Comportamento

Na fossa: 15 discos para sofrer por amor

Nada consegue derrubar o clichê lançado por Vinícius de Moraes: "Tristeza não tem fim/ Felicidade sim". Quando experimentamos o término de relacionamento, a tristeza não apenas parece infinita, como torna todas as coisas ao nosso redor ainda piores.

Você pode comer um pote inteiro de sorvete, fazer maratona de comédias na Netflix ou passar horas matando inimigos no video game que a situação não muda. A única solução encarar de vez a própria melancolia e deixar o tempo passar.

Pensando nisso, preparamos uma seleção de 15 discos que vão potencializar ainda mais a sua angústia. São álbuns nacionais - Cartola, Los Hermanos e Otto -, ou mesmo discos estrangeiros - Bob Dylan, Fleetwood Mac e Adele -, perfeitos para quem acabou de se separar ou levou aquele gostoso pé na bunda. Pode chorar em posição fetal, abraçar o travesseiro e gritar, só não esqueça de ouvir cada um dos discos abaixo.

The Beach Boys: "Pet Sounds" (1966, Capitol)
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As melodias festivas e harmonias de vozes envolventes por vezes ocultam a melancolia escondida em Pet Sounds (1966). Obra-prima da banda norte-americana The Beach Boys, o álbum é mais do que uma registro transformador para a música de sua época, mas a morada de algumas das canções mais tristes já compostas.
Das confissões em You Still Believe in Me ao personagem que espera pela mulher amada em I'm Waiting for the Day, cada música do álbum entrega ao ouvinte versos de puro "desamor". Mesmo envolvido em amargura, Pet Sounds não exclui o lado bom dos relacionamentos. Parte do disco concentra algumas das mais belas canções de amor já registradas, caso da delicada God Only Knows. Na melhor ou pior das hipóteses, um disco para lembrar da pessoa amada.

Bob Dylan: "Blood On The Tracks" (1975, Columbia)
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Bob Dylan nunca confessou, mas boa parte das canções registradas em Blood On The Tracks (1975) parecem traduzir a crise conjugal vivida pelo músico. Há dez anos casado com Sara Lownds, Dylan utiliza do álbum para distorcer o amor, exaltar solidão e diluir pequenos versos melancólicos por entre toda a formação do álbum. A dor está por todos os lados
Menos "político" que em começo de carreira, o cantor utiliza de si próprio como a matéria-prima do trabalho, o que explica a formatação introspectiva do disco, orquestrado do primeiro ao último acorde de forma amargurada, sufocante em alguns momentos. Tendo em You're a Big Girl Now um ponto de crescimento, Dylan mergulha lentamente dentro do próprio universo, produzindo um álbum que parece feito para se ouvir logo depois do adeus.

Cartola: "Cartola" (1976, Marcus Pereira)
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O amor - e a falta dele - é o menor dos "problemas" em se tratando da poesia que abastece o segundo registro solo de Cartola. Um dos álbuns mais doloroso do repertório nacional, o trabalho lançado em 1976 é a melhor representação do sofrimento que sempre acompanhou o artista, capaz de cantar sobre a solidão (Peito Vazio) e o outros aspectos "simples" da vida (O mundo é um moinho) cruzando pessimismo e esperança.
Ainda que algumas das canções mantenham o bom-humor em alta - caso de Não posso viver sem ela e Ensaboa -, parte expressiva da obra mergulha em um profundo sofrimento, sustentando músicas memoráveis como Preciso me encontrar, Sei Chorar e Cordas de Aço. Para ouvir com um nó na garganta.

Fleetwood Mac: "Rumours" (1977, Warner Bros.)
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Rumours (1977) é um disco sobre separação feito por pessoas que estavam se separando. Obra transformadora dentro da extensa discografia do Fleetwood Mac, o 11º álbum do grupo anglo-americano é um verdadeira catálogo de faixas pontuadas pela despedida recente e os desencontros de seus membros, solução que ultrapassa os limites dos versos e sustenta com leveza os arranjos do álbum.
Mais conhecida pela relação com o Blues, a banda utilizou do registro como uma prova de novas experiências, mergulhando em arranjos típicos do Folk e do cancioneiro norte-americano. O resultado está em uma obra ampla, mas ainda assim compacta, coerente se observarmos a relação de faixas como Go Your Own Way, Dreams e Don't Stop, algumas das mais tristes (e honestas) já compostas pelo grupo.

