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02/06/2014 10:07 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:42 -02

Com a Espanha em crise, rei segue tendência europeia de abdicar para dar espaço a gerações mais jovens

Pablo Cuadra via Getty Images

Tudo começou com um tweet do Palácio Real de Madri. Juan Carlos, rei da Espanha, estava abdicando do trono a favor do filho.

Entre os motivos apresentados para a renúncia, o principal deles é a mudança de comando para outra geração, no caso a de seu filho, o príncipe de Astúrias, para ajudar o país a sair da crise. “Uma nova geração reclama com justa causa o papel de protagonista. Meu filho encarna a estabilidade e tem a maturidade e a preparação necessárias”, disse Juan Carlos, no que parece ser uma tendência nas monarquias europeias.

Como disse o jornal The Guardian em um artigo nesta segunda-feira (02), “Foi a Casa de Orange-Nassau, na Holanda, que estabeleceu a tendência. A Casa de Windsor (Grã-Bretanha) continua a desafiá-la”. É que, em menos de 18 meses, dois reis e uma rainha abdicaram do trono a favor dos filhos.

A rainha Beatrix, da Holanda, foi a primeira, usando o 200° aniversário da monarquia holandesa em janeiro de 2013 para passar a coroa ao seu filho Willem-Alexander. Ela tinha 75 anos e o motivo apresentado foi “dar a vez aos mais jovens”. Poucos meses depois, foi a vez de Albert II, rei da Bélgica, que jogou a toalha real depois de uma série de escândalos e deu a vez a seu filho Philippe.

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Beatrix com seu filho Willem-Alexander

“A onda de abdicações atingiu até o lugar menos esperado, o Vaticano, quando o alemão Bento XVI, ou Joseph Ratzinger, fez algo inédito em muitos séculos. Ele renunciou ao papado católico quando ainda estava vivo”, escreve o Guardian. No entanto, a monarquia britânica parece inabalável por essa onda, com a rainha Elizabeth II completando seus 90 anos e aparentando pouca inclinação a deixar de lado seu reinado de 65 anos.

Juan Carlos também estava no poder havia muitos anos: 39. É um dos reinados mais longos da história espanhola. O monarca foi considerado um herói por ter liderado a transição de ditadura para democracia na Espanha, mas também teve que lidar com muitos escândalos durante a decadência financeira do país recentemente. Além disso, a saúde enfraquecida por uma série de problemas colaborou com a renúncia.

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Juan Carlos em seu primeiro discurso como rei, em 1975

A popularidade de Juan Carlos teve um grande baque em 2012, quando ele quebrou a bacia durante uma caça a elefantes em Botsuana durante um momento crítico da bancarrota espanhola. Além dos gastos fúteis com a viagem (e um retorno rápido à Espanha em um jatinho para iniciar um tratamento médico), Juan Carlos perdeu o cargo que mantinha desde 1968 de presidente honorário da WWF, World Wildlife Fund, por causa da caça a elefantes. Ele tomou a atitude inédita na monarquia espanhola de pedir desculpas por seus atos, mas não foi o bastante, pois logo mais ele estaria envolvido em mais um escândalo.

Seu genro, Inaki Urdangarin, foi investigado por caixa dois em contratos públicos. Sua filha Cristina foi obrigada a depor em janeiro deste ano na investigação de fraude e lavagem de dinheiro do marido, no que provou ter envolvimento com o caso. Não obstante, seu neto, Felipe Juan Froilán, de 13 anos, disparou contra seu próprio pé com uma arma proibida para menores de 14 anos.

“A grande e profunda crise econômica que sofremos deixou sérias cicatrizes no tecido social, mas também está nos mostrando um caminho para um futuro cheio de esperança. Tudo isso despertou em nós um impulso de renovação, de superação, de corrigir erros e abrir caminho a um futuro decididamente melhor. Hoje, merece passar à primeira linha uma geração mais jovem, com novas energias, decidida a empreender com determinação as transformações e reformas que a conjuntura atual está demandando e encarar com renovada intensidade e dedicação os desafios de amanhã”, disse Juan Carlos ao automaticamente passar o trono ao seu filho Felipe.

O próximo rei, que deverá ser chamado de Rei Felipe IV, tem um diploma em direito da Universidade Autônoma de Madri e um mestrado em relações internacionais pela Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos. Ele é casado com a princesa Letizia, ex-jornalista de televisão, com quem tem duas filhas. Como seu pai, Felipe viajou pelo mundo para manter a influência da Espanha, especialmente nas ex-colônias na América Latina, enquanto buscava ao mesmo tempo promover os interesses econômicos do país.

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Juan Carlos com o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez. Em uma conferência Ibero-americana em 2007, Juan Carlos disse a célebre frase "por que no te callas?" ao se irritar com Chávez.

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Felipe com sua mulher Letizia

(Com Associated Press)