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21/04/2014 19:30 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:29 -02

Copa 2014: erros na mobilidade urbana e rede hoteleira repousam na falta de planejamento

Werther Santana/Estadão Conteúdo

“O papel aceita tudo”. Este é provavelmente o melhor ditado popular no Brasil para uma análise do cenário atual da mobilidade urbana do País que, em menos de dois meses, recebe a Copa do Mundo. Entre as muitas promessas, as expectativas deram lugar aos atrasos e a exposição de um “mal tupiniquim”: a falta de planejamento. Tal problema também pode respingar na rede hoteleira, que aumentou a oferta e teme ter prejuízo antes, durante e depois do Mundial.

Segundo estimativa do próprio governo federal, a Copa vai custar aos cofres públicos algo em torno de R$ 26 bilhões. Em entrevista ao Brasil Post, o secretário-geral da ONG Contas Abertas, Gil Castello Branco, disse ser cedo para avaliar que este é o valor final, levando em conta o histórico recente de gestão pública no País. Dados do Tribunal de Contas da União (TCU) mostram que a fiscalização impediu desvios na casa dos R$ 600 milhões, mas não são conclusivos. Para Castello Branco, a oportunidade perdida na área de mobilidade urbana, de obras serem entregues a tempo do evento, é uma das maiores decepções até aqui.

“A Matriz de Responsabilidades previa R$ 12 bilhões apenas para obras de mobilidade, mas R$ 4 bilhões sumiram dela quando se percebeu que as obras retiradas não ficariam prontas a tempo. Hoje são R$ 8 bilhões previstos, mas há uma grande frustração nesse sentido. Mas só vamos saber o valor total da Copa do Mundo quando ela terminar, talvez no ano que vem, já que vão existir muitos gastos de última hora, com estruturas temporais, ou com comunicação, área na qual temos uma deficiência profunda”, analisou.

Do tempo em que o Brasil foi oficializado como sede do Mundial pela Fifa, em 2007, até os meses mais recentes, não foram poucas as obras de mobilidade sugeridas. A mais faraônica delas previa a construção de um trem-bala que ligaria Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro, mas o projeto pouco avançou além das intenções, boatos e ideias. O mesmo pode ser dito sobre os metrôs em Salvador e Curitiba, ou as perspectivas de construção de um monotrilho em Manaus. Em geral, essas e outras obras, não somente na área de mobilidade, pararam na ausência de projetos e de um planejamento claro.

“Lamentavelmente, os gestores brasileiros não conseguem pensar antes das coisas, algo que até já foi praticado no passado. Antes de fazer, é preciso pensar, o que significa planejar. Faltam projetos, porque com eles você sabe exatamente o que espera receber, tudo detalhado, com precisão, incluindo os custos. Com isso na mão, o contratante público sabe o que vai comprar e o fornecedor sabe o que deve entregar”, explicou o presidente do Sindicato Nacional da Arquitetura e da Engenharia (Sinaenco), José Roberto Bernasconi.

Cenário permanece preocupante

Em um levantamento feito pelo próprio Sinaenco, publicado no site Portal 2014, em pelo menos oito das 12 cidades que serão sede da Copa do Mundo há obras em andamento com entregas previstas entre abril e maio, quando já deveriam estar entregues. Sendo assim, o prazo apertado não permitirá uma extenso período para eventuais testes e acertos que possam ser necessários, isso levando em conta que ficarão prontas a tempo do Mundial.

Na questão dos aeroportos, o tema também é crítico. Apesar do governo federal ter lançado, na semana passada, os planos estratégicos para a gestão no setor aeroportuários durante a Copa – e com um discurso bastante otimista –, o cenário que se vê em alguns pontos do País ainda é incerto. Enquanto falava com a reportagem do Brasil Post, o presidente nacional da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), Enrico Fermi, passava por obras no aeroporto de Confins (MG). Segundo ele, essa questão é uma das maiores para o setor. “Muito se falou sobre o empresariado não entraria, não iria participar, mas isso foi feito. O que preocupa mesmo é o que o governo prometeu e não entregou”.

Pelo menos nove dos 12 aeroportos brasileiros que receberão um grande número de torcedores ainda estão em obras, e muitas delas não ficarão prontas para o Mundial – o que o próprio governo federal já admite, adotando o discurso de que tudo está sendo feito “para o povo brasileiro”, sem se focar exclusivamente na Copa em si. Todavia, melhorias mesmo no setor, só em um prazo mínimo de dez anos, na visão de Bernasconi.

