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01/06/2014 18:14 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:42 -02

Economia: incertezas sobre 2015 instigam fortunas ao exterior

ruimc77/Flickr

As incertezas quanto à condução da economia no próximo governo têm deixado os detentores de grandes fortunas preocupados e elevado o interesse por estratégias de investimento no exterior. Essa busca, que alguns administradores e gestores de fortunas garantem ser uma alternativa de diversificação, está sendo canalizada basicamente para o mercado de ações norte-americano e o setor imobiliário. Gestores lembram que esse investidor que diversifica lá fora tem perfil mais agressivo e assimila a ideia de que parte de seu patrimônio possa estar em outra moeda.

Embora não existam números oficiais sobre os volumes que são direcionados ao exterior, especialistas afirmam que esse movimento foi mais intenso no ano passado, impulsionado pela deterioração econômica, depreciação do real frente ao dólar e pela consolidação das regras que permitem a aplicação de recursos no exterior por fundos constituídos localmente. Mas este ano, esta alternativa ganhou contorno político por conta dos desafios que o próximo presidente terá de enfrentar.

"Existe um receio no mercado sobre como será conduzida a política monetária e fiscal no próximo governo, independente de quem saia vitorioso do pleito", justifica o diretor de Private Banking do Itaú, Luiz Severiano. "Em todos os nossos cenários (para o resultado das eleições presidenciais) achamos que o próximo presidente tem desafios enormes, como combater a inflação alta diante a um reajuste esperado dos combustíveis e da energia de elétrica, por exemplo. Estamos frente à uma equação difícil, são dilemas que o próximo governo vai ter de endereçar e que causam insegurança", acrescenta ele.

Severiano lembra ainda de fatores adversos à administração local que afetam diretamente a preservação dos patrimônios, como a política monetária norte-americana, que altera os fluxos para mercados emergentes com consequências diretas no valor de suas respectivas moedas em relação ao dólar. "Em 2013, a quantidade de recursos investidos no exterior foi duas vezes maior do que o investido em 2012 e este ano, deve ficar parecido com 2013", afirma o executivo, sem citar os números. "O cliente é emocional e quanto maior é a valorização do dólar, maior é a procura por investimento lá fora", acrescenta. A área de private banking do Itaú tem mais de R$ 200 milhões sob sua administração e trabalha com investimentos a partir de R$ 3 milhões.

O sócio de uma butique de investimento acrescenta que a baixa credibilidade do atual governo prejudica as expectativas em relação à capacidade de defesa da economia em um próximo mandato do atual governo, que se mantém na liderança das pesquisas eleitorais. Para ele, esse é o principal motivo do interesse das grandes fortunas em investir no exterior. "A lição de casa não foi feita, enquanto a mensagem era de que estava sendo feita. Por isso, não deixa de passar pela cabeça do brasileiro que poderá haver deterioração maior da economia", diz. "O público de alta renda está buscando defender seu patrimônio, porque 2013 foi terrível para quem tinha renda fixa e na renda variável, o mercado foi uma tristeza. Foi um consumo de capital absurdo", acrescentou.

Facilidade

O responsável de Private Wealth Management do Goldman Sachs no Brasil, Fernando Vallada, diz que, embora haja cautela com o cenário macroecômico, não existe êxodo, tampouco histeria e a busca por investir no exterior está relacionada à diversificação e à facilidade criada com a instrução CVM 465, que permite a aplicação de recursos de fundos no exterior. Segundo Vallada, os investidores estão de fato cautelosos "com as assimetrias dentro do mercado financeiro" e, "de forma lógica" buscam proteger seu patrimônio capturando oportunidades em outros mercados. "Quanto maior o patrimônio, maior atenção se dá à diversificação", afirma.

O executivo explica que a oscilação do dólar em contrapartida ao alto rendimento oferecido pelo título público, com a Selic a 11%, deixa o custo de carregamento muito alto. "A não ser que haja um nível de desconforto muito grande, não faz sentido migrar o recurso para o exterior por um prazo curto. Não vejo nenhum tipo de fluxo desse tipo, vejo apenas em função de uma preocupação com diversificação", explica.

De acordo com Vallada, os detentores de grandes fortunas direcionam entre 15% a 20% de seus recursos para o exterior, por meio de fundos. A diversificação em ações é o que mais chama a atenção e tem criado oportunidades, diz o executivo do Goldman. Mas ele diz que a casa tem recomendado alguns setores dentro da bolsa norte-americana onde vê melhor oportunidade de retorno como tecnologia, pelo dinamismo, e financeiro, um segmento que ainda se recupera da crise de 2008. O Goldman Sachs administra recursos a partir de R$ 20 milhões e não informa quanto tem sob administração na área de Private Wealth.

Responsável pela gestão dos Fundos Restritos e Estruturados do Private Banking da CSHG, Sylvio Castro, concorda que há uma preocupação natural com o andamento da economia local, mas que os movimentos atuais nos portfolios estão relacionados à necessidade de diversificação. O executivo diz que mundialmente os detentores de grandes fortunas aplicam a maior parte de seus recursos no próprio país e que aqui não é diferente, mas que isso concentra excessivamente os riscos para estes investidores. Castro explica ainda que normalmente a maior parte do patrimônio é gerido com a ideia de preservar valor e que paralelamente são oferecidas ao investidor estratégias táticas, ou seja, com maior potencial de retorno.

"Taticamente, temos recomendado aos clientes capturar oportunidades relacionadas a uma possível queda do real frente ao dólar, na qual acreditamos, investindo lá fora", disse Castro. Ele considera que o investimento em bolsas internacionais atende a estratégia de preservação do patrimônio, que ele chama de estrutural, mas especificamente o mercado acionário europeu, japonês e de alguns países asiáticos que são compradores de commodities oferecem oportunidades do ponto de vista tático. A CSHG possui R$ 65 bilhões em recursos administrados em sua base local de clientes private, que possuem investimento mínimo de R$ 5 milhões na instituição.

O mercado imobiliário norte-americano é bastante procurado pelos detentores de fortunas, de acordo com o executivo da butique de investimento. Segundo ele, esse público conhece o mercado imobiliário brasileiro, considera que os ativos estão caros e não veem porque investir nos imóveis comerciais, devido à atual elevada vacância nesse segmento. "Nos Estados Unidos, em contrapartida, o setor imobiliário vive um momento de recuperação interessante. Em Miami, está em andamento um projeto de revitalização de US$ 10 bilhões a ser concluído em 2020, envolvendo vários empreendimentos imobiliários e de logística que tem atraído que já estão em uma segunda fase de seus investimentos lá fora", conclui o especialista.