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01/05/2014 10:19 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:29 -02

Entender mudanças climáticas é essencial para planejamento futuro, segundo professora da USP

Bo Insogna/Creative Commons

Desde o lançamento do 4º Relatório de Avaliação sobre Mudanças Climáticas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007, aumentaram as evidências de que os impactos das mudanças recentes no clima ocorrem em todos os continentes. A conclusão é do rascunho final da segunda parte do 5º relatório do IPCC, lançado em 30/03, que trata dos impactos e vulnerabilidades das mudanças climáticas na sociedade.

Apesar disso, ainda há um fosso no conhecimento de como certas partes do mundo são influenciadas pelas alterações do clima, revela o capítulo 18 da publicação, que trata da detecção e atribuição dos impactos observados.

Uma das principais autoras desse capítulo, a professora brasileira Maria Assunção Silva Dias, da Universidade de São Paulo (USP), falou com exclusividade ao Planeta Sustentável. Especialista em geociência, a pesquisadora atua principalmente em temas ligados à Amazônia, chuvas, precipitação e tempestades.

O que fazem os estudos de detecção e atribuição de impactos da mudança do clima?

Primeiro, é feita a análise dos dados e a medição de temperatura, chuvas e outros fatores. Está aumentando ou diminuindo? É preciso atribuir essa mudança a uma causa: é devida ao aquecimento global, à mudança do uso da terra local, à poluição do ar, é influenciada pela indústria, ou acontece porque são feitas obras de engenharia?

O aumento do nível do mar, por exemplo, é uma grande polêmica. O fenômeno é observado em alguns locais, mas quanto disso é devido ao aquecimento global ou à quantidade enorme de obras na orla marítima, que afundou o chão e o mar ficou mais alto?

A questão toda é atribuir a causa, ou seja, dizer de quem é a responsabilidade pela mudança. É isso o que o capítulo 18 faz. Em diversas áreas – por exemplo, agricultura, recursos hídricos, ecossistemas, corais marítimos, – a primeira pergunta que deve ser feita é: houve mudança? Se a resposta for positiva, pergunta-se: quem é o responsável?

Avaliar isso na agricultura é complicado. Houve uma evolução enorme das variedades cultivadas. O caso da soja é um exemplo: em meados do século 20, era uma planta de latitudes altas e médias, não era uma espécie tropical. A Embrapa foi a grande responsável pela revolução que adaptou a soja aos trópicos, o que tornou o País um grande produtor de soja. Houve uma mudança incrível na produção. Mas qual é a causa? É porque está mais quente? Mais morno? Ou as variedades introduzidas explicam basicamente toda a mudança?

O capítulo 18 fala basicamente disso: se é possível dizer que o aquecimento global e o aumento de CO2 na atmosfera são os responsáveis ou há outra razão para a variabilidade observada.

Por que é importante detectar e atribuir os impactos do clima?

Porque, quando a gente fala em olhar para o futuro e ver o que vai acontecer, na verdade nos perguntamos: o que podemos fazer para enfrentar possíveis mudanças? Se as mudanças aconteceram no clima e foram provocadas pelo aquecimento global, por causa dos gases que aumentam a temperatura, então o que deveríamos fazer é diminuir a emissão desses gases.

Ou seja, a ação que tomaremos para nos adaptar ou para reduzir os extremos climáticos no futuro depende do entendimento das causas das mudanças de hoje. Se conseguirmos entender isso, nos prepararemos para o futuro.