COMPORTAMENTO
02/05/2014 21:02 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:13 -02

Masturbação infantil: entenda porque as crianças se masturbam e como lidar com as perguntas difíceis

Assim que sai da barriga da mãe, o bebê inicia uma grande jornada de exploração de seu próprio corpo. Com a mesma vontade que suga o seio materno na busca pelo leite que o alimentará, ele põe mãos, dedos, pulsos na boca. Está ávido por novas descobertas. É o que Sigmund Freud, o pai da psicanálise, classificou como a fase oral da sexualidade infantil - um período que vai dos primeiros meses de vida até aproximadamente dois anos de idade.

A exploração, no entanto, não para por aí. É comum com o passar do tempo a atividade exploratória da criança chegar às zonas erógenas - região do pênis, no caso dos meninos, e da vagina, nas garotas. Aí entra em cena uma palavra que até hoje, em pleno século XXI, ainda é pronunciada com uma carga grande de preconceito e cercada de muitos tabus: masturbação.

Sim, crianças, adolescentes, como os adultos, se masturbam. "É normal, é natural, é saudável", afirma a psicóloga infantil e mestre em saúde pública pela Universidade de São Paulo (USP) Lucila de Jesus Mello Gonçalves. "Faz parte da vivência da própria sexualidade. Podem ser experiências para conhecer o próprio corpo e explorá-lo. A criança passa a descobrir os seus órgãos genitais e o prazer decorrente de tocá-los", diz a psicóloga pela Universidade Mackenzie Gisela Furquim.

Mesmo entendendo que a masturbação faz parte do desenvolvimento da sexualidade da criança e do adolescente, são raros os pais e mães que vejam, por exemplo, seu filho de 4 aninhos ou sua garotinha de 6 anos se masturbando e tenha claro como se comportar diante desta cena.

Leia as dicas das duas psicólogas e saiba como lidar com este comportamento:

É normal uma criança se masturbar?

Uma criança se masturbar é normal, natural e saudável, como defendem os especialistas em sexualidade infantil. De acordo com os estudos de Freud, realizados no início do século passado e atuais até hoje, as crianças começam a ter noção de seus corpos e no prazer com a manipulação dos órgãos genitais entre os 4 e 6 anos de idade. É a chamada fase fálica do desenvolvimento sexual.

"Uma criança de 4 anos, por exemplo, começa a perceber as diferenças que existem entre meninos e meninas e a se identificar com a figura do pai ou da mãe", explica a psicóloga Gisela Furquim. "Algumas crianças vão encontrar prazer nesta exploração do corpo, algumas vão descobrir isso mais cedo, outras mais tarde. Algumas vão praticar mais e outras menos", ressalta Lucila Gonçalves.

As crianças, no entanto, ao contrário de adolescentes e adultos, não tem malícia nestes atos, pois essa manipulação é principalmente sensorial (relativa aos sentidos). Sentem apenas que aquela brincadeira é gostosa e relaxante. "São os adultos que podem dar, dependendo de seus próprios tabus, um sentido malicioso precoce a esse comportamento", afirma a psicóloga da USP.

Para quem tem filhos na adolescência, é bom saber que a masturbação nesta fase da vida é uma combinação entre a exploração do próprio corpo, iniciada na infância, com a explosão de hormônios típica da idade. "O adolescente também pode se masturbar de forma saudável, buscando prazer em seu corpo e alívio para a tensão. Por que não?", questiona Gisela. Segundo a psicóloga Lucila Gonçalves, na adolescência a masturbação ganha características próprias: "Já pode vir acompanhada de fantasias. Nesta fase, o adolescente já sabe o que é sexo, os hormônios estão à flor da pele. É mais do que manipulação, é desejo sexual", afirma.

O que fazer caso meu filho ou filha se masturbar na minha frente?

Uma criança que se masturba na frente dos pais ou em algum lugar público, certamente, não tem noção de que o que está fazendo não é apropriado. "A criança deve ter assegurados momentos de quietude com ela mesma, sem a presença dos pais ou de outras pessoas. Nestes momentos ela deveria poder lidar com seu corpo, suas fantasias, suas brincadeiras, à vontade. Aprender a ficar só é importante!", aconselha Gisela Furquim. "Logicamente que a masturbação deveria ter lugar e hora e senso de adequação", completa. A forma de lidar com uma situação destas depende muito da idade da criança.

"Na faixa dos 3, 4 anos os pais podem tentar desviar a atenção da criança com outra coisa caso esta exploração esteja sendo feita num local público ou numa situação que eles considerem inadequada", orienta a psicóloga Lucila Gonçalves. No caso dos maiorzinhos, com 6, 7 anos, vale partir para uma conversa franca e adequada para a idade. "É importante respeitar a exploração da criança e ir orientando aos poucos que isso deve ser feito na intimidade, quando se está sozinho", sugere Lucila.

Devo repreender meu filho ou filha por se masturbar?

A resposta aqui é clara: não. "Uma conversa sobre masturbação entre pais e filhos não deve ter um tom de repressão. O ato da masturbação pode ser internalizado para eles como algo sujo, proibido e isso vai impactar na vida sexual daquela criança quando ela for adulta", explica Lucila Gonçalves.

O mesmo raciocínio vale para filhos na adolescência: "Um jovem repreendido pode se sentir invadido e pode compreender de forma equivocada, que sua relação de prazer com o próprio corpo é algo ruim, vergonhoso, o que pode acarretar dificuldades com sua sexualidade e relacionamentos no futuro", completa a psicóloga Gisela Furquim.

Quando a masturbação deixa de ser algo saudável?

Para poder ter mais certezas do que dúvidas nesta questão é fundamental que os pais saibam o que acontece na vida dos seus filhos. Pelo menos, os hábitos, o comportamento, as atividades, o que fazem durante o dia. Só assim algo que saia da normalidade pode ser identificado. "Se a masturbação fica excessiva e ocupa todo o espaço de prazer, pode virar uma obsessão. Pode virar uma prática solitária e egoísta. Este é o risco", diz Gisela.

Alguns sinais como isolamento, cansaço, baixa energia e dificuldades em se relacionar, podem ser indicadores de um excesso, por isso é tão importante os pais conhecerem muito bem os filhos que têm. Caso tenha dúvidas, o melhor caminho é mesmo procurar ajuda de um especialista, seja o pediatra ou um terapeuta. Alguns pais se sentem à vontade para procurar orientação na escola. Antes de partir para esta alternativa, é bom refletir. "A criança pode se sentir muito exposta", argumenta Lucila Gonçalves. "O melhor mesmo é resolver a questão em casa. Conversar é sempre a melhor saída. Mas sem repreensão", enfatiza a psicóloga.