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16/05/2014 19:48 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:35 -02

Epidemia da dengue: política de "enxugar gelo" assusta o Brasil às vésperas da Copa do Mundo

AP/USDA

Com mais de 215 mil casos registrados até o mês de abril em todo o Brasil, a dengue voltou a preocupar a população, mais precisamente nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. Só essas duas áreas do País concentram 74% do total de ocorrência (215.169), segundo dados do Ministério da Saúde. A situação é inferior à registrada em 2013, mas preocupa, sobretudo pela aproximação da Copa do Mundo, que começa no próximo mês.

A recorrência do problema, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), tem como carro-chefe a falta de continuidade das políticas públicas no combate ao principal vetor da doença, a fêmea do mosquito Aedes aegypti. De acordo com o secretário de Vigilância do Ministério da Saúde, Jarbas Barbosa, a forte transmissão da dengue no Brasil nesta mais recente epidemia teve início a partir do final de 2012, após as eleições – o que explica os mais de 921 mil casos registrados no ano passado. Barbosa admite que a falta de ações de combate ao mosquito em alguns municípios, além da circulação de um novo subtipo do vírus - o DENV 4 – contribuíram para o cenário atual.

“Não podemos relaxar no combate ao mosquito. A prevenção precisa ser mantida durante todo o ano”, completou Barbosa. Especialistas ouvidos pelo Brasil Post alegaram não terem dados concretos para sugerir, pelo menos oficialmente, outras possíveis causas que expliquem a atual epidemia de dengue, ainda mais em um ano de forte estiagem em Estados como São Paulo – que já registrou mais de 54 mil casos, conforme dados divulgados pela Secretaria Estadual de Saúde (com outros 50 mil sob investigação).

Dentre os municípios paulistas, a pior condição se dá em Campinas, onde 22 mil casos já foram confirmados pelas autoridades locais, com uma morte tendo sido registrada até o momento, de uma mulher de 69 anos. A cidade do interior paulista vem batendo recordes desde o início do ano e, diante do alto número de doentes, deixou de realizar os exames de sorologia, passando a tratar imediatamente todos os pacientes com os principais sintomas da dengue – febre, dor de cabeça, dores nas articulações e no fundo dos olhos. Já a capital já conta com quatro mortes, todas ocorridas em abril, e mais de 5 mil casos, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde.

De janeiro até o início de maio, o número é quase o triplo do registrado no mesmo período de 2013, e atinge um patamar similar ao registrado em 2010, último ano com alto registro da doença na capital paulista. Os bairros do Jaguaré, da Lapa e do Rio Pequeno lideram os registros, com uma incidência considerada acima do normal, ou seja, quando são registrados mais de 100 casos por 100 mil habitantes. Na cidade como um todo, a taxa de incidência de 45,3 está na faixa considerada de baixa incidência, segundo normativa adotada pelo Ministério da Saúde.

Sintomas

A presença de dois sinais, combinada com febre alta, é indicação para procurar o serviço médico, principalmente, quem está chegando de viagem de região contaminada. Os sintomas da Dengue Clássica como é chamada, acrescida de dor abdominal contínua, suor intenso e queda de pressão caracterizam a Dengue Hemorrágica.

- Febre alta (acima de 38°C)

- Fraqueza e prostração ou fraqueza

- Dor no corpo e nas juntas

- Dor de cabeça

Já os números do governo federal são divergentes. O Ministério da Saúde informou na segunda quinzena de abril que as cidades com maior número de casos eram Goiânia (GO), 7.878; São Paulo (SP), 7.550; Campinas (SP), 6.611; Luziânia (GO), 5.504; Belo Horizonte (MG), 4.849; Maringá (PR), 4.838; Brasília (DF), 4.532; Aparecida de Goiânia (GO), 3.454; Americana (SP), 3.430 e Taubaté (SP), 2.821. O ministro da Saúde, Arthur Chioro, ainda enfatizou o trabalho que está sendo realizado em conjunto com Estados e municípios, que receberam R$ 363,4 milhões em repasses para o combate à doença.

Ônus da epidemia é dividido entre governos e população

O mosquito Aedes aegypti demanda locais com acúmulo de água para se desenvolver, o que torna abrangente os espaços nos quais a fêmea do inseto pode depositar os ovos, que darão origem às larvas e aos mosquitos adultos. Para se alastrar, porém, o vírus da dengue precisa que existam pessoas com a doença em uma determinada área, para que elas, ao serem picadas pelo mosquito, façam dele um portador do vírus que será levado a outras pessoas.

A facilidade de reprodução do mosquito é o que faz quase 50% da população mundial – estimada em 2,5 bilhões de pessoas – viverem sob o risco de adquirir a doença, conforme informe divulgado no mês passado pela OMS. “Nós, como planeta, estamos de certa forma mais vulneráveis do que nunca. Isso significa que, como planeta, temos que colaborar mais efetivamente para descobrir novas doenças, surtos e ameaças quando elas surgirem prontamente, e responder a elas efetivamente”, completou o diretor do Centro de Controle de Doenças e Prevenção, Tom Frieden.

