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23/05/2014 20:39 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:35 -02

Papa na Terra Santa: Francisco caminhará sobre campo minado em viagem a Jordânia, Palestina e Israel

REUTERS/Mussa Qawasma

Quando desembarcar em Amã, capital da Jordânia, neste sábado (24) para uma visita-relâmpago de três dias pela Terra Santa, o papa Francisco terá de lidar com diversos temas e situações extremamente complexas e de alto teor explosivo como o impacto da guerra civil na Síria nos países vizinhos, a paralisia do processo de paz israelo-palestino, tensões inter-religiosas e crimes de ódio.

Segundo reportagem publicada pelo jornal israelense Haaretz, o papa e sua comitiva farão sua peregrinação à Terra Santa “como se estivessem atravessando um campo minado e buscarão chegar ao final o mais rapidamente e com o mínimo de baixas possível.”

Segundo o Vaticano, a visita de Francisco à Terra Santa será “muito breve e muito intensa”, como a viagem do papa Paulo 6º à região em 1964, que também durou apenas três dias. João Paulo 2º fez uma viagem de cinco dias à região em 2000 e, em 2009, Bento 16 dedicou oito dias à região considerada sagrada por três das principais religiões monoteístas do mundo: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.

De acordo com o site Vatican Insider, o patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu, líder da Igreja Ortodoxa, foi o primeiro a convidar Francisco a visitar a Jordânia, a Palestina (especificamente a Cisjordânia, território palestino ocupado por Israel) e Jerusalém (capital israelense, também reivindicada como capital de um eventual futuro Estado palestino).

Oficialmente o objetivo da viagem é, portanto, comemorar os 50 anos do histórico encontro entre Paulo 6º e o patriarca Atenágoras de Constantinopla, que colocou um fim a quase mil anos de cisma entre as igrejas Católica e Ortodoxa, respectivamente sediadas em Roma e Constantinopla (atual Istambul), e deu início a uma ainda incompleta aproximação entre as diversas tradições do cristianismo na Terra Santa.

Francisco e Bartolomeu rezarão juntos na Igreja do Santo Sepulcro, local da ressurreição de Cristo e onde fica seu túmulo vazio, no coração da Cidade Velha de Jerusalém, no início da noite de domingo (25), e jantarão com outras lideranças cristãs ortodoxas em seguida. Veja na galeria de fotos abaixo o roteiro completo da viagem do papa.

Segundo o Haaretz, o presidente de Israel, Shimon Peres, cujo mandato está prestes a terminar, também convidou o papa Francisco a visitar Israel assim que ele foi eleito pontífice, no primeiro semestre de 2013.

O jornal salienta que nenhum papa pode deixar de visitar a Terra Santa e que Francisco teria de fazer isso logo no início de seu pontificado, com a popularidade em alta e sem ter sofrido ainda qualquer desgaste. Mas, de acordo com o Haaretz, “o Vaticano fez o que pôde para reduzir as expectativas, cortando o tempo de duração da viagem ao mínimo aceitável para uma visita de Estado, incluindo apenas os encontros com líderes políticos e religiosos essenciais, um tour pelos principais locais do cristianismo, judaísmo e islamismo e… só”.

“Ele não está chegando com promessas de trazer paz para a região, o que é provavelmente uma boa ideia (no atual momento)”, disse o jornal israelense. Veja agora quais são as cinco pedras no caminho do papa Francisco na Terra Santa.

1. Encontro com refugiados sírios, iraquianos e palestinos na Jordânia: “Deus realmente existe?"

A diretora-geral do FMI, Christine Lagarde, visita campo de refugiados sírios na Jordânia (Associated Press)

Embora seja um país pequeno e pobre em comparação com os vizinhos ricos em petróleo, a Jordânia tem recebido grande quantidade de refugiados das guerras no Oriente Médio nas últimas décadas. Cerca de 2 milhões de palestinos, muitos em situação precária, vivem há anos ou décadas no país, o equivalente a quase um terço da população. O país também recebeu grande quantidade de refugiados das guerras no Iraque e na Síria. Estima-se que haja atualmente 1,35 milhão de sírios refugiados na Jordânia. Boa parte deles é cristã e teme ser perseguida por muçulmanos radicais. Outros sofreram tanto que chegam a duvidar de sua fé: “Muitos dos cristãos sírios que ajudamos nos perguntam ‘Deus realmente existe?’. Essa pergunta demonstra o quão desesperados estão”, disse Wale Suleiman, diretor da ONG Caritas Jordan ao Vatican Insider.

