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03/05/2014 14:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:29 -02

O outono na ecovila

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Hoje é dia de acender o fogão a lenha e aceitar que o frio chegou mais uma vez. Na última semana, o anúncio do outono veio com força, quase repentinamente. Eu estava no jardim quando senti que o ar havia mudado de cheiro e temperatura. Para quem mora no mato, é uma mudança grande, que envolve uma preparação física e emocional para atravessar os próximos meses.

Foi preciso tirar casacos do armário, usar gorro para caminhar à tarde (o vento estava gelado!) e tirar as meias mais grossas do fundo da gaveta. Aqui na ecovila, as mudanças de tempo costumam ser intensas, quase agudas. Quando é quente, é muito quente. No frio, muito frio. Vento, então, corra! Chuva… Bom, a chuva não tem dado muito as caras por aqui, como sabemos bem.

Essa intensidade é parte de um longo aprendizado que temos pela frente: o desafio de mantermos uma conexão real com a natureza, sem perder seus ciclos, seus ritmos, suas mudanças naturais. E faz parte da lição aprender a aceitá-los e até agradecê-los.

No fim de semana, separei parte do kit inverno para usar: cobertores, mantas, luvas, cachecóis. Fiz planos para instalar mais cortinas e tapetes pela casa. Ah, e será preciso reservar tempo e energia para tapar frestas nas janelas, portas e painéis de vidro (que teimam em deixar o vento frio entrar por buraquinhos minúsculos), e ter mais cuidado na hora de abrir a casa, para não deixar o calor ir todo embora.

Com paredes de terra crua e telhado verde, minha casa até que tem bom desempenho térmico. O piso de madeira nos quartos (tacos de demolição que ganhei de um amigo) ajuda a mantê-los mais agradáveis também. Mas, lá pelo meio do ano, entre junho e agosto, nada chega a ser tão eficiente para manter a casa como se lá fora o clima estivesse mais ameno. O termômetro que fica na sala é testemunha: que tal 10 graus dentro de casa?

É preciso, então, fazer outras intervenções. Usar o fogão a lenha, por exemplo, é uma boa maneira de se manter quente, durante o preparo da comida e as refeições. Aqui em casa, sala e cozinha são integradas, o que permite que o calor do fogão se espalhe pelo ambiente (o duro é depois ter que lavar a louça…).

A lareira no centro da sala não foi colocada ali por acaso. Antigamente, nossos ancestrais reservavam o centro do lar para o fogo, com a intenção de que este se espalhasse por toda a casa. Sem falar que o fogo – e não a televisão – era de fato o ponto focal ou de integração dos moradores… Aqui em casa, para receber os amigos no frio, a tarefa ainda é da lareira mesmo.

Para usar o fogão a lenha e a lareira, no entanto, é necessário ter guardado madeira para queimar, certo? O modelo que tenho em casa na cozinha, de cerâmica esmaltada, é bem econômico e consome pouca lenha. Vida no campo não tem tantas (aparentes) facilidades como na cidade. Não é só apertar um botão e pronto. Tudo se “resolve”. Tempos atrás andei recolhendo galhos secos e troncos caídos para fazer um estoque para o inverno. Essa preparação faz parte da observação que temos que aprender a fazer da natureza e seus ciclos…

Você pode me perguntar: mas e o CO2 emitido na atmosfera com a queima da madeira? Pois é, acredito que o saldo entre o que plantamos e o que queimamos é prá lá de positivo. E, desde que se tenha uma boa chaminé para evitar que a fumaça fique dentro de casa e seja parte da nossa respiração, não há grandes problemas em usarmos lenha como combustível. Dos males, o menor.

A rotina do escritório em casa também muda um pouco. É preciso mais disciplina e força de vontade para sair da cama cedo e encarar o trabalho do dia. No escritório, a estante ao lado da minha mesa, no mezanino da casa, recebe uma garrafa térmica com chá de alecrim e uma lata de biscoitos (come-se mais no inverno…). Às vezes, é preciso até usar luvas no computador…

Pequenas dificuldades vêm acompanhadas de pequenos prazeres. Se é difícil sair da cama no frio, é uma delícia tomar o primeiro gole de café, bem quentinho. Se é dureza lavar a louça ou a roupa, é delicioso aquecer as mãos à beira do fogão a lenha. Trabalhar na terra no inverno? E o prazer de comer couve do quintal, hein, vai ser esquecido até a primavera? Não. E o sol da manhã na varanda? Verdadeiros luxos, como tudo, aliás, que há de mais simples na vida.