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Entretanto, engana-se quem pensa que o trabalho de prevenção e combate ao mosquito e à dengue se restringe aos governantes. Segundo Jarbas Barbosa, é importante que a população continue verificando o adequado armazenamento de água, o acondicionamento do lixo e a eliminação de todos os recipientes sem uso que possam acumular água e virar criadouros do mosquito. A sociedade civil também deve cobrar o mesmo cuidado nos municípios, responsáveis pelos ambientes públicos e por serviços básicos, como o recolhimento regular de lixo nas vias, a limpeza de terrenos baldios, praças, cemitérios e borracharias.

Atualmente, as medidas de controle adotadas para o combate à dengue vão de encontro justamente ao que poderia evitar a doença – e os posteriores gastos públicos –, com aumento de agentes de saúde e nebulizações nas áreas mais críticas das cidades do País com maior número de casos. É aqui que entra o velho ditado popular que põe o Brasil como um eterno “enxugador de gelo”, correndo atrás do prejuízo apenas depois do problema estar posto, ao invés de uma política consistente e constante de prevenção.

Como prevenir

- Pratos de vasos de plantas devem ser preenchidos com areia;

- Tampinhas, latinhas e embalagens plásticas devem ser jogadas no lixo e as recicláveis guardadas fora da chuva;

- Latas, baldes, potes e outros frascos devem ser guardados com a boca para baixo;

- Caixas d’água devem ser mantidas fechadas com tampas íntegras sem rachaduras ou cobertas com tela tipo mosquiteiro;

- Piscinas devem ser tratadas com cloro ou cobertas;

- Pneus devem ser furados ou guardados em locais cobertos;

- Lonas, aquários, bacias, brinquedos devem ficar longe da chuva;

- Entulhos ou sobras de obras devem ser cobertos, destinados ao lixo;

- Cuidados especiais para as plantas que acumulam água, como bromélias e espadas de São Jorge; ponha água só na terra.

“Tem que haver ação na ponta. A articulação entre os entes federal, estaduais e municipais é muito importante”, analisou a pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Tânia Araújo Jorge. “Todos possuem um papel [no combate à dengue]”, complementou a diretora da Organização Pan-americana da NOS, Carissa Etienne.

Copa do Mundo e vacina em teste no Brasil

A vinda de 3,7 milhões de turistas – segundo dados do Ministério do Turismo – para a Copa do Mundo, que começa em junho em 12 cidades do Brasil, coloca a dengue como um problema também para outros países. Uma vez picada por um mosquito infectado, o estrangeiro pode, eventualmente, levar e desenvolver os sintomas apenas no seu país de origem. A existência de um segundo vetor na Ásia, na América do Norte e na Europa – o mosquito Aedes albopictus – fez com que especialistas respeitados no exterior já tenham se posicionado sobre o tema.

“A febre da dengue pode ser um problema significativo em algumas cidades da Copa, e medidas preventivas são necessárias. A Fifa, as autoridades do Brasil e os patrocinadores do Mundial devem usar a sua influência para comunicar o risco”, disse o professor de epidemiologia da universidade inglesa de Oxford, Simon Hay, em declarações reproduzidas pelo jornal The Telegraph. Ao jornal The Independent, Hay disse acreditar que é preciso que o Brasil informe aos estrangeiros o que eles vão encontrar – incluindo a dengue.

Em meio às críticas, as autoridades brasileiras esperam, a médio e longo prazo, dar uma resposta definitiva à dengue em todo o mundo. A razão é a autorização dada ao Instituto Butantan, em São Paulo, para teste em seres humanos de uma vacina contra a doença. O Ministério da Saúde está investindo R$ 200 milhões na pesquisa, que deve durar pelo menos até 2018.

Até lá e sem uma vacina garantida, o combate a dengue segue demandando uma única medida: a prevenção.

Outros detalhes da dengue

- A dengue é transmitida pela picada de um mosquito infectado por um dos quatro tipos de vírus da doença. É uma moléstia cujos sintomas aparecem de três a 14 dias após a picada do mosquito. Ela não é transmitida diretamente de uma pessoa para a outra. Como não há vacina para a dengue, pessoas com a doença devem descansar, beber muito líquido e reduzir o uso de analgésicos – que podem mascarar os sintomas –, além de procurar um médico. O diagnóstico precoce da dengue diminui a chance de morte para nível abaixo de 1%, de acordo com a OMS.

- A doença tem maior incidência na América do Sul e na Ásia, em regiões com climas tropicais e subtropicais, mais precisamente em áreas urbanas e semiurbanas. Ao contrário de outros mosquitos, o Aedes aegypti costuma se alimentar durante o dia, com picos ocorrendo no início da manhã e no fim da tarde, sendo que a fêmea pica várias pessoas durante cada período de alimentação.

(Com Estadão Conteúdo e Agência Brasil)