Como saber se alguém está mentindo para você

Seu marido acaba de olhar para cima e para a esquerda quando você lhe perguntou se ele estava tendo alguma coisa com a mulher com quem almoçou? Sua filha lhe deu poucos detalhes quando você lhe perguntou o que fazia fora de casa até tarde da noite? Seu amigo mexeu nas unhas nervosamente quando você lhe perguntou se seu novo corte de cabelo estava bom?

A resposta para qualquer dessas perguntas provavelmente não tem nada a ver com se alguém está mentindo ou não. Ao contrário do que muitas pessoas poderiam pensar, não existe realmente algo como uma "marca" da verdade, ou um comportamento que signifique que alguém está mentindo ou dizendo a verdade com 100% de acerto.

Na verdade, "apenas olhando para o comportamento de uma pessoa e escutando suas declarações, você obterá um índice de precisão de cerca de 54%, o que é pouco mais do que teria se estivesse apenas chutando", explica para o HuffPost a doutora Maria Hartwig, especialista em mentira, professora associada do Colégio de Justiça Criminal John Jay, em Nova York.

Segundo muitos "especialistas", é possível dizer com certeza se uma pessoa está mentindo com base em seu comportamento, mas pesquisas científicas mostram que o comportamento não verbal não é uma boa fonte de evidências, diz ela.

"A ideia clássica em que as pessoas geralmente acreditam -- e que muitos dos chamados especialistas divulgam -- é que os mentirosos se revelam evitando o olhar direto, ficam nervosos, mudam de posição, mexem nas roupas", diz Hartwig. "Todas essas ideias vêm a ser falsas, e se você analisar a pesquisa -- e não estou falando dos resultados de um estudo, mas sobre resumos de centenas de estudos sobre esses tipos de comportamentos não verbais – ela mostra que esses comportamentos não estão na verdade ligados à mentira."

De fato, um estudo recente publicado na revista "Psychological Science" mostrou que talvez sejamos melhores em detectar mentiras quando o fazemos inconscientemente do que quando tentamos decifrar conscientemente os comportamentos.

Mas embora seja impossível dizer com 100% de certeza se uma pessoa está mentindo (afinal, se fosse possível, nosso sistema judicial seria muito diferente, não é?), há pistas e estratégias de interrogatório que você pode empregar que podem, pelo menos, melhorar suas probabilidades de detectar a mentira. Pedimos a Hartwig e a Clark Freshman, professor de direito na Faculdade de Direito Hastings da Universidade da Califórnia, que também tem uma firma que treina advogados e mediadores em detecção de mentiras, para nos explicar algumas:

Pergunte ao suposto mentiroso coisas que ele ou ela não pensariam em planejar para responder.

Também chamado de "abordagem da pergunta imprevista", este método pode ser usado em casos em que você pensa que a pessoa está tentando encobrir algo que fez de errado. Baseia-se na ideia de que os mentirosos levam tempo planejando suas histórias antecipadamente, explica Hartwig.

Funciona assim: digamos que você tem duas pessoas que cometeram um crime, e então elas vêm com um álibi de que almoçavam juntas na hora em que o crime ocorreu. Elas provavelmente se certificariam de contar os mesmos detalhes da mentira conjunta -- como o nome do restaurante onde almoçaram, o que comeram e como estava o trânsito no caminho para o restaurante --, de modo que se você as interrogasse separadamente suas histórias combinariam e pareceriam plausíveis. É aí que você emprega a abordagem da pergunta imprevista e separadamente questiona cada uma delas onde ficava o banheiro do restaurante. Esse detalhe provavelmente não é algo que elas teriam pensado em planejar antecipadamente, por isso é provável que as respostas sejam diferentes -- assim fornecendo alguma evidência de que estão mentindo.

