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17/04/2014 10:59 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

Autonomia para cuidar da água

Martin LaBar

Que a crise hídrica está instalada no estado de São Paulo, disso ninguém mais duvida e muita gente já tem delineado críticas e comentários diversos. Eu até poderia engrossar o time, mas prefiro, neste post, compartilhar com você uma outra visão sobre o tema, que está ligada à maneira como cuidamos da água aqui na Ecovila Clareando, a cem quilômetros de São Paulo.

Aqui, é a Associação de Moradores a responsável pelo abastecimento de água nas casas e terrenos ainda não construídos. Não temos ligação alguma com nenhuma empresa concessionária ou órgão governamental. Nossa autonomia (e nossa responsabilidade), portanto, é total: se não soubermos gerenciar nossos recursos hídricos, correremos o risco de sofrer desabastecimento no futuro.

De onde vem a nossa água? Daqui de dentro mesmo, sem depender de administração ou de recursos externos. É claro que, como sabemos, não existem fronteiras na natureza e o que acontece fora daqui pode nos atingir também, mas ter o recurso por perto e autonomia para cuidar da gestão são dois aliados fundamentais.

Nossa rede de produção e distribuição é composta por um poço caipira instalado em uma de nossas nascentes, e um poço semiartesiano, em outro ponto, complementando o sistema de maneira interligada. Além disso, temos ainda um segundo poço caipira em fase de prospecção, para retirar água de outra nascente – que se mostrou mais vigorosa após o trabalho de reflorestamento que foi feito ao seu redor, em uma de nossas áreas de proteção permanente (APP).

Vale abrir parênteses: quando transformamos parte do antigo pasto em floresta em formação, aumentamos a infiltração da água no solo e, assim, conseguimos fortalecer nossas nascentes. A terra ganhou mais vida e respondeu com mais e mais água, que melhorou a qualidade da terra, que incentivou mais plantios, que chamaram mais água. Um ciclo virtuosíssimo!

E não basta apenas conseguir produzir água. Óbvio: precisamos saber usá-la de modo racional. Por isso, todas as casas são obrigadas a ter cisternas para armazenar a água de chuva. A ideia é fazer com que essa água que cai do céu seja usada para irrigar jardins e plantações, e, mais do que isso, que possa ter usos também dentro das casas: nas bacias sanitárias, na lavanderia, nas pias e chuveiros etc., reduzindo a demanda pela água das nascentes e do poço profundo. Ah, e a ecovila conta ainda com hidrômetros para medição individual do consumo nas residências, uma estratégia interessante e que ajuda na rápida identificação de vazamentos.

Na minha casa, tudo está ligado às cisternas de água pluvial. A única exceção está em uma das duas torneiras da pia da cozinha, que recebe água da nascente para cozinhar e beber. A torneira da cuba ao lado é de água de chuva, usada para lavar a louça. Tomo banho de chuva, lavo roupas com água da chuva, dou descarga com chuva, escovo os dentes com chuva e mais chuva. Nunca tive problema algum, até porque, como (de novo) tudo está interligado, o fato não termos problemas com poluição do ar nos deixa tranquilos para usar essa água pluvial sem receios de contaminação.

É claro que há uns cuidados técnicos a serem seguidos, mas nada que dificulte muito as coisas. O importante mesmo é querer usar bem, é pensar antes de usar, valorizar a água como nosso verdadeiro ouro.

O que fizemos aqui foi criar mais áreas permeáveis, mais caminhos para a água, mais verde. Mas, o que realmente faz diferença é a relação real, presencial, que temos com a água: sabemos onde ela está, de onde ela vem. É diferente da relação quase que virtual que boa parte dos paulistanos, por exemplo, têm com a água. Ela vem de tão longe que ninguém sabe ao certo sua origem, é tratada não sei bem por quem, sei lá em que lugar, e, sabe lá como, chega às torneiras das casas, como num passe de mágica…

Do virtual para o real, fica mais fácil atuar. Minha casa, por exemplo, está localizada a uns 250 metros acima da principal nascente da ecovila, e na mesma direção dela. Consequência disso? Sei que preciso prestar muita atenção às minhas escolhas de produtos de limpeza e higiene pessoal, pois, ainda que eu tenha estações de tratamento de esgoto, qualquer resíduo ou problema técnico poderia afetar a qualidade da água usada por mim e por toda a comunidade.

Se você mora numa cidade grande, pode também aumentar sua autonomia, armazenando água da chuva, cultivando um jardim no quintal ou no seu telhado, transformando o concreto da calçada em área permeável. Dá para mudar, sim. E é bom que isso aconteça antes que a sede não seja “apenas” um problema dos reservatórios que abastecem as cidades…