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12/05/2014 15:29 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:29 -02

Manifesto dos turistas sustentáveis

Franco Hoffchneider/ViajeAqui

A equipe da Garupa esteve em Bonito na semana passada para a 8a edição da Conferência de Ecoturismo e Turismo Sustentável (ESTC14), que juntou as maiores cabeças e instituições ligadas a este segmento no mundo.

Dos painéis e palestras do evento – uma delas com o jornalista de viagem do New York Times, Seth Kugel, que entrevistamos aqui para o blog neste post – um dos momentos mais importantes foi o manifesto divulgado pela ABETA – Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura , a Fundação SOS Mata Atlântica (na figura do querido Mario Mantovani), o Instituto Semeia e a WWF Brasil.

A Garupa entrou na campanha proposta pelo manifesto, que reivindica a valorização das Unidades de Conservação do Brasil pelo turismo sustentável: ou seja, defende que especialmente os Parques Nacionais brasileiros sejam cada vez mais visitados como estratégia para promover ao mesmo tempo conservação ambiental e geração de emprego e renda nos destinos onde ficam.

A carta traz alguns dados fortes: nos últimos 30 anos, o Brasil perdeu uma Costa Rica inteira (5,2 milhões de hectares) em proteção total ou parcial de territórios naturais. E essa realidade triste fica mais invisível à sociedade se nós temos pouca chance de passar as nossas férias nestes patrimônios naturais e, portanto, compreender o seu valor.

Hoje o número de visitantes em áreas protegidas no Brasil gira em torno de 6 milhões ao ano – muito pouco, se pensarmos nos cerca de 280 milhões ao ano dos parques dos EUA. É mais fácil pra gente no Brasil às vezes lembrar do parque americano do Zé Colmeia (Yellowstone) e de seus gêiseres do que das pinturas rupestres sensacionais da Serra da Capivara, no parque nacional aqui do Piauí.

Há ainda toda uma discussão sobre como anda a infraestrutura dessas áreas: das 313 Unidades de Conservação brasileiras, os signatários da carta consideram que pelo menos 70 têm potencial para ser visitadas – mas dados oficiais dão conta de que apenas 26 estão abertas, e só 18 têm alguma estrutura para visitantes (ainda assim estes dados estão sendo questionados; o quadro pode ser pior).

Que a gente possa visitar cada vez mais e melhor os nossos parques, viver suas paisagens e experiências culturais e melhorar a vida das comunidades que ali estão é uma bandeira caríssima para a Garupa e para todo mundo que quer viajar com mais qualidade, responsabilidade e significado.

Para quem quiser se inteirar do debate, dar sua contribuição aqui na caixa de comentários – e enviá-las também ao e-mail sosparques@sosma.org.br, endereço para consolidação dessa construção coletiva – segue abaixo o draft do manifesto.

Manifesto pela valorização das Unidades de Conservação do Brasil pelo turismo sustentável

As organizações da sociedade civil alertam para a desvalorização dos parques brasileiros, que podem ser muito melhor explorados do ponto de vista turístico, promovendo a conservação aliada à geração de emprego e renda.

Estudo recente na publicação científica Conservation Biology indica que, nas últimas três décadas, 93 parques nacionais e outras Unidades de Conservação no Brasil tiveram suas fronteiras reduzidas ou seus status alterados. Retirou-se ou se reduziu a proteção de um total de 5,2 milhões de hectares de florestas nativas, que antes eram preservados em parques, reservas e estações ecológicas. Isso equivale ao território do Rio Grande do Norte e é superior ao da Costa Rica.

Unidades de Conservação na Amazônia foram as que mais sofreram, principalmente entre 2008 e 2012. Os principais motivos foram o avanço desregrado da geração e transmissão de energia hidrelétrica, do agronegócio e da urbanização.

Além das perdas já concretizadas, o Brasil convive com novas e constantes ameaças – um caso emblemático é o do Parque Nacional do Iguaçu, onde fica uma das sete maravilhas naturais do mundo: as Cataratas. Existe um projeto para construir uma estrada que cortará o parque, causando prejuízos aos animais e impactando a paisagem.

O Brasil ficou em 1º lugar no ranking do Fórum Econômico Mundial no quesito Belezas Cênicas, entretanto, vem perdendo posições no ranking mundial de competitividade de turismo.

Atualmente, dos quase 70 parques nacionais existentes no país, apenas 26 estão abertos à visitação e só 18 possuem infraestrutura satisfatória. Em 2012, esses parques tiveram 5,3 milhões de visitantes e arrecadaram menos de R$ 27 milhões com a venda de ingressos, sendo que pouco mais de 3 milhões de visitantes ocorrem somente nos Parques Nacionais da Tijuca e Iguaçu.

Os parques nacionais dos Estados Unidos, em 2008, receberam 275 milhões de visitas e geraram US$ 11,5 bilhões nas suas áreas de influência. Os cinco maiores parques da África do Sul recebem ao ano 4,3 milhões de turistas. Lá, 75% do sistema de parques nacionais é mantido pelos recursos advindos da visitação (incluindo concessões). Na Austrália, em 2007, turistas que visitaram parques nacionais foram responsáveis pela injeção de R$ 30 bilhões na economia do país. E, na Nova Zelândia, o turismo representa cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) e 15% dos empregos da costa oeste. O turismo promovido no Parque Nacional de Fiordland, ao sul daquele país, promove a geração de mais de 50% dos empregos do território, assim como o Parque Nacional de Banff, no Canadá.

O estudo Contribuição das Unidades de Conservação Brasileiras para a Economia Nacional aponta que a visitação nos parques existentes no país tem potencial para gerar até R$ 1,8 bilhão por ano, considerando as estimativas de fluxo de turistas projetadas – cerca de 13,7 milhões de pessoas, entre brasileiros e estrangeiros – até 2016, ano das Olimpíadas. O material foi desenvolvido pelo Centro de Monitoramento da Conservação Mundial do Programa das Nações Unidas pelo Meio Ambiente e pelo Ministério do Meio Ambiente em 2011.

O Brasil precisa aproveitar essa oportunidade e reconhecer as Unidades de Conservação como o maior ativo deste país, conciliando desenvolvimento com a conservação dos recursos naturais. Ao valorizar e investir em seus patrimônios naturais, também se fortalecerá como destino turístico. Infelizmente, hoje nem os brasileiros nem os turistas estrangeiros podem usufruir adequadamente dessas riquezas. E, se o governo não agir para alterar a realidade atual, sobrarão poucas áreas protegidas para serem apreciadas no futuro.