"Apenas lhes perguntar 'O que você fez ontem?' não é suficiente, mas se você fizer perguntas de modo inteligente as respostas poderão ser mais diferentes uma da outra", diz Hartwig. Uma pessoa que diz a verdade provavelmente não previa receber a pergunta do banheiro, "mas se elas estivessem lá poderiam responder à pergunta sem problemas. E um mentiroso poderia ter mais dificuldade".

Use o que você sabe para detectar a verdade ou mentira.

Esta técnica, desenvolvida por Hartwig e seus colegas, é chamada de "uso estratégico da evidência". Em termos simples, baseia-se na premissa de que você tem evidência de um crime ou infração, mas você não diz aos suspeitos que tem essa evidência. Assim, quando você os interroga de maneira sistemática -- sem revelar as evidências que tem --, os mentirosos poderão naturalmente ser mais evasivos, enquanto os que dizem a verdade serão mais diretos com a informação.

Um exemplo: você passou de carro na frente do escritório de seu marido na hora do almoço e percebeu que ele caminhava para o carro dele com uma bela mulher que você nunca viu. Eles riem e caminham muito próximos um do outro, mas não a veem. Suas suspeitas crescem, mas você continua dirigindo. Naquela noite, seu marido chega do trabalho. Se você fizesse uma pergunta genérica, do tipo "Como foi seu dia hoje?", seu marido poderia dizer: "Oh, foi um dia comum. Passei a maior parte dele no escritório, mas uma colega do escritório antigo apareceu para o almoço". Por causa dessa informação voluntária, "talvez eu não desconfiasse, porque a pessoa está dando uma explicação inocente sem perceber que você suspeitava de alguma coisa, para começar", explica Hartwig.

Mas se seu marido disser: "Oh, fiquei no escritório o dia inteiro" e depois você disser: "Oh, coitado, nem teve tempo para almoçar?", e ele disser "Não, passei literalmente o dia inteiro sem levantar da cadeira", isso é bem mais obscuro. Não quer dizer com certeza que ele está mentindo ou trapaceando -- é possível que tenha esquecido sua interação com aquela mulher, ou que foi tão insignificante que ele não sentiu necessidade de lhe contar a respeito --, mas pode sugerir que ele está tentando esconder informação sobre a qual está potencialmente paranoico.

Procure "pontos fracos".

Freshman nota que, embora não haja indicadores garantidos de que uma pessoa está mentindo, há vários "pontos fracos" que indicam que alguém está experimentando uma emoção por algum motivo -- que pode ou não estar relacionada à mentira. Sinais de um ponto fraco poderiam até significar que "há um motivo pelo qual você deve ser mais cuidadoso ou compassivo" com essa pessoa, diz ele.

Um desses pontos é a detecção de microexpressões, ou expressões faciais de emoções que aparecem por menos de um segundo no rosto da pessoa. Elas foram examinadas em um estudo de 2008 publicado na revista "Psychological Science" que envolvia fazer os participantes do estudo olharem para imagens que naturalmente provocavam emoções diferentes (variando de alegria, por causa de uma foto de cachorrinhos brincando, a repulsa, causada pela foto de uma mão decepada). As reações dos participantes às imagens foram gravadas e avaliadas por pessoas que não viam as imagens; os participantes algumas vezes foram instruídos a tentar enganar as pessoas que as julgavam, fingindo reações às fotos. Os pesquisadores descobriram que algumas emoções eram mais fáceis de fingir que outras -- felicidade era mais fácil de fingir que medo, por exemplo -- e expressões estranhas, como piscar rapidamente os olhos quando o rosto parecia triste, também foram comuns quando uma pessoa tentava mentir. E de modo geral os pesquisadores encontraram evidências de microexpressões em pessoas que estavam mentindo.

Mudanças no comportamento básico de uma pessoa são também considerados pontos fracos. No entanto, Freshman diz que isso é aplicável de maneira muito ampla -- não significa que uma pessoa esteja mentindo, e poderia ser um sinal de ansiedade, de que há um conflito emocional ou alguma outra coisa.