já tínhamos notado essa presença da PM há três dias. Tem muita polícia em todo o sistema e acho que faz parte da estratégia do governador. Ninguém gosta de apanhar da polícia, que acaba sendo desagradável e até assustadora, mas faremos todo o esforço pela categoria. Até com esse bloqueio das contas, algo que dificulta muito o nosso trabalho, eles estão tentando destruir a categoria”, comentou.

A Secretaria de Segurança Pública (SSP) foi procurada para comentar se houve um aumento do ostensivo junto às estações do Metrô e se há alguma medida em andamento para impedir a mobilização dos metroviários em piquetes nas estações. A reportagem perguntou ainda qual era a análise da SSP com relação aos dois confrontos registrados na Estação Ana Rosa. A única resposta veio em caráter de nota, cuja íntegra está a seguir:

A Polícia Militar atuou durante a greve parcial dos metroviários para garantir o funcionamento dos trens, como determinou a Justiça, a manutenção da ordem pública e o direito constitucional de ir e vir dos cidadãos. A força foi usada somente após terem falhado as tentativas de diálogo com os grevistas. Durante a greve, o policiamento foi reforçado nas estações para evitar depredações, além de garantir a segurança dos usuários e dos profissionais que desejavam trabalhar.

Para o paulistano, a incerteza se haverá ou não metrô na quinta-feira só é diminuída, em parte, pelo fato de que o dia 12 de junho será feriado, pelo menos para a maioria das categorias de trabalhadores. Tal situação diminui a demanda, o que é um ponto positivo a quem precisar do metrô e, eventualmente, vier a encontrar o serviço funcionando apenas com o esquema de contingência. A dúvida repousa então na sexta-feira (13), caso os metroviários voltem mesmo a parar.