NOTÍCIAS
03/06/2014 20:26 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:42 -02

Há limite para arte? Festa ‘satânica' em sede da UFF vira alvo de investigações e polêmica nas redes

Reprodução/Facebook

Era para ser apenas um evento do curso de Produção Cultural da Universidade Federal Fluminense (UFF). Mas a festa intitulada “Xereca Satânica”, ocorrida no último fim de semana no campus de Rio das Ostras, no Rio de Janeiro, virou alvo de investigações e gerou grande polêmica nas redes sociais. De um lado, há alegações de que o evento tratou-se de uma verdadeira orgia. De outro, o argumento é de que se tratou se uma apresentação cultural.

Nesta quarta-feira (4), alunos do curso vão realizar um debate para discutir a polêmica em torno do evento, informou o jornal O Globo. Toda a repercussão se deu em razão da performance do Coletivo Coiote, grupo de Minas Gerais conhecido por apresentações corporais. Até aí, nenhum problema, não fosse o fato de que integrantes teriam ficado nus, com direito a uma mulher ter tido a vagina costurada.

A repercussão – negativa para alguns – fez com que a reitoria da UFF formasse uma comissão para apurar denúncias de que teria ocorrido ainda uma suposta orgia sadomasoquista durante a apresentação. O comunicado, assinado pelo vice-reitor Sidney Luiz de Matos Mello, afirma que a instituição “não compactua com qualquer tipo atividade que, desvirtuando de sua essência institucional, extrapole os limites do razoável, atentando aos valores da liberdade e igualdade, ou ofendendo a dignidade da pessoa humana”.

Do outro lado, a “culpa” por toda a polêmica do evento teria recaído sobre o chefe do Departamento de Artes e Estudos Culturais da UFF, Daniel Caetano. No Facebook, ele se defendeu em um longo texto, no qual justificou que o coletivo mineiro é conhecido por apresentações capazes de “chocar a sensibilidade das pessoas e fazê-las pensar sobre seus próprios limites”.

“Infelizmente, há pessoas que acreditam que o mundo deve ser moldado à sua imagem e semelhança, sem permitir qualquer espécie de desvio do padrão ou mesmo qualquer espécie de afronta à sua sensibilidade confortável, conformista e preguiçosa. A costura de partes do corpo, inclusive da região genital, não é novidade para qualquer pessoa que tenha lido mais de um parágrafo sobre arte contemporânea posterior aos anos 1970 (...). A performance tinha como um dos objetivos denunciar a constante violência contra mulheres na cidade de Rio das Ostras, onde as ocorrências de estupros estão entre as maiores do país”, escreveu.

Seja uma apresentação meramente artística, seja um evento de atentado ao pudor, o caso teve tamanha repercussão que até mesmo a Polícia Federal entrou no caso, de acordo com o Terra. Segundo o site, representantes da UFF e responsáveis pela festa serão chamados para depor, além de outras investigações para esclarecer o que de fato aconteceu no “Xereca Satânica”. No mesmo Facebook, pelo menos três eventos estavam marcados como uma forma de apoiar a festa ocorrida em Rio das Ostras.

Para Daniel Caetano, qualquer criminalização da apresentação configuraria em censura e um ataque à liberdade de expressão. “Embora não tenham sido feitos "rituais satânicos" e o título do evento fosse essencialmente provocativo (ao contrário do que o jornalismo marrom afirmou), precisamos dizer que não haverá de nossa parte qualquer censura a atos do gênero”, completou.