“Acho que também vai melhorar (com as obras), só que não será agora. Vai demorar um pouco. Nos próximos dez anos o Brasil irá melhorar o seu parque aeroportuário, mas não será por conta de Copa ou Olimpíadas, mas porque precisamos mesmo. Eles precisam de maior eficiência. Hoje, os aeroportos do Brasil estão abaixo da crítica, pelo menos 20 anos atrasados. Qualquer pessoa que viajar ao exterior verá até mesmo na América do Sul há aeroportos melhores do que os brasileiros”, ponderou, lembrando ainda que poderão existir dificuldades de deslocamento entre aeroporto, estádio e hotéis.

“Mesmo com a possibilidade já levantada pelo prefeito do Rio (Eduardo Paes), de se fazer feriados em dias de jogos, teremos dificuldades. Você tende a ter menos demanda pelos espaços diários e pelo transporte público, já que, quando as pessoas não trabalham, como nos feriados, elas ficam em casa ou vão para uma atividade de lazer e não são de demandar transporte nos horários de pico, que são pela manhã e no fim da tarde. Pode aliviar a demanda por transporte público e facilitar a vida de quem vier para ver jogos da Copa, mas isso não é uma certeza”.

Há quem discorde, como é o caso do presidente da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), Ailton Brasiliense Pires. Para ele, mesmo sem todas as obras previstas prontas a tempo, o País está preparado para receber o contingente que for. “O turista não terá nenhum tipo de dificuldade de acesso. O estádio do Corinthians tem duas linhas, uma do metrô e outra da CPTM, nenhuma cidade possui isso. No Rio, há uma estação do metrô ao lado do estádio. Em Porto Alegre, o Beira-Rio sempre foi longe e com a linha 2 (do metrô) você chega mais ou menos perto. Como será em domingo ou em feriados, não haverá problema. As cidades lidam com isso há décadas. A Copa era sim uma boa oportunidade para as cidades investirem no raio dos estádios, na melhoria da mobilidade urbana”.

Discurso é otimista, mas rede hoteleira teme prejuízos

A Match, empresa parceira da Fifa para a comercialização de pacotes de hotéis para a Copa do Mundo, devolveu no fim de janeiro deste ano, 50% das reservas firmadas com 840 hotéis brasileiros, ainda em 2007 e ratificadas em 2010. Até o fim deste mês de abril, por contrato, a Match pode realizar mais uma leva de devoluções, o que é minimizador pelo presidente nacional da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), Enrico Fermi.

De acordo com os números apresentados pelo dirigente do setor, nem mesmo tais devoluções representam uma preocupação, estando, segundo as palavras dele, “dentro da expectativa”. Fermi criticou o governo federal por ter levantado dúvidas sobre a participação da iniciativa privada do setor no Mundial – “falaram que trariam navios para atender a demanda, essas coisas” – e por não ter cumprido o que cabia a ele entregar. No que atinge os hotéis do País, o presidente ressaltou o pouco empenho visto por ele na capacitação de pessoal, atribuição que seria do Ministério do Turismo.

Fermi ainda falou sobre as críticas em torno dos altos preços de diárias durante o período da Copa no Brasil. Foi essa a alegação, por exemplo, para alguns dos principais veículos de mídia do exterior reduzirem suas equipes que estarão na cobertura do evento. “Não temos efeito comparativo. A última Copa que tivemos foi em 1950, não há parâmetro. E a Match é parceira da Fifa há 32 anos, eles não iriam contratar hotéis ruins. Eles julgaram as tarifas aceitáveis, tanto que realizaram um alto número de reservas”, explicou.

Nesse ponto, o presidente do Sindicato Nacional da Arquitetura e da Engenharia (Sinaenco), José Roberto Bernasconi, vê alguma justificativa pela chamada lei de oferta e procura, o que, economicamente, altera os preços. Entretanto, ele acredita que pode existir quem possa ter exagerado nos valores, e se for o caso, o ônus virá mais adiante. “Nós que estamos viajando pelo Brasil já estamos pagando mais pelos bilhetes. Voar está caro no Brasil, assim como as taxas de hospedagem. Isso não acontece só no Brasil. O que pode acontecer é que alguém erre na medida, se utilizando disso acaba matando a possibilidade futura, assusta muito e as pessoas não voltam mais ou simplesmente cancelam”.

A construção de novos hotéis pelo País também traz um outro desafio: como fazer com que esses novos quartos não fiquem ociosos depois do Mundial. Fermi garante acreditar no poder do mercado interno, mais notadamente o turismo de negócios. “A construção de hotéis não se dá para um evento de 40 dias, mas sim após um estudo mercadológico e de um retorno em um período de até 30 anos. Mas temos convicção que o mercado interno dará retorno e vai absorver esses novos quartos, se inserindo nesse novo cenário”, finalizou.