Los Hermanos: "Bloco do Eu Sozinho" (2001, Abril)
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Esqueça o louvor cego dos fãs e se concentre apenas nas canções. Verdadeira colcha de retalhos sentimentais, Bloco do Eu Sozinho, segundo álbum de estúdio do grupo carioca Los Hermanos, é mais do que uma obra transformadora dentro da discografia do quarteto, mas um verdadeiro cardápio de faixas tristes. Amores que não deram certo (A Flor), separação (Cher Antoine) e angústia (Sentimental), poucos registros nacionais assumem tamanha versatilidade em torno de um mesmo tema quanto este.
Enquanto Rodrigo Amarante concede certa dose de descompromisso ao álbum (vide Retrato Pra Iaiá), Marcelo Camelo resgata uma dezena de casos de amor fracassados - reais ou fictícios. Fingi na hora Rir, Tão Sozinho e Adeus Você são algumas das faixas que representam de forma assertiva esse resultado, falseando segurança, quando tudo que os versos revelam é o doce frescor da separação.

Beck: "Sea Change" (2002, Geffen)
Não existe melhor forma de exorcizar um amor fracassado do que gravar um disco inteiro sobre ele. Caso você não seja um músico, ouvir Sea Change (2002) do músico norte-americano Beck pode ajudar. Fruto de um relacionamento fracassado e a separação em torno dele, o disco é um objeto de reflexão do próprio músico, mas ainda assim serve como uma ferramenta de aproximação para o ouvinte.
Obra mais distinta do músico, até então, o álbum se acomoda em uma cama de arranjos densos, pianos, violinos e a voz serena de Beck, sempre inclinado a resgatar a melancolia de um passado recente. Lar de algumas das canções mais tristes da década passada, como Paper Tiger, Guess I'm Doing Fine e Lost Cause, Sea Change é uma obra que todo indivíduo sentimental deveria carregar em eu iPod.

Cat Power: "The Greatest" (2006, Matador)
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Você já sofreu por amor? Chan Marshall parece trilhar uma vida de sofrimento. Voz e grande responsável por todos os versos que acompanham a discografia do Cat Power, a cantora e compositora norte-americana fez do álbum The Greatest, em 2006, um inteligente capítulo de sua luta contra o álcool e a dor da separação.
Do momento em que tem início, passando por músicas como Lived in Bars e Where Is My Love, cada minuto ao lado da cantora arrasta o ouvinte para um terreno essencialmente depressivo. Não existe libertação, apenas faixas cada vez mais tristes, embriagadas e confessionais, como se Marshall utilizasse da angústia dissolvida pelas faixas como um exercício de sobrevivência. Antes de ouvir, respire fundo, bem fundo.

Caetano Veloso: "Cê" (2006, Universal)
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Misto de dor, amargura e reflexão, não apenas marca a transformação instrumental de Caetano Veloso – agora acompanhado pela famigerada Banda Cê -, como arrasta o veterano da música nacional para um cenário lírico totalmente renovado. Um ambiente em que dor, raiva e saudade traduzem o amor de forma particular.
Ainda que Caê já tivesse percorrido as vias do pós-relacionamento em outros registros lançados ao longo da década de 1970, o fim do casamento com Paula Lavigne, em 2004, trouxe feriadas profundas ao artista e, consequentemente, aos versos cantados por ele no decorrer da obra. “Eu já chorei muito por você/ Também já fiz você chorar” desaba o músico em Outro, faixa de abertura do disco e composição que orienta todo o clima do restante da obra.

Bon Iver: "For Emma, Forever Ago" (2008, Jagjaguwar)
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Aos 25 anos de idade, Justin Vernon não parecia viver sua melhor fase. Além de ter rompido com sua antiga banda, a DeYarmond Edison, o músico norte-americano levou um belo pé na bunda de sua namorada da época. Para completar, a descoberta de que estava com mononucleose levou o cantor a se isolar em uma cabana no interior dos Estados Unidos.
Distante da civilização e sufocado pelos próprios sentimentos, o artista deu vida ao doloroso For Emma, forever ago (2008), álbum de estreia do Bon Iver e uma das obras mais melancólicas do novo século. Difícil ouvir faixas como Skinny Love ou Flume e não se emocionar com os versos, arranjos e falsetes sorumbáticos assinados pelo músico.

Otto: "Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos" (2009, Independente)
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Nada melhor do que o fim de um longo relacionamento para abastecer criativamente a obra de um artista. Otto parece saber bem disso, afinal, grande parte de Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos (2009), obra-prima do músico pernambucano, se alimenta dos dramas e separação de sua ex-mulher, a atriz Alessandra Negrini.
"Quando eu saí da tua vida/ Bati a porta". Os versos instalados em O Leite, parceria com a cantora Céu, parecem servir de base para o restante do álbum, que fantasia com um futuro inexistente (6 Minutos), chora (Lágrimas Negras) e se desespera sem qualquer equilíbrio (Saudade). Um álbum para você ouvir tão logo o relacionamento tiver fim.

