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27/05/2014 09:43 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:35 -02

Sem "reinvenção da democracia", protestos devem continuar no Brasil, apontam especialistas

JF Diorio/Estadão Conteúdo

A tomada das ruas por movimentos sociais, iniciada em junho do ano passado, expõe a crise profunda do sistema representativo no Brasil. Para a diretora do instituto de pesquisa Latinobarómetro, Marta Lagos, surpreende que esse levante tenha demorado tanto a acontecer.

Segundo a especialista e os demais participantes do seminário E o povo foi às ruas... Repensando o papel dos partidos políticos, realizado na Câmara nesta segunda-feira (26), somente com a reinvenção do modelo sobre bases verdadeiramente democráticas será possível responder às demandas dos movimentos sociais.

De acordo com os participantes, parte dos problemas da crise democrática que levou a população às ruas decorre da ruptura entre partidos e demais instituições da democracia e a população. Uma das causas dessa separação seria a forma de financiamento das campanhas eleitorais.

Financiamento

Para a diretora do Movimento contra a Corrupção Eleitoral (MCCE), Jovita Rosa, faz-se necessário acabar com o financiamento de campanhas por empresas. “Empresário nenhum doa, faz investimento. Quando se observam os grandes contratos do governo, a maioria é com grandes doadores, a cada real que investe, recebe 20”, sustenta.

Para o professor Elimar Nascimento, do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (CDS/UnB), persiste na sociedade a ideia de que os políticos não merecem confiança, porque não representariam eleitores, mas apenas seus financiadores e interesses próprios.

A solução, para o professor, é simples – reduzir custos das campanhas e aproximar os partidos dos movimentos sociais. O fim das coligações e a consequente redução do número de candidatos também melhoraria a representação. “Como posso escolher, se tenho 900 candidatos na minha cidade. Se fossem 20, poderia conhecer melhor as ideias de cada um”, acredita Nascimento.

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Decepção

Nas pesquisas de mais 60 anos realizadas pelo Latinobarómetro, Marta Lagos afirma ser possível identificar a ruptura entre instituições democráticas e população. A principal razão, segundo ela, é a decepção dos latino-americanos com a democracia.

De acordo com a pesquisadora, quando a transição democrática ocorreu na América Latina, as pessoas foram apresentadas à ideia de democracia como sinônimo de liberdade. E essa liberdade significava acesso, inclusão, participação, pertencimento. “Esses elementos ainda não estão presentes; mais de 65% das pessoas não têm essa liberdade que achavam que a democracia traria”, disse Marta Lagos.

Ainda conforme Lagos, apesar do progresso econômico, a política e a cultura da região não evoluíram. “Tiramos 100 milhões de pessoas da pobreza, mas isso não vai resolver os problemas da região, precisamos discutir poder, esse é o elemento principal.”

Marta Lagos relatou também que apenas 8% da população da América Latina diz ter democracia plena; a maioria acredita que a democracia não traz o prometido. “Por que não há mais pessoas nas ruas? Por que só essas? Deveriam estar na rua há muito tempo, a população foi muito paciente”, declarou a pesquisadora.

Ruptura

Já o ativista cultural do Movimento Fora do Eixo, Pablo Capilé, vê razões bem concretas para a erupção dos movimentos de junho – a ruptura do governo do PT com movimentos sociais. Segundo o ativista, no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, políticas como os pontos de cultura possibilitaram a emergência de novas formas de ativismo social. “Esse movimento é resultado de novos repertórios que a cultura digital proporciona e de lideranças que emergiam da cultura.”

No entanto, após o caso mensalão, segundo Capilé, o governo sofreu uma crise de legitimidade e teve de atrair novos partidos para a coalizão governista para garantir a continuidade. Com isso, houve um progressivo afastamento das demandas sociais, que culminaram nos protestos. “Em 2010, houve uma ruptura mais clara e visível, pautas caras aos movimentos foram abandonadas, como comunicação, meio ambiente, cultura, juventude”, explica.

Para Pablo Capilé, os partidos terão de reinventar completamente a forma de fazer política – se tornarem mais abertos e democráticos e debaterem abertamente os temas que interessam mais diretamente à juventude. “Se não desmilitarizar essa polícia assassina, não debater as drogas, der mais poder ao protagonismo feminino, não vão conseguir dialogar com essa geração”, sustenta.

O seminário foi organizado pelo PDT.