2. A mão-de-ferro da ocupação israelense na Cisjordânia

Fotos aéreas de assentamento judaico (no centro) e muro israelense (à esquerda e à direita) perto de Belém, na Cisjordânia (Reprodução)

Francisco viajará de Amã para Belém, onde Jesus nasceu, de helicóptero e, provavelmente, não terá de passar pelos inúmeros postos de controle do Exército israelense na Cisjordânia ocupada. Mas, mesmo do ar, ele certamente verá a enorme muralha que Israel construiu nos territórios palestinos ocupados sob a justificativa de proteger o território israelense de ataques terroristas. A muralha, de até 8 metros de altura, serpenteia próximo à fronteira entre a Cisjordânia e Israel, isola cidades palestinas, como Qalqilya e Belém, e protege assentamentos judaicos construídos em pleno território palestino, um dos principais obstáculos a um acordo de paz na região.

3. Com que líderes palestinos Francisco se encontrará em Belém? O Hamas estará presente?

Grupos rivais palestinos anunciam acordo para formar governo de união nacional (Associated Press)

Em 23 de abril, líderes do Hamas, grupo palestino radical que controla a Faixa de Gaza, e do Fatah, partido ao qual pertencia o ex-presidente palestino Iasser Arafat e que controla a Autoridade Palestina e governa a Cisjordânia, assinaram um acordo para formar um governo de união nacional palestino. O Hamas não aceita a existência de Israel e é responsável por diversos atentados terroristas contra civis israelenses. Já a Autoridade Palestina tem uma posição mais moderada de negociar a paz com Israel, embora o processo esteja paralisado por responsabilidade de ambas as partes. Uma fotografia do papa cumprimentando um líder do Hamas teria efeitos explosivos junto aos líderes políticos e à população de Israel.

4. A crescente radicalização de grupos extremistas judaicos

Mensagem anticristã pixada em igreja em Jerusalém (Reprodução)

Em 2013, grupos extremistas judaicos, alguns deles baseados em assentamentos judaicos, realizaram 399 ataques contra alvos árabes muçulmanos ou cristãos em Israel. “Ataques contra cristãos estão envenenando o espírito da visita do papa”, afirmou o patriarca Latino de Jerusalém, Fouad Twal. Segundo o Haaretz, a polícia israelense e o Shin-Bet, serviço secreto estão de prontidão para impedir atentados durante a visita do papa a Jerusalém.

5. A dificuldade da população cristã de chegar perto do papa

Foto do bairro cristão de Jerusalém, onde fica a Igreja do Santo Sepulcro, que será visitada pelo papa (Reprodução)

Durante sua viagem, o papa rezará duas missas para um público mais amplo, uma em Amã e outra em Belém, para 10 mil pessoas. Os convites foram muito disputados, e cristãos da Faixa de Gaza ou de outras regiões da Cisjordânia enfrentarão dificuldades para chegar a Belém. As autoridades israelenses negaram passes a famílias inteiras e pessoas com idade entre 16 e 35 anos foram barradas. Em Israel, não haverá nenhuma missa em local público, o que desagradou especialmente os cristãos da Galileia. A Cidade Velha de Jerusalém estará sob toque de recolher na segunda-feira, por razões de segurança. “O papa Francisco entrará em uma cidade fantasma e não haverá uma única criança, doente ou idoso para cumprimentá-lo”, escreveu o padre Abuna Mario Cornioli em seu blog.

É claro que Francisco pode surpreender com sua simplicidade, humanidade e flexibilidade e terá de exercer essas qualidades ao máximo durante sua visita à Terra Santa nos próximos dias. Será, sem dúvida, uma prova de fogo para seu ainda iniciante papado. O mundo todo estará olhando. Nós também.