Adele: "21" (2011, XL)
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Um pote de sorvete, lágrimas escorrendo pelo rosto e Adele tocando ao fundo. Terminou um relacionamento há pouco? Pare tudo o que estiver fazendo e ouça 21, o segundo trabalho solo da britânica. Não aguenta mais ouvir Rolling In The Deep? Sem problema, pule a faixa e comece Rumor As It, afinal, a sequência de música apresentadas logo em sequência são as verdadeiras responsáveis pelo crescimento do álbum.
Os violinos e o piano em Turning Table, o dedilhado melancólico em Don't You Remember ou as batidas crescentes em Set Fire to the Rain, poucas artistas são capazes de reforçar tamanha honestidade (e dor) quanto Adele neste disco. Fruto de um relacionamento fracassado, 21 é a tentativa da cantora em extrair cada fração de tristeza do próprio corpo, proposta silenciada apenas em Someone like You, faixa de encerramento da obra.

Pélico: "Que isso fique entre nós" (2011, Independente)
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Um último beijo. Adeus. Do momento em que tem início, até o último verso, Que isso fique entre nós (2011), segundo álbum solo do paulistano Pélico acompanha o sofrimento típico de uma separação. Angústia, isolamento, vontade de ligar, sorrisos falsos. Retalhos de pequenos relacionamentos fracassados e que se completam na história (não linear) projetada pelo compositor.
Ambientado na mesma estética dos discos românticos da década de 1970/1980, o álbum resgata a essência de Odair José, Erasmo Carlos e outros veteranos da música nacional sem ecoar como um mero pastiche. Não éramos tão assim, Sete Minutos de Solidão e Ainda não é tempo de chorar são algumas das canções que representam todo o universo triste da obra, honesta e confessional até o último minuto. Ouça abraçado ao travesseiro.

The National: "Trouble Will Find Me" (2013, 4AD)
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A dor é a única constante dentro da trajetória da banda norte-americana The National. Desde o lançamento do primeiro álbum, em 2001, passando por discos como Sad Songs for Dirty Lovers (2003), Alligator (2005) e High Violet (2010), cada registro do grupo de Cincinnati, Ohio se sustenta nas emoções dolorosas dos próprios integrantes. Não diferente é o ambiente proposto em Trouble Will Find Me, de 2013.
Sexto trabalho da carreira do grupo, o disco é um misto de resumo dos primeiros álbuns, ao mesmo tempo em que revela um catálogo de novas criações. Demons, Sea of Love e I Need My Girl, manifestações de tudo o que há de mais doloroso no trabalho da banda - sempre representada pelos vocais em barítono de Matt Berninger. O típico caso de um disco que melhora a cada gole de whiskey ou garrafa de cerveja.

Lykke Li: "I Never Lern" (2014, LL)
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Ato final da série de três discos esculpidos pela dor, I Never Lern (2014) é uma obra que utiliza da tristeza como uma ferramenta natural para o fortalecimento das canções. Do momento em que tem início, com a própria faixa-título, passando por No Rest for the Wicked e Never Gonna Love Again, cada instante do álbum olha para o passado recente de Lykke Li com pesar.
Se em Wounded Rhymes, de 2011, a artista sueca exaltava que "a tristeza é uma benção", em I Never Lern este mesmo posicionamento decide os rumos da obra. Ora compacto e sereno, ora épico e dramático, o disco atravessa os pesadelos e confissões de qualquer pessoa apaixonada, resultando em uma obra tão particular, que em alguns momentos Li parece cantar sobre o próprio ouvinte.

Sharon Van Etten: "Are We There" (2014, Jagjaguwar)
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A carreira da cantora Sharon Van Etten sempre foi corrompida pela melancolia. Desde a estreia com Because I Was in Love, em 2009, passando por epic (2010) e Tramp (2012), cada registro lançado pela musicista norte-americana fez da dor um mecanismo criativo, aprimorando visivelmente no interior de Are We There (2014), mais recente e bem decidida obra da artista.
Inaugurado pela sensibilidade de Afraid of Nothing, o disco sobrepõem uma sequência de faixas consumidas pela dor e o álcool. Da busca por libertação em Your Love Is Killing Me, ao próprio descontrole em I Love You But I'm Lost, faixa, após faixa, Van Etten arrasta o ouvinte para um cenário obscuro, típico das noites de separação. É praticamente impossível atravessar o álbum e não se encontrar em algumas das composições.