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14/05/2014 09:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:35 -02

Crise da água em SP: captação do volume morto começa hoje em meio a dúvidas sobre qualidade da água

Luis Moura/Estadão Conteúdo

Como prometida, a captação de água do chamado “volume morto” no Sistema Cantareira começa nesta quarta-feira (14). Ao custo de R$ 80 milhões, segundo dados da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), 17 bombas foram fabricadas para buscar a água na “reserva estratégica” – uma estratégia do governo estadual semelhante a trocar “racionamento” por “rodízio”. E a qualidade dessa água? E até quando ela vai durar? Bom, aqui temos um verdadeiro “ninguém sabe”. Ou quase isso.

Antes de qualquer coisa, é bom recapitular o que o Brasil Post já trouxe há quase dois meses: volume morto é a parcela do volume total que fica inativa, no fundo da represa, o que significa que não é utilizada para fins de captação de água. Essa faixa dos reservatórios costuma acumular sedimentos diversos ao longo de muitos anos. No caso do Cantareira, o volume morto nunca foi utilizado por não haver necessidade e, principalmente, por não existir até este ano uma obra que proporcionasse a captação dessa água.

Dito isso, o volume morto que passará a abastecer grande parte dos imóveis da Grande São Paulo será captado em três das seis represas que compõem o Sistema Cantareira, vindo da de Atibainha, localizada em Nazaré Paulista, e Jaguari/Jacareí, que fica em Bragança Paulista. Da parte do governo de São Paulo, a qualidade será garantida. A Sabesp informa que a água do volume morto “é de qualidade e será tratada dentro dos padrões de qualidade exigidos pelo Ministério da Saúde e seguidos pela companhia”.

O governador Geraldo Alckmin, como de praxe, reforçou o discurso de que a situação está sob controle, baseando o seu discurso nos estudos feitos pelos técnicos da Sabesp e da Secretaria Estadual de Saneamento e Recursos Hídricos. “Nós só pretendemos utilizar, dos 400 milhões de metros cúbicos de água, 182 milhões. E os estudos mostram que se não tiver nenhum fato superveniente, analisando a mínimo histórico de vazão, com isso, nós chegamos à próxima estação das chuvas, cobre todo o final do outono e o inverno”.

Na semana passada, o secretário Mauro Arce havia garantido que o volume morto seria suficiente para abastecer a Grande São Paulo até março de 2015, sem a necessidade de racionamento de água generalizado.

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Tudo claro? Nem um pouco

Aí vem o problema. Os dados do governo Alckmin não batem com os divulgados na última segunda-feira (12) pela Agência Nacional de Águas (ANA) e pelo Departamento de Água e Energia Elétrica de São Paulo (DAEE). Segundo os dois órgãos, os recursos hídricos disponíveis no conjunto de mananciais não serão suficientes para garantir o abastecimento da Grande São Paulo e das demais cidades do interior de São Paulo até o final deste ano. Pior: o comitê do PCJ, que divide a exploração do Cantareira com a Sabesp, afirma que já durante o pico do período de estiagem, nos meses de agosto e setembro, faltará água em algumas das regiões atendidas pelo sistema.

Mesmo com a captação do volume morto, informa a ANA, haverá um déficit de 10 metros cúbicos por segundo para garantir o abastecimento para todas as regiões. Levando em conta o fato que a agência já alertava em 2004, quando foi realizada a última outorga do Sistema Cantareira, de que era preciso que a Sabesp providenciasse “estudos e projetos que viabilizassem a redução da dependência da concessionária em relação ao sistema” – o que não foi feito a contento, já que não acompanhou o crescimento da demanda –, fica difícil duvidar dos dados apresentados, ante os estudos do governo paulista como aquele que apontou que uma crise de estiagem tão crítica quanto à registrada neste ano no sistema, em pleno período chuvoso, só ocorre a cada 3.378 anos. Isto baseado em estatísticas históricas.

Enquanto os números divulgados entre os mais diversos órgãos que acompanham atentamente a crise da água em São Paulo não batem, o nível do Sistema Cantareira segue caindo em ritmo veloz, tendo atingido a marca de 8,4% nesta quarta-feira (13). Caso o ritmo de queda continue igual à média dos últimos 30 dias, o volume útil – que anterior ao volume morto – do Cantareira se esgotará em 78 dias, em 30 de julho.

Mais alguns temores no horizonte

Não são poucas as incertezas em torno do uso do volume morto e o tamanho de sua eficácia diante do temor de que a água para o abastecimento da população acabe em São Paulo. O que se espera é que alguns apontamentos feitos nas últimas semanas por especialistas – de que até doenças podem surgir pelo consumo da água advinda do volume morto – não se confirmem. Nada garantido, contudo, conforme frisou em março o superintendente de Regulação da Agência Nacional de Águas (ANA), Rodrigo Flecha, em audiência pública na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados.

“Nunca ninguém investigou o volume morto do Sistema Cantareira. É algo desconhecido, porque nunca se chegou a essa situação. Não se sabe o que está depositado ali. Tem que ser avaliado porque é uma área com sedimentação, via metal pesado, que vai se depositando ao longo dos anos. Não se poderá bombear a água a partir de um determinado ponto que possa revolver o sedimento que está ali”, afirmou Flecha.

Chuvas intensas para resolver o problema são esperadas apenas para o segundo semestre, após o inverno. Até lá, que água chegará às torneiras da população da Grande São Paulo? “Ninguém sabe”.

(Com Estadão Conteúdo)