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17/04/2014 14:27 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

Semana Santa: Papa Francisco inova mais uma vez no ritual do lava-pés

REUTERS/Tony Gentile

Nesta quinta-feira, 17 de abril, o papa Francisco protagonizou a cerimônia de lava-pés, uma tradição da Quinta-feira Santa, mas não numa igreja e sim num centro para pessoas com deficiências perto de Roma. Ele lavou os pés de vários residentes do centro, todos leigos, inclusive mulheres e possivelmente até mesmo pessoas não cristãs ou não crentes.

Galeria de Fotos Papa Francisco em cerimônia de lava pés Veja Fotos

O papa fez algo semelhante no ano passado, pouco depois de ser eleito pontífice, quando surpreendeu observadores católicos ao se deslocar até um centro de detenção juvenil nos arredores de Roma e lavar os pés de 12 jovens, dois dos quais mulheres e dois muçulmanos. Veja foto na galeria de imagens ao pé deste texto.

Muitos católicos de viés tradicional criticam o exemplo do papa. "As leis da igreja dizem que apenas homens podem receber a lava-pés”, escreveu o padre John Zuhlsdorf, blogueiro popular entre a direita católica norte-americana. "Os padres devem lavar os pés de 12 homens ou então abster-se do lava-pés por completo. São leis da Igreja, que todos os bispos e padres são obrigados a obedecer."

Será o papa um dissidente? Ou os tradicionalistas estão levando as regras demasiado ao pé da letra? O que o ritual do lava-pés representa, afinal? Não há respostas simples a essas perguntas, mas o peso da história e dos costumes – sem falar da autoridade – parecem estar do lado do papa.

Ritual antigo

Os relatos sobre rituais cristãos de lavagem de pés remontam ao século 6. Em seu livro de 1985 "A New Commandment: Toward a Renewed Rite for the Washing of Feet”, o autor britânico especializado em temas cristãos Peter Jeffery escreveu que geralmente havia duas formas de lava-pés: a “Mandatum Pauperam”, ou lavagem dos pés de pobres, e a “Mandatum Fratrum”, lavagem dos pés “dos irmãos”.

Nenhuma delas fazia parte da liturgia da Quinta-Feira Santa, e papas e clérigos lavavam os pés de pobres como sinal de serviço e humildade. Nos conventos, “mulheres lavavam pés e tinham seus pés lavados”, além de lavar os pés de convidados e crianças, disse Rita Ferrone, autora de vários livros sobre liturgia e consultora de dioceses norte-americanas para questões litúrgicas.

“O lava-pés tem uma tradição longa e só começou a excluir as mulheres em 1955”, disse Ferrone. Foi nesse ano que o papa Pio XII simplificou os ritos da Semana Santa, numa reforma que transferiu o ritual do lava-pés para a missa de quinta-feira, antes de ser recordada a crucifixão de Jesus na Sexta-feira da Paixão.

O problema é que, naquela época, as mulheres católicas não eram autorizadas a entrar no espaço restrito perto do altar e não podiam ter qualquer participação na missa, diferentemente de hoje. Assim foi estabelecida a regra de que 12 homens escolhidos – os “viri selecti”, em latim – tivessem seus pés lavados por um sacerdote ou bispo.

Com essa mudança, o ritual do lava-pés passou a ser visto como uma espécie de recriação da Santa Ceia e da instituição do sacerdócio. “A tradição não previa que o lava-pés fosse uma dramatização do que Jesus fez na Santa Ceia, mas uma resposta ao comando da prestação de serviço humilde”, afirma Ferrone.

Reformas modernizadoras

O Concílio Vaticano Segundo, realizado durante os papados de João XXIII e Paulo VI, na década de 1960, introduziu várias reformas, incluindo reformas litúrgicas. Apenas a norma sobre a lavagem dos pés de homens não chegou a ser revista.

Na década de 1970, porém, num esforço para refletir a nova abertura da igreja, bispos e padres em muitas dioceses simplesmente ignoraram as normas antigas e começaram a lavar os pés de leigos, incluindo mulheres. Às vezes lavavam os pés de 12 pessoas, às vezes de mais.

Há uma foto do papa Francisco, na época em que ele era o cardeal Jorge Bergoglio, de Buenos Aires, lavando os pés de mulheres com bebês. Algumas estavam dando de mamar.

Um porta-voz do Vaticano, o padre Thomas Rosica, disse na terça-feira que a decisão de Francisco de incluir mulheres e não católicos pretende ser um gesto “para abraçar os que estão nas margens da sociedade”. As regras oficiais, disse ele, às vezes podem desviar a atenção “das mensagens profundas dos Evangelhos e do Senhor da Igreja”.

Mesmo assim, é da Igreja Católica que se está falando, e regras são regras. Embora um porta-voz do Vaticano tenha declarado no ano passado que a decisão de Francisco de lavar os pés de mulheres e muçulmanos na Quinta-Feira Santa foi “absolutamente lícita” porque não envolveu um sacramento, o advogado de direito canônico Edward Peters avaliou que Francisco deu um “exemplo questionável” ao ignorar as normas a Igreja.

Blogueiro popular entre conservadores católicos e defensor das normas, Peters disse que seria melhor mudar as normas que correr o risco de enfraquecê-las, desrespeitando-as. Evidentemente há setores da igreja que gostariam de ver a regra atual mantida.

“Isso está sendo feito por setores que querem que a ordenação seja restrita aos homens”, disse Ferrone. Segundo ela, a discussão sobre o lava-pés na Quinta-Feira Santa “torna-se mais uma ocasião aproveitada por aqueles que gostariam de ver as mulheres excluídas do santuário.”